Coluna

Dados do BC mostram salto enganoso do investimentoestrangeiro em março

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 28 de abril de 2020

A
mais recente nota sobre o setor externo divulgada na semana que passou pelo Banco
Central (BC) trouxe uma surpresa. Contrariando os indícios de uma conjuntura
interna e externa a cada dia mais complicada em função do avanço acelerado do
Sars-Cov-2, o vírus causador da Covid-19 que vem assombrando o planeta, os
números apresentados mostravam um salto de quase 60% no investimento estrangeiro
destinado ao Brasil na comparação entre março do ano passado e o mesmo mês
deste ano. Na contagem do BC, que alterou a metodologia
adotada para o acompanhamento daquele tipo de investimento há coisa de dois
anos (salvo engano de memória), entraram no Brasil em março algo como US$ 7,621
bilhões, melhor resultado para o mês em três anos.

Na
comparação com fevereiro, quando a epidemia não havia desembarcado por aqui,
houve um aumento de 27,1%, com o investimento saindo de US$ 5,996 bilhões. Já
em relação a março de 2019, quando o BC havia registrado um investimento de US$
4,777 bilhões, o salto foi de 59,5% – ou seja, US$ 2,844 bilhões a mais. É
preciso recordar que, àquela altura, as principais economias já se ressentiam
dos efeitos do novo coronavírus e das medidas de contenção e isolamento
adotadas para tentar conter a contaminação e preservar vidas. No Brasil, essas
medidas ganharam corpo a partir da primeira quinzena de março. Pode-se
acreditar que o crescimento teria se concentrado nas primeiras semanas do mês,
o que não parece ser uma conta adequada.

O
fato é que esse crescimento, como mostram os números oficiais divulgados pelo
BC, é totalmente enganoso. A maior parte desse incremento deveu-se ao envio de
recursos por filiais de empresas brasileiras no exterior a suas matrizes aqui
dentro. Parecem mais operações para reforçar o caixa das “empresas mãe” em meio
a um cenário de crescente turbulência e incerteza. As operações entre filiais e
matrizes brasileiras mais do que dobraram entre março do ano passado e idêntico
mês deste ano, saltando de US$ 2,057 bilhões para US$ 4,434 bilhões O aumento
de 115,6% correspondeu a um acréscimo de US$ 2,377 bilhões nessa conta.

Morro abaixo

Esse
tipo de operação, classificada pelo BC como “investimento reverso” (já que as
empresas com matriz aqui dentro estariam na verdade “desinvestindo” lá fora,
fazendo retornar dólares gerados por suas filiais no exterior), respondeu por
83,6% de todo o incremento registrado pelo investimento “estrangeiro” total
registrado no período. De fato, o investimento em participação no capital,
quando uma empresa de fora compra ações de outra empresa no Brasil ou decide
montar sociedade com empresas que já estão aqui para novos empreendimentos,
desabou em março, refletindo todo o “climão” negativo na economia e no dia a
dia das pessoas em geral. Aos números então: o chamado investimento em
participação no capital, que havia alcançado US$ 4,656 bilhões em março de 2019,
despencou para US$ 2,284 bilhões, num tombo de 50,94%.

Balanço

·  
No
acumulado entre janeiro e março, o investimento em capital sofreu baixa de
35,55%, encolhendo nada menos do que US$ 5,024 bilhões, saindo de US$ 14,133
bilhões para US$ 9,109 bilhões. As operações entre companhias, onde entram as
remessas de filiais no estrangeiro a suas matrizes no Brasil, aumentaram
143,76% na mesma comparação, saltando de US$ 4,154 bilhões para US$ 10,126
bilhões.

·  
Considerando
apenas o mês de março, essas operações “intercompanhias” avançaram 44,3 vezes,
evoluindo de apenas US$ 120,787 milhões para US$ 5,336 bilhões.

·  
Em
outro indicador que parece reforçar a tese esboçada neste espaço, as empresas
brasileiras chegaram a aportar US$ 1,603 bilhão em investimentos destinados a
reforçar sua participação no capital de filiais ou outras empresas. No mesmo
mês deste ano, essas empresas trouxeram de volta para o Brasil US$ 5,383
bilhões (ou seja, houve uma reviravolta nessa conta de US$ 6,958 bilhões).

·  
Esse
dado parece indicar que o aperto de caixa já pressentido ou de fato
experimentado por essas empresas aqui dentro estimulou a repatriação daqueles
bilhões de dólares, como forma de compensar a redução doméstica no fluxo de
receitas.

·  
A
contabilidade utilizada até recentemente pelo BC mostra uma retração importante
do investimento estrangeiro direto no Brasil, já a partir de março. Nesse
cálculo, o investimento estrangeiro recuou 37,1% no terceiro mês do ano,
chegando a US$ 3,518 bilhões. Comparado ao que havia sido investido em março de
2019, ao redor de US$ 5,592 bilhões, o investimento demonstra uma perda de US$
2,074 bilhões. No trimestre, a queda foi menos intensa (-30,47%), o que parece
confirmar que a retração teria se iniciado em março.

·  
De
novo, as perdas mais severas foram observadas no investimento estrangeiro
destinado à ampliação na participação em outras empresas ou à aquisição de
novas ações aqui dentro. Neste caso, o tombo chegou a 50,95%, pois esse tipo de
investimento saiu de US$ 4,656 bilhões para US$ 2,284 bilhões (uma perda de US$
2,372 bilhões). No trimestre, a retração atingiu US$ 5,024 bilhões, refletindo
queda de 35,55% frente aos três primeiros meses de 2019, com o investimento em
participações baixando de US$ 14,133 bilhões para US$ 9,109 bilhões.

 

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