Sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Crescimento do emprego perde força na segunda metade de 2022

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 20 de janeiro de 2023

A despeito dos níveis históricos registrados no trimestre finalizado em novembro do ano passado, quando o total de pessoas ocupadas havia alcançado perto de 99,693 milhões, puxado quase que exclusivamente pelo setor de serviços, o ritmo de crescimento do emprego perdeu fôlego ao longo do segundo semestre de 2022. Não por coincidência, a movimentação identificada pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) parece refletir o desaquecimento observado nos últimos meses no setor de serviços, conforme acompanhamento mensal realizado também pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Na série estatística da pesquisa, o total de trabalhadores ocupados havia alcançado 99,661 milhões no trimestre agosto a outubro de 2022, o que significa dizer que, na passagem para o trimestre móvel encerrado em novembro, foram abertas apenas 32,0 mil ocupações, correspondendo a uma virtual estabilização. Esse número correspondeu a apenas 8,2% das 392,0 mil ocupações surgidas na passagem de setembro para outubro. Entre o primeiro trimestre e os três meses encerrados em abril do ano passado, o mercado de trabalho havia aberto 1,237 milhão de vagas e mais 1,004 milhão seriam criadas de abril para maio. Essa intensidade foi sendo “esfriada” mês a mês desde então (ou trimestre a trimestre).

Mas não são períodos muito curtos e que, além de tudo, se sobrepõem? Afinal, o trimestre terminado em novembro inclui os meses de setembro e outubro, que obviamente ajudam a compor o trimestre entre agosto e outubro. A tendência, no entanto, prevalece mesmo se excluída a sobreposição. No trimestre maio a fevereiro de 2022, comparado aos três meses imediatamente anteriores, o total de ocupações havia crescido 2,4%, com 2,282 milhões de empregos novos. O ritmo foi três vezes mais intenso do que aquele observado entre os trimestres setembro-novembro e junho-agosto, quando o número total de ocupados passou a avançar apenas 0,7%, com acréscimo de 680,0 mil ocupações.

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Desaquecimento

Adicionalmente, o desaquecimento pode ser observado também na comparação a idênticos períodos do ano imediatamente anterior. No trimestre setembro a novembro de 2021, foram acrescidas 8,357 milhões de colocações ao total de ocupados frente ao mesmo período de 2020. No trimestre março-maio de 2021, o número de ocupados avançou para 97,516 milhões, correspondendo à criação de 9,365 milhões de vagas em 12 meses, numa alta de 10,6%. No dado mais recente da pesquisa, referente a novembro do ano passado, o número de ocupados registrou variação de 5,0% diante do trimestre setembro-novembro de 2021, correspondendo à criação de 4,763 milhões de vagas – ou seja, praticamente a metade do incremento observado em maio. Numa nota à parte, o recorde de quase 99,7 milhões de ocupados merece um reparo. Esse número corresponde a 57,4% do total de pessoas em idade para trabalhar, o que se compara com 58,5% em novembro de 2013, a mais elevada da série. Para alcançar essa mesma taxa, o mercado teria que criar, hoje, mais 1,930 milhão de ocupações.

Balanço

  • A movimentação no mercado de trabalho registrada pela PNAD inicialmente parecia refletir a retomada das atividades no setor de serviços depois de revogadas as medidas de restrição à circulação e à aglomeração de pessoas ao longo dos meses mais críticos da pandemia. Suas edições mais recentes sugerem que o esfriamento relativo da atividade no setor, nos meses mais recentes, estaria igualmente influindo para desacelerar o avanço do emprego, muito embora os serviços continuem a responder por larga fatia do avanço da ocupação.
  • As pesquisas mais recentes do IBGE sobre o nível da atividade no setor mostram que os serviços haviam devolvido em outubro o avanço de 0,5% observado em setembro ao recuar também 0,5% e fechou novembro em estagnação, sempre em relação ao mês imediatamente anterior. Os serviços prestados às famílias registraram em novembro o segundo mês consecutivo de queda, com baixas de 1,2% e de 0,8% em outubro e novembro.
  • Na comparação com igual período do ano anterior, a taxa anual de crescimento do volume de serviços desacelerou de 9,4% e 9,7% em setembro e outubro para uma variação de 6,3% no mês seguinte. Nos serviços às famílias, da mesma forma, o salto de 18,0% registrado em setembro cedeu lugar para uma variação de 7,8% em novembro, diante do mesmo mês de 2021.
  • Na saída do trimestre junho-agosto para o período de três meses concluído em novembro do ano passado, o setor de serviços abriu 733,0 mil vagas, com o total de ocupados no setor avançando de 70,098 milhões para 70,831 milhões, correspondendo a uma variação pouco superior a 1,0%. Os demais setores de atividade, portanto, demitiram 53,0 mil trabalhadores, já que o número de ocupados naquelas áreas recuou de 28,915 milhões para 28,862 milhões. A agropecuária e a construção demitiram, pela ordem, 147,0 mil e 73,0 mil trabalhadores no período, enquanto a indústria contratou mais 163,0 mil.
  • Em 12 meses, na comparação, portanto, com o trimestre setembro-novembro de 2021, praticamente 99,0% do crescimento das ocupações tiveram o setor de serviços como origem, que teve sua fatia no total de ocupados elevada de 69,7% para 71,1%. O número de ocupados na área de serviços havia atingido 66,130 milhões de pessoas até novembro de 2021.
  • A queda da inflação até setembro, ainda que motivada por fatores artificiais, favoreceu a reação do rendimento médio real, que passou de R$ 2.601 em novembro de 2021 para R$ 2.706 em agosto do ano seguinte, alcançando R$ 2.787 no trimestre finalizado em novembro de 2022, crescendo 3,0% frente ao trimestre imediatamente anterior e 7,1% frente ao trimestre encerrado em novembro de 2021.
  • Como reflexo, a massa salarial habitualmente recebida pelos trabalhadores, em valores reais, chegou a valor mais elevado da série histórica, somando R$ 272,998 bilhões, em alta de 13,0% em 12 meses (ou seja, R$ 31,353 bilhões a mais).