sexta-feira, 17 de abril de 2026

Crédito sofre deterioração com salto nas dívidas mais caras para famílias

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 17 de abril de 2026

Fustigadas por juros estratosféricos e pela falta de alternativas de custos mais baixos, as famílias têm migrado, mais recentemente, para “modalidades de crédito mais caras e mais arriscadas”, o que tem contribuído para elevar o custo médio e os riscos de inadimplência no sistema financeiro. A avaliação é dos economistas Flávio Ataliba Barreto, Pedro Avelino e João Mário Santos de França, no estudo “Novas evidências sobre o peso do crédito nas famílias brasileiras”, publicado pelo espaço digital do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).

O resultado da interação entre aqueles fatores, prosseguem eles, é a consolidação de uma espécie de círculo vicioso de consequências negativas para a demanda doméstica e, portanto, para a atividade econômica em seu conjunto. “Forma-se, assim, uma dinâmica de retroalimentação: juros elevados deterioram a qualidade da carteira [de crédito], o aumento da inadimplência eleva o risco, os spreads se ampliam e o crédito se torna ainda mais caro”, assinala o trio de economistas. Como resultado, aponta o trabalho, gera-se um “equilíbrio adverso, no qual o sistema continua expandindo o crédito, mas com efeitos crescentemente restritivos sobre o consumo das famílias”.

O “choque dos juros”, expressão não utilizada pelos economistas do instituto, acaba penalizando “de forma desproporcional” aquele porção da sociedade que “mais depende desse tipo de financiamento”, mais precisamente, as famílias, no caso brasileiro. A deterioração do mercado de crédito ocorre num sistema financeiro “segmentado, que opera como um mercado de crédito em ‘em duas velocidades’”, definem os autores do estudo. “De um lado, grandes empresas conseguem, em momentos de aperto monetário [leia-se, juros mais altos], reduzir sua dependência do sistema bancário”, acessando o mercado de capitais para captar recursos proporcionalmente mais baratos “por meio da emissão de títulos privados”.

Disparidades

O setor público, notadamente o governo federal, consegue ampliar a captação de recursos no mercado por meio da venda de títulos público a custos historicamente muito altos, neste momento, mas proporcionalmente mais baixos quando comparados às taxas de juros impostas às famílias, que na média das operações realizadas no segmento de crédito livre têm sido submetidas a taxas médias de 62,0% ao ano. Neste sentido, a expansão das operações de colocação de títulos públicos, observam os economistas que assinam o estudo, “tem sido um dos vetores do crescimento do crédito ampliado”. Mas as famílias, no entanto, continuam “fortemente dependentes do crédito bancário tradicional, concentradas em linhas com spreads elevados, como cartão de crédito, crédito pessoal e cheque especial, e com acesso limitado a fontes mais baratas de financiamento”.

Balanço

Nas estatísticas do Banco Central (BC), o saldo do crédito ampliado, que considera outras formas de contratação de dívidas fora do sistema financeiro, a exemplo da colocação de títulos, operações com recebíveis e derivativos e operações no mercado internacional, cresceu 11,8% entre fevereiro do ano passado e o mesmo mês deste ano, dado mais recente divulgado, subindo de R$ 18,822 trilhões para R$ 21,043 bilhões, o que significou elevar sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) de 157,6% para 163,7%. Registrou-se uma variação, portanto, de quase R$ 2,221 trilhões naquela comparação.

Quase 60% desse incremento veio do avanço de R$ 1,323 trilhão no saldo das dívidas dos governos, que passou de R$ 7,862 trilhões para R$ 9,185 trilhões, em alta de 16,8%. A relação com o PIB variou de 65,9% para 71,5%. A dívida ampliada das empresas apresentou incremento até mesmo modesto, na mesma comparação, com elevação de 5,8% em 12 meses, saindo de R$ 6,611 trilhões para R$ 6,993 trilhões (mais R$ 382,0 bilhões).

Em torno de 91,4% desse aumento tiveram como origem o mercado de títulos privados de dívida (debêntures, notas comerciais, recebíveis em geral). O saldo devedor das empresas naquele segmento apresentou alta de 16,4% sempre em relação a fevereiro do ano passado, com o estoque movendo-se de R$ 2,125 trilhões (31,2% da dívida total das empresas) para R$ 2,474 trilhões (35,4% do saldo devedor total).

O crédito ampliado para as famílias, na verdade, continuou crescendo, avançando de R$ 4,348 trilhões (36,4% do PIB) para R$ 4,866 trilhões (37,9% do PIB), em alta de 11,9% (ou R$ 518,0 bilhões a mais). O aumento de R$ 451,0 bilhões no saldo da dívida contratada no sistema financeiro nacional explicou 87,1% do crescimento do crédito total das famílias no período. Os empréstimos obtidos pelas famílias no sistema financeiro subiram de R$ 4,041 trilhões para R$ 4,492 trilhões, variando 11,2% em valores nominais.

Mais da metade da dívida ampliada das famílias, no entanto, ou mais precisamente 51,1% daquele estoque estiveram concentradas no segmento de crédito livremente negociado com bancos e outras instituições de crédito (vale dizer, com taxas livremente impostas às famílias pelo setor financeiro). O saldo do crédito livre para pessoas físicas aumentou 12,56% entre fevereiro de 2025 e igual mês deste ano, saindo de R$ 2,207 trilhões para quase R$ 2,485 trilhões (num acréscimo de R$ 277,335 bilhões em 12 meses).

O crescimento das dívidas no cheque especial, do crédito pessoal não consignado, do cartão de crédito parcelado e rotativo respondeu por praticamente 36% do aumento observado para o total das operações no segmento do crédito livre. E a participação daquelas dívidas, notoriamente mais caras, passou de 23,8% em fevereiro do ano passado para 25,1% neste ano. Nesta soma, a dívida de custo mais alto passou de R$ 524,819 bilhões para R$ 623,615 bilhões, num aumento de 18,82%.

Se os juros médios para as famílias passou a rondar a casa dos 62% ao ano, no caso daquelas operações, os níveis são ainda mais exorbitantes. O crédito pessoal não consignado custa 112% ao ano, com juros de 147% no cheque especial e de 200,2% para o parcelamento no cartão de crédito. Já os juros no crédito rotativo do cartão, campeão dos campeões, dispararam para nada menos do que 435,9% ao ano – o que significa dizer que, se rolar seus compromissos ao longo de 12 meses, o devedor terá multiplicado o saldo de sua dívida em mais de cinco vezes.

Como dificuldade adicional, aquelas dívidas têm gerado taxas de inadimplência muito mais elevadas, chegando a 59,7% no crédito rotativo, 14,4% no cheque especial, 12,9% para o crédito parcelado e 8,9% no crédito pessoal não consignado. “Forma-se, assim, um mecanismo de retroalimentação. Maior risco implica custos mais elevados, que dificultam o pagamento das dívidas e alimentam novamente a inadimplência”, retomam os economistas do Ibre/FGV.

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