Custos em disparada e incertezas no setor de transporte de cargas

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 15 de abril de 2022

O setor de transporte de cargas rodoviárias foi duramente afetado pela mudança repentina no cenário desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 24 de fevereiro e sequer ainda havia se recuperado totalmente da recessão de meados da década passada e da pandemia. No final do ano passado, a Confederação Nacional de Transportadores Autônomos (CNTA) lançou a campanha “Esse Frete Não!” para estimular caminhoneiros a recusarem fretes de baixo valor, recorrendo ao personagem “Zé Traíra”, simbolizando “aquele que passa a perna nos demais”, segundo Marlon Maues, assessor executivo da presidência da entidade. A situação ali já era considerada crítica para os autônomos, mesmo antes do “superaumento” do diesel em março deste ano, decorrente da escalada dos preços do petróleo na sequência da guerra. “O valor do frete é negociado corporativamente entre embarcadores (donos da carga) e transportadoras, e imposto aos caminhoneiros autônomos. Sem conseguir repassar aumentos, a situação se agrava e muitos têm parado de rodar porque o frete deixou de cobrir custos”, observa Maues.

O assessor acrescenta que alguns segmentos têm conseguido melhor desempenho em função de características mais específicas, a exemplo dos “tanqueiros”, que transportam combustíveis, e dos caminhoneiros que trabalham no transporte de grãos e conseguiram consolidar “melhor posição de negociação”. Mas mesmo “entre os melhores”, sublinha Maues, “aqueles que não se prepararam para atender ao mercado foram mais sacrificados”. De uma forma geral, no entanto, a CNTA entende que a forte alta do diesel fez escalar a insatisfação especialmente entre os autônomos e reforçou a necessidade de “recomposição dos valores dos fretes do caminhoneiro para que se atenuem os desequilíbrios financeiros entre contratados e contratantes”.

Saúde financeira

Assim como a CNTA, a Confederação Nacional do Transporte (CNT) defende a recomposição dos preços do frete rodoviário, de forma a preservar a saúde financeira do setore “evitar o colapso de inúmeras empresas transportadoras”. Conforme Vander Costa, presidente da CNT, “a operação de transporte no Brasil corre risco de se tornar inviável”. Ele acrescenta que o setor não vinha conseguindo repassar sequer os aumentos que vêm ocorrendo em cascata desde 2021, comprometendo a geração de caixa e as margens do setor, estimadas entre 5% e 6% com base em dados dos balanços das transportadoras.

Balanço

  • Segundo Costa, num setor que reúne em torno de 250 mil transportadoras de carga, a guerra deixou todos apreensivos em relação ao que pode acontecer neste ano. “Aquelas que trabalham com frota própria têm maior flexibilidade na gestão dos veículos e na negociação com fornecedores de combustíveis. Mas, no caso das empresas que operam com frota terceirizada, o impacto do salto nos custos é imediato”, pondera ele. Planos de investimento, para aquelas transportadoras que pensavam em investir, foram suspensos e hoje, afirma Costa, “toda a torcida é pelo reestabelecimento da paz”.
  • A expectativa do setor de transporte rodoviário de carga para este ano já não era muito positiva diante do cenário desenhado mesmo antes do conflito no leste europeu. Segundo pesquisa realizada no começo do ano pela Associação Nacional de Transporte e Logística (NTC&Logística), detalha Lauro Valdivia, assessor técnico da entidade, apenas 35% das transportadoras ouvidas ainda aguardavam uma melhora no mercado doméstico neste ano, proporção que havia alcançado perto de 50% na edição anterior da pesquisa, realizada na passagem de 2020 para 2021. “Quem achava que a situação iria piorar passou a representar 35%das respostas, saindo de 20% antes”, observa ainda.
  • A alta de 24,9% anunciada em março para os preços do diesel colocado nas distribuidoras pela Petrobrás reforçou o desânimo num cenário de custos em elevação vigorosa e veio num momento em que as transportadoras ainda tentavam negociar o repasse para os preços do frete do aumento de quase 50% acumulado pelo combustível entre janeiro do ano passado e fevereiro deste ano.
  • De acordo com Valdivia, os custos atingiram recordes de alta num período mais recente, subindo 18,58% nos 12 meses encerrados em janeiro deste ano para o transporte de cargas fracionadas, com salto de 27,65% registrado no segmento de carga lotação, num cálculo que inclui, entre outros, combustíveis e demais insumos, manutenção de veículos e mão de obra. Com o aumento decretado no começo de março, a NTC estimava a necessidade de uma correção adicional no preço do frete de 8,75%, o que elevaria os custos das cargas fracionadas e lotação respectivamente em 28,96% e 38,82%.
  • Em média, os preços do diesel respondem por alguma coisa em torno de 35% dos custos totais, podendo atingir até 50% em alguns casos. Como sugestão, a NTC&Logística tem recomendado às transportadoras que negociem a inclusão de gatilhos baseados na variação do diesel, seja em contratos já firmados seja em novos contratos. O setor, lembra Valdivia, passou por um processo de adequação forçada desde a crise de 2014/2016, ajustando margens e custos, durante o qual algumas empresas acabaram ficando pelo caminho.
  • “A maioria das empresas não tem mais espaço para redução de margens e terá que repassar os aumentos de custo”, aponta Valdivia. A questão, prossegue ele, é que os valores do frete rodoviário continuam “muito aquém do que deveriam, a ponto de concorrer com o ferroviário, o que é um grande problema”.
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