Crédito rural em áreas com alerta de desmatamento encolhe 34% em Goiás
As mudanças mais recentes incorporadas à política de crédito rural, com o endurecimento das regras para a concessão de financiamentos a juros subsidiados em propriedades com registros de infrações ambientais e a criação de novas linhas voltadas ao estímulo de práticas sustentáveis na agropecuária, começam a produzir efeitos concretos no combate ao desmatamento. Dados da plataforma Monitor do Crédito Rural, desenvolvida pelo MapBiomas, indicam que o volume de crédito contratado por glebas com alerta de desmatamento em Goiás caiu 34,0% em 2025, enquanto, no País, a retração foi de 23,1%.
O Monitor do Crédito Rural reúne informações do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor), do Banco Central, cruzando esses dados com registros de supressão de vegetação nativa capturados pelo MapBiomas Alerta. A ferramenta permite identificar a sobreposição entre áreas financiadas e aquelas sob alerta de desmatamento, auxiliando na concessão mais criteriosa dos financiamentos e no alinhamento das políticas de crédito às estratégias de combate à degradação ambiental.
Entre 2024 e 2025, o valor total do crédito contratado pela agropecuária no Brasil recuou 20,3%, passando de R$ 102,58 bilhões para R$ 81,71 bilhões, somadas as operações de custeio e investimento. A retração reflete, em parte, a maior seletividade dos bancos. No mesmo período, o volume de crédito associado a áreas com registro de desmatamento caiu de R$ 14,13 bilhões para R$ 10,87 bilhões, respondendo por 13,31% do total, ante 13,77% no ano anterior.
Em Goiás, a redução foi ainda mais acentuada. O volume total do crédito rural contratado pela agropecuária caiu 25,9%, passando de R$ 5,95 bilhões — o maior valor nominal da série iniciada em 2019 — para R$ 4,41 bilhões. Já as glebas sob alerta de desmatamento receberam R$ 565,56 milhões, contra R$ 857,39 milhões em 2024, o que representa retração de 34,0%. A participação dessas áreas no total do crédito estadual recuou de 14,40% para 12,84%.
Histórico
A participação de áreas com desmatamento ilegal nas operações de crédito rural cresceu de 10,50% em 2019 para 14,07% em 2022, alcançando 15,74% em 2023, mas passou a recuar desde então no País, atingindo em 2025 o menor percentual desde 2020. Em Goiás, a trajetória foi semelhante: o indicador subiu de 10,77% em 2019 para 15,98% em 2022 — o maior patamar da série — e, no ano passado, recuou ao menor nível desde 2019.
Balanço
Como resultado, a área com registro de desmatamento e acesso ao crédito rural subsidiado em Goiás despencou 39,6% entre 2024 e 2025, passando de 222,4 mil para 134,3 mil hectares. No Brasil, a queda foi de 31,0%, com redução de 3,48 milhões para 2,40 milhões de hectares. Na média nacional, a retração acompanhou a diminuição da área total financiada, que caiu 30,2%, de 18,68 milhões para 13,04 milhões de hectares — o menor patamar desde 2019.
Em Goiás, a área total financiada apresentou redução menos intensa, recuando de 1,41 milhão para 1,33 milhão de hectares, queda de 33,8% e também o menor nível desde 2019. Desde 2021, enquanto a área total financiada no Estado diminuiu 58,5%, o tamanho das glebas com perda de vegetação nativa e acesso ao crédito rural encolheu 64,9%, após atingir 382,7 mil hectares.
Como proporção da área total financiada, os espaços desmatados caíram de 19,48% em 2022 para 15,26% em Goiás. No País, o indicador recuou de 19,33% em 2023 para 18,38% em 2025.
Publicado por ocasião da COP 30, realizada em novembro do ano passado em Belém (PA), o estudo “Crédito rural e desmatamento: novas evidências usando as informações do MapBiomas” aponta que, embora o volume total de crédito rural tenha crescido entre 2019 e 2024, a participação de financiamentos em áreas desmatadas apresentou tendência de queda, especialmente a partir de 2021, com maior intensidade nas regiões Norte e Nordeste.
O trabalho é assinado pela pesquisadora Lauana Rossetto Lazaretti, bolsista do Subprograma de Pesquisa para o Desenvolvimento Nacional (PNPD), e por Regina Helena Rosa Sambuichi, técnica de planejamento e pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Regionais, Urbanas e Ambientais do Ipea. Segundo as autoras, a redução do financiamento em áreas desmatadas sugere maior eficácia das políticas públicas de sustentabilidade, associada à adoção de critérios ambientais e ao fortalecimento da fiscalização.
As pesquisadoras destacam ainda que estudos anteriores já indicavam esse efeito. Análises conduzidas por Juliano Assunção, Clarissa Gandour e Romero Rocha mostraram que a Resolução nº 3.545/2008, ao condicionar a concessão de crédito rural ao cumprimento da legislação ambiental, reduziu o desmatamento em cerca de 2.700 quilômetros quadrados na Amazônia entre 2008 e 2011, o equivalente a uma queda de 15% no período.
Em 2010, dois anos após a edição da resolução, foi lançado o Programa para Redução da Emissão de Gases de Efeito Estufa na Agricultura (Programa ABC), voltado à promoção de práticas agrícolas sustentáveis, com alta produtividade e baixa emissão de gases de efeito estufa. Mais recentemente, o BNDES passou a utilizar os alertas do MapBiomas para analisar concessões de crédito, evitando cerca de R$ 806,3 milhões em financiamentos destinados a propriedades com indícios de desmatamento ilegal.
Apesar dos resultados positivos, Lazaretti e Sambuichi alertam que ainda há muito desmatamento a ser evitado, especialmente nos biomas Cerrado e Amazônia. Para ampliar a efetividade, recomendam o fortalecimento das políticas que condicionam o crédito ao cumprimento da legislação ambiental, a ampliação de programas voltados à produção sustentável e a adoção de tecnologias avançadas de monitoramento.