quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Crises, guerras e clima afetam economias regionais neste ano

Lauro Veiga Filhopor em
Crises, guerras e clima afetam economias regionais neste ano
Foto: Wenderson Araújo/Trilux/CNA

Num ano de crises geopolíticas, guerras e risco climático acirrado pela perspectiva de um El Niño de alta intensidade, as economias do Centro-Oeste e do Norte tendem a acompanhar a desaceleração esperada para o país como uma todo, avalia Giuliana Folego, economista da Tendências Consultoria para as áreas de macroeconomia e de análise setorial. De todo modo, a demanda doméstica relativamente mais robusta e a retomada do crescimento industrial, anota a economista, devem fazer com que o Centro-Oeste lidere o crescimento nacional, com alta de 2,7% para o Produto Interno Bruto (PIB), saindo de um incremento de 3,9% em 2025. O ritmo de avanço no Norte deve ceder de 3,7% no ano passado para 1,8% neste ano, “com menor impulso da indústria extrativa e a agropecuária quase estagnada”, acrescenta ela. A variação segue mais próxima do crescimento médio de 1,9% projetado para o PIB brasileiro.

Se o tarifaço promovido pelos Estados Unidos praticamente não afeta as duas regiões, o choque de custos derivado da guerra contra o Irã chega sob a forma de preços mais altos para fertilizantes e diesel, encarecendo o frete rodoviário e comprimindo margens para produtores que já enfrentam situação financeira delicada. “Há um contrapeso relevante”, pondera Giuliana, já que o petróleo mais caro torna os biocombustíveis mais competitivos. A participação do segmento na indústria chega a 20% em Mato Grosso do Sul e a 16% em Tocantins, variando entre 15,3% em Goiás e 14% em Mato Grosso. “É este setor que puxa a recuperação industrial no Centro-Oeste neste ano, com alta projetada de 17,5% após queda de 31,0% em 2025”, estima a economista.

As projeções para 2027 contemplam alguma reação para o Norte, com elevação prevista de 2,1%, e maior desaceleração no Centro-Oeste, o que tende a limitar o avanço do PIB a 2,0% – ainda assim, acima da média brasileira, estimada em 1,2%.

 

Investimentos

Ambas regiões chegam a 2026 com investimentos em níveis ainda elevados, envolvendo projetos de maior porte e de maturação mais longa, “com decisão de investimento já tomada e cronograma em andamento, o que os torna menos sensíveis à Selic corrente”, avalia Guiliana. Considerando projetos com início de operação entre 2025 e 2030, os investimentos nas duas regiões aproximam-se de R$ 188,5 bilhões, entre os quais apenas a Vale participará com quase 38,0%, cabendo uma fatia de 44,8% ao setor de celulose. Em Goiás, acrescenta a economista, a Aclara Resources “executa o Projeto Carina, de terras raras, em Nova Roma (GO), com R$ 2,8 bilhões e expectativa de 5,7 mil empregos diretos e indiretos”. No setor automotivo, ainda no Estado, acrescenta ela, a “Mitsubishi aporta R$ 4 bilhões em Catalão (GO), em tecnologias híbridas e flex, e a Caoa amplia sua fábrica de Anápolis (GO) com R$ 3 bilhões”. A Inpasa concluiu no ano passado a usina de etanol de milho e sorgo, num investimento de R$ 5,0 bilhões em Sidrolândia (MS), e mantém projetos em Rondonópolis (MT), no valor aproximado de R$ 3,5 bilhões, e em Rio Verde (GO), algo perto de R$ 2,5 bilhões e previsão de geração de mil empregos diretos e 2 mil indiretos.

 

Balanço

Mesmo diante de um mercado muito pressionado, com custos mais elevados e margens mais curtas para os produtores, a Cooperativa Agroindustrial dos Produtores Rurais do Sudoeste Goiano (Comigo) conseguiu bater recordes na geração de resultados, assim como no recebimento e processamento de grãos. “O foco em eficiência operacional, disciplina financeira e equilíbrio entre crescimento e geração de resultados”, resume Dourivan Cruvinel, presidente executivo da cooperativa, sustentou o desempenho em 2025 e deve permitir novo avanço neste ano.

A receita líquida cresceu 25,9% no ano passado, para R$ 13,775 bilhões, e abriu espaço para a alta de 20,85% no resultado líquido, que passou de R$ 888,109 milhões para R$ 1,073 bilhão. Em seu projeto mais ambicioso, a Comigo investe pouco mais de R$ 1,3 bilhão na construção de sua terceira planta de soja, agora na região de Palmeiras de Goiás (GO), integrada à Ferrovia Norte Sul. Instalada para processar 6,0 mil toneladas por dia, a unidade deverá dobrar a capacidade total da cooperativa, atualmente em 5,5 mil toneladas.

A Alunorte tem investido em projetos sustentáveis como forma de assegurar a competividade de sua operação no longo prazo, conforme Phillip McIntosh, presidente da empresa. Entre outras iniciativas, a Alunorte já havia investido R$ 1,3 bilhão na substituição de óleo combustível por gás natural no processo produtivo e mais R$ 318,0 milhões na instalação de três caldeiras elétricas, além de reforçar o uso de energia elétrica de fontes renováveis.

Aqueles investimentos permitiram reduzir emissões equivalentes a 1,4 milhão de toneladas de CO₂ por ano, representando 35% das emissões da empresa. Em outra frente, a companhia tem ampliado gradualmente a substituição de carvão por caroço de açaí nas caldeiras de geração de vapor. A conversão integral das três caldeiras em operação, afirma McIntosh, deverá trazer uma queda de 1,2 milhão de toneladas de CO₂ anualmente. No ano passado, mesmo com queda de 7,1% na receita líquida, o lucro da companhia aumentou 32,4%, de R$ 1,182 bilhão para R$ 1,565 bilhão.

Ao longo de 2021 e 2025, a Saneamento de Goiás (Saneago), quinta melhor classificada em seu setor, investiu R$ 2,80 bilhões em modernização e em expansão e melhorias dos sistemas de água e esgoto, equivalente a uma média anual próxima de R$ 560,0 milhões. Neste e no próximo ano, a operadora espera investir em torno de R$ 2,382 bilhões, ou quase R$ 1,191 bilhão por ano, o dobro dos valores investidos nos cinco anos anteriores, quando o número de unidades ligadas às redes de água e esgoto cresceu em torno de 15%. No ano passado, a receita líquida do serviço subiu 7,47%, para R$ 3,552 bilhões, e acumulou, na primeira metade deste ano, elevação de 6,2% em relação ao mesmo período de 2025, mantendo a tendência de crescimento.

A alta de 16,2% nas receitas líquidas no ano passado, para R$ 47,169 bilhões, mantendo o grupo como a maior das regiões Norte e Centro-Oeste, veio acompanhada de um salto de 342% no resultado líquido, para algo ao redor de R$ 1,309 bilhão. Rafael Biasoli, diretor financeiro da empresa, atribui o desempenho à recuperação da área de grãos e fibras e ao modelo de negócios adotado, integrando produção agrícola, originação, logística, industrialização e energia.

Com frota de mil caminhões, dos quais 106 já rodam com biodiesel puro (B100), 311 barcaças e 26 empurradores, além de operar nove terminais portuários, o grupo arrematou no ano passado o terminal PAR25, no Porto de Paranaguá (PR), em consócio com o grupo Louis Dreyfus Company (LDC), prevendo investir R$ 1,0 bilhão no prazo da concessão. Neste ano, a Amaggi iniciou o uso de B100 em suas embarcações fluviais, inicialmente na hidrovia do rio Madeira.

Em julho deste ano, o grupo concluiu a aquisição de 40% das ações da FS Bioenergia, envolvendo um aporte primário de US$ 100 milhões e a compra de ações de acionistas num valor estimado em US$ 1,0 bilhão.

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