Coluna

Contribuição do agronegócio para o PIB pode ser negativa neste ano

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 16 de outubro de 2020

Lauro Veiga

A
elevação vigorosa dos preços no campo e o aumento nos volumes colhidos, com
exceção para o Rio Grande do Sul, onde a seca reduziu a safra deste ano em um
quarto, com perdas de quase 9,0 milhões de toneladas de grãos, tenderão a
reforçar o faturamento bruto dos produtores, trazendo alguma melhoria nas
margens líquidas para os principais produtos. Mas o impacto do agronegócio
sobre a formação do Produto Interno Bruto (PIB) tende a ser negativo ou muito
limitado. Considerando a mesma metodologia adotada pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) para aferir o desempenho da economia brasileira
como um todo, o PIB do agronegócio acumulava uma retração de 4,69% na
comparação entre os primeiros sete meses deste ano e igual período de 2019.

Esse
critério considera a evolução do PIB a valores constantes, o que significa
dizer que o indicador registra basicamente a variação dos volumes produzidos
entre dois períodos distintos, num cálculo desenvolvido pelo Centro de Estudos
Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP,em parceria com a Confederação
da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Nesse conceito, o tamanho da
retração tem encolhido mês a mês, sugerindo melhora relativa em relação aos
primeiros meses da pandemia. Até maio, por exemplo, a queda estimada frente aos
cinco meses iniciais do ano passado estava em 4,43%, mas o cenário agravou-se
desde lá, o que fez o PIB do setor encolher 5,44% no primeiro semestre deste
ano. O dado seguinte, contabilizado nos sete meses terminados em julho, mostra
uma retração menos intensa, mas ainda dramática.

Menos
ruim

Daqui
em diante, a depender do ritmo especialmente dos setores de serviços
relacionados ao agronegócio e da indústria de base agropecuária, mas
drasticamente afetados pela crise, os números do PIB, medido em volume, podem
até melhorar, mas a possibilidade de retornarem a níveis positivos parece ainda
distante. Ainda entre janeiro e julho, o volume produzido pela indústria do
setor acumulava perdas de 8,02% diante do mesmo período de 2019, com tombo de
6,13% para os chamados “agrosserviços”. O setor de insumos apresentava alta de
4,77% e o segmento primário (da fazenda para dentro) avançava a um ritmo de
0,97% (resultado da elevação de 4,15% no setor agrícola, o que compensou a
redução de 3,88% acumulada pela pecuária). O comportamento mostra que o setor
não ficou exatamente imune à crise sanitária, afetado, nos momentos iniciais,
pela paralisação de plantas frigoríficas e de outros setores da indústria
agropecuária. Será um dado a mais a complicar as perspectivas para a economia
em geral.

Balanço

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A
outra medida adotada pelo Cepea e CNA para avaliar o PIB, na prática, afere o
comportamento da renda bruta no agronegócio. Sob essa ótica, o desempenho é
amplamente favorável (mas não tem efeitos diretos sobre o PIB tradicionalmente
aferido pelo IBGE). A conta neste caso considera a variação dos volumes
produzidos e dos preços recebidos pelo conjunto do agronegócio em termos reais.

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O
indicador sinaliza o comportamento da renda real do setor e esta tem crescido
fortemente, com alta acumulada de 6,75% até julho. No ano passado, a renda
havia sofrido baixa de 3,46%. Conforme o Cepea, o chamado “PIB-renda” tem
apresentado variações mensais positivas desde outubro do ano passado e passou
pela pandemia quase incólume.

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Na
verdade, a taxa de crescimento mensal, que vinha próxima e até levemente acima
de 1,0% até fevereiro, recuou para 0,93% em março e despencou para apenas 0,19%
em abril (o que pode ser considerado como uma estagnação virtual). Mas reagiu
nos meses seguintes, passando a subir 0,59% em maio, 1,33% em junho e 1,26% em
julho.

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No
acumulado dos sete primeiros meses deste ano, comparado a igual período de
2019, apenas a indústria mantém-se em terreno negativo, com recuo de 0,37%
(resultado de perdas mensais de 1,35% e de 0,92% em abril e maio
respectivamente). Aqui, as maiores perdas estão nas indústrias têxtil e do
vestuário, couro e calçados, produtos de madeira, biocombustíveis, conservas de
frutas e legumes.

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Conforme
o Cepea, a agroindústria de base agrícola chegou a registrar variação ligeira
de 0,12% em julho, mantendo-se em terreno negativo no acumulado até julho, com
baixa de 3,92%. “Já a agroindústria de base pecuária, cresceu 1,16% em julho e
12,0% no período de janeiro a julho”, acrescenta relatório do centro de estudos.

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A
renda no segmento de agrosserviços cresce a uma taxa de 6,0% naqueles sete
meses, com avanço de 2,40% para os insumos e de 18,46% no setor primário.Nesta
última área, a renda no ramo agrícola acumula salto de 24,47% e sobe 8,86% na
pecuária.

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No
setor primário agrícola, além de um crescimento de 3,3% esperado para a
produção, os preços médios ponderados das culturas acompanhadas pelo Cepea
registram um salto de 16,37%. A expectativa do centro de estudos sugere um
aumento de 20,21% para o faturamento real do setor neste ano.

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Na
pecuária, foi computada elevação de 12,93% nos preços médios pagos aos
produtores até julho e prevê-se recuo anual de 1,52% para a produção. O
resultado final tende a ser um incremento de 11,21% no faturamento do setor
neste ano.

 

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