Crise hídrica abre oportunidades no setor de energias renováveis

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 09 de dezembro de 2021

Os desafios gerados pela mais recente crise hídrica, amenizada pelo ciclo de chuvas iniciado em outubro, mas ainda não totalmente debelada, têm estimulado uma elevação das apostas de empresas do setor na geração de energias renováveis, incluindo o setor sucroenergético. Neste começo de mês, a capacidade dos reservatórios nas regiões Sudeste e Centro-Oeste avançou para 20,24%, acima dos 18,67% do último mês de 2020 e ainda levemente superior ao índice de 20,19% observado em dezembro de 2019, mas numa situação ainda pouco confortável, principalmente quando se compara com os níveis alcançados ao final de 2009, muito próximos de 72,30%.

Os cenários para frente ainda causam preocupação e sugerem riscos, na mesma medida em que geram oportunidades fora do setor hidroelétrico. Depois de 19 anos operando no mercado de compra e venda de energia e na prestação de serviços no setor elétrico, o grupo IBS Energy decidiu complementar seu portfólio com um investimento de R$ 502,3 milhões em uma planta de geração de energia com potência nominal de 80 megawatts (MW) distribuídos entre dois geradores – a usina termelétrica Cidade do Livro, numa referência a Lençóis Paulista, sede da nova térmica. As obras, a cargo do braço brasileiro da PowerChina, incluindo a construção de uma linha de transmissão de 26 quilômetros entre a planta e Barra Bonita, deverão ser iniciadas entre abril e maio de 2022, com previsão de conclusão em dois anos, de acordo com Luiz Mello, presidente da empresa.

O projeto embute uma série de novidades, na versão de Mello, a começar pelo fato de não estar associado a processos de produção. “Decidimos investir em uma termelétrica estruturante, que não depende de uma única biomassa e nos dará controle do despacho de eletricidade, gerada a partir de fontes renováveis”, resume. A tecnologia escolhida, a partir do trabalho do especialista Glauco Palhoto, um dos donos da IBS Energy, torna possível a geração de energia a partir de praticamente qualquer tipo de biomassa, desde bagaço e palha de cana até casca de arroz, incluindo cavaco, casca e aparas de madeira e outros resíduos de origem vegetal. A queima da biomassa ocorrerá em caldeira com leito fluidizado, mais eficiente na geração de vapor, que será na sequência resfriado a partir do aproveitamento de água de descarte processada na Estação de Tratamento de Efluentes de Lençóis Paulista.

O projeto da usina, que nasce já com a certificação I-REC, plataforma que permite o comércio de certificados de energia renovável, permitiu à IBS Energy vencer o leilão A-5 com a contratação de 15,6 MW e início de despacho em janeiro de 2026. A empresa tem planos de disputar o leilão de reserva de capacidade previsto para dezembro deste ano e ainda dos leilões programados para abril e setembro de 2022. “Os contratos de fornecimento no mercado regulado servem como lastro nas operações de financiamento, permitindo condições mais favoráveis, além de facilitarem o acesso a outros mercados”, sustenta Mello.

Modernização

Com 35 usinas em seu portfólio, desde a incorporação da Biosev, em agosto deste ano, das quais 31 em operação, o grupo Raízen tem investido na ampliação da cogeração de energia e, paralelamente, também na modernização de turbinas e caldeiras com o objetivo de tornar todo o sistema mais eficiente. O grupo sustenta atualmente capacidade instalada de 1,5 gigawatts (GW) e planeja entregar ao sistema integrado, na safra 2021/22, perto de 2,6 terawatts/hora (TWh). “Hoje, operamos 31 caldeiras de alta pressão nas 22 plantas que fazem cogeração de energia, em um total de 101 caldeiras”, assinala Juliano Oliveira, diretor de produção industrial da Raízen.

Balanço

  • A empresa está investindo em torno de R$ 150,0 milhões em uma nova planta de cogeração de energia a partir do bagaço de cana em Paraguaçu Paulista, com capacidade instalada para 30 MW, num projeto vencedor do leilão A-5 realizado no final de setembro. Conforme Oliveira, será instalada uma turbina com 30 MW de potência, que permitirá a venda ao grid de 90 GWh. A caldeira já instalada na usina de Paraguaçu passará por um retrofit, o que elevará sua pressão de 21 para 67 BAR. O grupo também planeja a instalação de mais uma turbina, também com potência de 25 MW, na termelétrica de Univalem, em Valparaíso (SP).
  • Entre as 22 unidades que trabalham com cogeração, destaca Oliveira, 20 delas incorporam recursos de inteligência artificial que permitem definir parâmetros mais eficientes para a operação, otimizando o uso dos recursos e ampliando o uso de vapor na geração de energia. O grupo tem avançado ainda no aproveitamento da palha de cana na geração, ao instalar na unidade de Jataí (GO) um sistema de limpeza com eficiência de 60% a 65% no uso da palha e que deverá ser replicado, mais adiante, para todas as unidades que já fazem cogeração.
  • A Usina Coruripe, com quatro plantas industriais em Minas Gerais e uma quinta em Alagoas, planeja ampliar sua geração de energia em praticamente 69,3% até a safra 2024/25, passando de 450 mil para 762 megawatts/hora (MWh), de acordo com Carlos Marques, diretor de produção industrial da empresa. Neste ano, em sua primeira incursão nos leilões regulados de energia, a Coruripe conseguiu emplacar a venda de 47,3 mil MWh, que deverão ser assegurados pela ampliação de sua planta em Alagoas, na cidade que dá nome à usina, num investimento de R$ 100,2 milhões.
  • A unidade vem recebendo ainda outros R$ 65,0 milhões num projeto de modernização iniciado em 2020 e a ser concluído em setembro do próximo ano, contemplando a instalação de um turbogerador de alta pressão e baixo consumo de vapor, com potência instalada de 40 MW, e de uma caldeira de alta pressão de 250 toneladas por hora. A empresa busca ainda financiamento para a expansão da planta de Campo Florido (MG), próximo a Uberaba, onde planeja investir R$ 300,0 milhões para elevar a cogeração em quase 129% a partir do ciclo 2023/24, adicionando mais 180,0 mil MWh ao total entregue à rede, atualmente na faixa de 140,0 mil MWh.
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