Déficit comercial da indústria cresce quase 24% e supera US$ 71,1 bilhões
O saldo negativo entre exportações e importações realizadas pela indústria brasileira de transformação no ano passado aproximou-se de US$ 71,114 bilhões, recorde na série histórica da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). Na comparação com 2024, quando o déficit do setor havia alcançado algo próximo de US$ 57,367 bilhões, houve um aumento de 23,96%, correspondendo a uma variação de praticamente US$ 13,747 bilhões em valores absolutos.
Os dados da secretaria mostram ainda que tanto as vendas quanto as compras externas no setor atingiram os valores mais altos da série histórica, mas com avanço mais intenso para as importações, o que resultou na ampliação do déficit comercial.
No ano passado, a indústria exportou US$ 188,685 bilhões e importou pouco menos de US$ 259,799 bilhões, frente a vendas externas de US$ 181,768 bilhões em 2024 e compras internacionais em torno de US$ 239,135 bilhões. As exportações cresceram 3,81%, representando um ganho de US$ 6,917 bilhões. Já as importações avançaram 8,64%, impondo um gasto adicional de US$ 20,664 bilhões à indústria.
As diferenças entre exportações e importações vão além de um desempenho mais vigoroso das compras externas e reafirmam a capacidade limitada da indústria brasileira de exportar bens de alto conteúdo tecnológico, mantendo uma dependência expressiva de bens primários moderadamente processados.
Embora tenham elevado sua participação na pauta de exportações de 13,50% em 2024 para 15,89% no ano passado, as vendas externas de carnes e miudezas responderam por 78,56% do aumento observado no valor total exportado pela indústria de transformação. Nesse segmento, as exportações avançaram de US$ 24,547 bilhões para US$ 29,981 bilhões, alta de 22,14%, o que gerou uma receita adicional de US$ 5,434 bilhões.
Veículos e tratores
Uma parcela relevante do crescimento das vendas externas também veio do setor de veículos, tratores, partes e acessórios, que respondeu por pouco menos de 8% das exportações totais da indústria. Ainda assim, esse grupo de produtos acrescentou US$ 3,187 bilhões ao total exportado, elevando suas vendas de US$ 11,893 bilhões para quase US$ 15,080 bilhões, um crescimento de 26,80%.
Considerando apenas a indústria de automóveis para passageiros, as exportações saltaram 37,25% no mesmo período, avançando de US$ 4,290 bilhões para cerca de US$ 5,888 bilhões. O acréscimo de US$ 1,598 bilhão correspondeu a pouco mais da metade do ganho registrado pelo conjunto de veículos, tratores, peças e acessórios.
Balanço setorial
Apesar da predominância do setor de carnes, houve ganhos relevantes em segmentos de maior valor agregado, como veículos, aeronaves e aparelhos especiais. Essa classificação inclui satélites, veículos de lançamento e suborbitais, além de reatores, caldeiras, máquinas e aparelhos mecânicos, bem como máquinas, aparelhos e materiais elétricos.
As exportações de aeronaves e veículos espaciais cresceram de US$ 4,358 bilhões para US$ 4,891 bilhões, alta de 12,24%. Na sequência, as vendas externas de reatores, caldeiras e máquinas avançaram 7,03%, passando de US$ 12,979 bilhões para US$ 13,892 bilhões. Já as exportações de máquinas e aparelhos elétricos subiram de US$ 4,805 bilhões para US$ 5,097 bilhões, uma variação positiva de 6,08%.
Impulsionadas pela elevação dos preços internacionais do metal, as exportações de ouro registraram um crescimento expressivo de 66,11% entre 2024 e 2025, saltando de US$ 3,960 bilhões para US$ 6,579 bilhões. Com isso, a participação do metal nas exportações totais da indústria de transformação passou de 2,18% para 3,49%. O ganho de US$ 2,618 bilhões respondeu por 37,85% das receitas adicionais obtidas pela indústria no comércio exterior.
O desempenho geral, no entanto, teria sido melhor não fossem as quedas nas exportações de açúcar e produtos de confeitaria, alimentos preparados para animais e combustíveis minerais. No caso do açúcar, as vendas recuaram de US$ 18,836 bilhões para US$ 14,335 bilhões, uma perda de US$ 4,501 bilhões, equivalente a uma queda de 23,89%.
As exportações de ração animal também apresentaram forte retração, com recuo de 16,82%, passando de US$ 10,406 bilhões para US$ 8,656 bilhões — cerca de US$ 1,751 bilhão a menos. Já a redução nos preços internacionais e as flutuações na produção doméstica de petróleo e derivados resultaram em queda de 7,63% nas exportações de combustíveis minerais, que passaram de US$ 12,071 bilhões para US$ 11,149 bilhões, uma redução próxima de US$ 921,5 milhões.
Importações
No campo das importações, a principal contribuição para o aumento veio das indústrias de reatores, caldeiras, máquinas e aparelhos mecânicos. As compras externas desse segmento cresceram de cerca de US$ 41,121 bilhões para US$ 47,052 bilhões, alta de 14,42%, o equivalente a US$ 5,931 bilhões a mais, respondendo por 28,70% do crescimento total das importações da indústria.
Ainda nesse grupo, as importações de turbinas a gás somaram US$ 10,992 bilhões no ano passado, ante US$ 8,486 bilhões no ano anterior, um salto de 29,53%, que representou um acréscimo superior a US$ 2,506 bilhões.
As importações fictas de plataformas de petróleo tiveram crescimento expressivo, passando de US$ 195,257 milhões para US$ 5,155 bilhões — cerca de 25,4 vezes mais. A alta de US$ 4,960 bilhões explicou aproximadamente 24% do aumento total das compras externas da indústria.