Segunda-feira, 15 de julho de 2024

Consumo das famílias e investimentos “puxam” PIB no primeiro trimestre

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 05 de junho de 2024

A atividade econômica voltou a registar algum ânimo depois de um semestre de estagnação virtual, numa reação liderada principalmente pelos investimentos, depois de uma sequência de trimestres no vermelho, e pelo consumo das famílias. Neste último caso, turbinado pelas transferências de renda do governo para as faixas de mais baixa renda na população, pela política de valorização do salário mínimo, retomada mais recentemente, pelo pagamento de precatórios caloteados pelo governo anterior e pelo comportamento mais favorável do mercado de trabalho, com avanços para o emprego e para a massa salarial. Uma parcela mais modesta poderia ser associada à lenta e insuficiente redução dos juros, mas de efeitos duvidosos sobre a economia, diante de uma taxa básica real, descontada a inflação projetada, muito próxima de 7,0% ao ano e juros ao consumidor final estacionados em 53,0% ao ano, na média, no segmento de livre contratação de empréstimos e financiamentos. 

Os dados do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de todos os bens e serviços produzidos pela economia, divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), como já se poderia antecipar, foram recebidos por analistas ligados ao mercado financeiro de forma alarmista, num jogo desavergonhado para pressionar o Banco Central (BC) a preservar a política de juros altos. O raciocínio, que tem ajudado a fomentar a ofensiva conservadora a favor de uma improvável “terceira via” na política, relaciona o crescimento ensaiado pelo PIB nos primeiros meses deste ano com futuras pressões inflacionárias, o que inevitavelmente obrigaria a autoridade monetária a desacelerar mais uma vez os cortes na taxa básica de juros e mesmo evitar de vez qualquer nova redução futura, o que condenaria a economia, no limite, a crescer muito pouco ou quase nada neste ano.

O falso risco

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Se considerado o mesmo manual da teoria econômica clássica, para ficar no mesmo campo dos porta-vozes do mercado, o avanço do PIB no primeiro trimestre veio acompanhado de uma reação dos investimentos, o que corresponde a acrescentar maior capacidade de produção para o conjunto da economia. Vale dizer, o aumento do consumo ocorreu paralelamente a um incremento na capacidade de produção de bens e serviços, o que tenderia a neutralizar eventuais pressões sobre os preços, afastando o risco de uma recaída inflacionária, ainda que bastante improvável diante da tendência global de “desinflação”.

Balanço

  • Na comparação com o último trimestre do ano passado, quando o PIB havia recuado levemente (-0,1%), na sequência de um terceiro trimestre sem crescimento algum, o PIB apresentou variação de 0,8% no primeiro trimestre deste ano. Se isso tem alguma relevância, os mercados trabalhavam em geral com uma estimativa próxima de 0,7%. Na comparação com o primeiro trimestre do ano passado, a economia chegou a crescer 2,5%, superando a variação de 2,1% anotada no trimestre final de 2023 (também em relação a igual período do ano anterior).
  • A reação, conforme já anotado mais acima, entre outros vetores, veio dos investimentos, que haviam encolhido 2,3% na passagem do segundo para o terceiro trimestre do ano passado, passando a anotar variação de 0,5% no último trimestre de 2023. No primeiro trimestre deste ano, registrou-se alta de 4,1% – a maior taxa desde o primeiro trimestre de 2021. Frente ao mesmo período do ano passado, o investimento aumentou 2,7% depois de sofrer quedas nos três trimestres anteriores.
  • Historicamente, no entanto, o investimento manteve-se ainda baixo, marcando uma redução de 15,1% em relação ao segundo trimestre de 2013, quando havia alcançado seu nível mais elevado na série de dados dessazonalizados do IBGE. Novamente, e apenas para reforçar, a tendência mais recente tem maior relevância quando se trata de aferir se o crescimento econômico neste momento pode significar a volta de pressões de alta sobre os preços e, portanto, sobre as taxas de inflação.
  • O consumo das famílias avançou 1,5% na saída do quatro trimestre de 2023 para o primeiro deste ano, crescendo 4,4% diante dos três meses iniciais do ano passado. Para relembrar, as famílias haviam reduzido seu consumo em 0,3% no quarto trimestre do ano passado, saindo de altas de 1,1% e de 1,0% respectivamente no primeiro e segundo trimestres de 2023.
  • O dado mais geral da indústria mostra ainda um cenário de estagnação, com recuo de 0,1% no quarto trimestre frente ao trimestre imediatamente anterior, desempenho explicado pelas quedas de 0,5% e de 1,6% nos setores de construção e de eletricidade, gás, água, esgoto e gestão de resíduos, respectivamente. A indústria extrativa apresentou leve baixa de 0,4%. Na contramão, a indústria de transformação avançou 0,7% depois de dois trimestres de paralisação geral.
  • Na visão do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), ao longo do ano passado, o declínio na produção de bens de capital funcionou como “um freio para a indústria”, cenário que viria se alterando neste ano. Os dados do IBGE, prossegue o Iedi, mostram alta de 10,2% na produção física de bens de capital na comparação entre o primeiro trimestre deste ano e o trimestre final de 2023, já com ajuste sazonal.
  • Neste ano, a contribuição positiva para o PIB ficou por conta exclusivamente do lado doméstico da economia. O lado externo “roubou” pontos no crescimento do produto, com crescimento muito mais forte das importações de bens e serviços, muito acima do incremento registrado para as exportações. Entre o quarto trimestre de 2023 e o primeiro deste ano, as exportações variaram apenas 0,2%, diante de alta de 4,1% para as importações. Em relação ao primeiro trimestre de 2023, enquanto o avanço das exportações ficou limitado a 6,5%, as importações saltaram 10,2%.