domingo, 27 de setembro de 2026

Déficit comercial da indústria de transformação bate recorde

Lauro Veiga Filhopor em
Déficit comercial da indústria de transformação bate recorde

A piora na balança comercial da indústria aeronáutica e no setor de produtos químicos, excluídos medicamentos, contribuiu para elevar o déficit entre exportações e importações da indústria de transformação nos primeiros seis meses deste ano, registra estudo liberado na última semana pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). A diferença entre exportações e importações no setor atingiu seu maior nível na série histórica para um primeiro semestre, com o déficit crescendo de US$ 28,769 bilhões nos seis meses iniciais de 2024 para US$ 37,168 bilhões em igual período deste ano, num incremento de 29,19%, algo como US$ 8,399 bilhões transferidos para outros mercados, ajudando a incrementar a geração de rendas e riquezas fora do País.

O aumento do déficit no setor, com ampla contribuição dos setores de alta e média-alta intensidade tecnológica, cumpriu papel decisivo na queda do superávit comercial do País acumulado no período. Conforme já divulgado, o saldo entre exportações e importações de bens e mercadorias havia sofrido queda de 28,28%, baixando de US$ 41,555 bilhões no primeiro semestre do ano passado para US$ 29,802 bilhões neste ano, correspondendo a uma perda de US$ 11,753 bilhões. A alta do déficit entre exportações e importações de produtos tipicamente da indústria de transformação, portanto, respondeu por 71,46% na variação negativa do superávit registrado pelo conjunto da economia ao longo do período analisado.

Terceiro recuo consecutivo

Segundo o Iedi, as exportações da indústria de transformação “até cresceram 4,7%”, alcançando US$ 84,9 bilhões, mas as importações registraram alta de 10,9% e se aproximaram de US$ 125,7 bilhões, alcançando o maior valor para o período em toda a série estatística. “Em suma, o saldo dos bens típicos da indústria de transformação se deteriorou frente ao primeiro semestre do ano anterior pelo terceiro ano consecutivo”, a despeito do avanço das vendas externas. Para o Iedi, “a questão premente está relacionada à forte mudança do cenário comercial internacional decorrente da postura da nova presidência dos EUA, destino importante da pauta exportadora brasileira”. O instituto aponta ainda um agravamento no processo de enfraquecimento da Organização Mundial de Comércio (OMC) e crescente esvaziamento do multilateralismo, “principalmente por conta da imposição de tarifas de importação pela presidência dos EUA a praticamente todos os seus parceiros comerciais”.

Balanço

  • Como agravante, ressaltado pelo Iedi, o tarifaço estadunidense veio acompanhado desta vez por uma atitude “sem equivalente na história das relações comerciais entre Brasil e EUA: o fato da presidência dos Estados Unidos condicionar as negociações comerciais a mudanças em decisões jurídicas do Supremo Tribunal Federal”. Mais claramente, registra ainda o instituto, “os próprios EUA praticamente bloqueiam a priori negociações econômicas em virtude de exigência de caráter político e jurídico, fora do escopo da atuação do Poder Executivo brasileiro, o que é inerente ao estado democrático de direito, com separação de poderes”.
  • As sanções, desta forma, distinguem-se “até das imposições estadunidenses a outros parceiros comerciais, cujas exigências se atêm mais ao âmbito produtivo e comercial”, anota ainda o Iedi, para complementar na sequência: “Trata-se de um desafio único à diplomacia e à capacidade de negociação do Poder Executivo e do empresariado do Brasil, a condicionar o desempenho exportador do País doravante”.
  • Seguindo definição estabelecida pela Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico (OCDE), o setor de alta intensidade tecnológica engloba as indústrias de aeronaves (leia-se, Embraer), farmacêutica e o complexo eletrônico. Os segmentos de média-alta tecnologia incluem equipamentos bélicos, armas e munições, veículos automotores, reboques e carrocerias, instrumentos médicos, odontológicos e artigos óticos, máquinas e equipamentos, produtos químicos (exceto farmacêuticos), além de setores de fabricação de máquinas, aparelhos e materiais elétricos e outros equipamentos de transporte.
  • O setor de alta tecnologia conseguiu elevar suas exportações de US$ 3,255 bilhões nos seis meses iniciais de 2024 para US$ 3,365 bilhões, numa elevação de 3,38% – um incremento modesto diante do tamanho das importações nesta área e de sua variação entre os dois períodos analisados. As compras externas subiram 11,26% nessa comparação, passando de US$ 25,588 bilhões para US$ 28,469 bilhões. O saldo entre exportações e importações manteve-se amplamente negativo nesta área e o déficit comercial aumentou 12,41%, passando de US$ 22,333 bilhões para US$ 25,104 bilhões.
  • A indústria aeronáutica respondeu por quase dois terços do crescimento do déficit na balança comercial de bens de alta tecnologia. As exportações do setor recuaram 1,22% no semestre, de US$ 1,879 bilhão para US$ 1,856 bilhão, ao mesmo tempo em que as importações aumentaram 29,58%, subindo de US$ 5,574 bilhões para US$ 7,223 bilhões. Em consequência, o déficit do setor saltou 45,25% entre o primeiro semestre do ano passado e o mesmo período deste ano, de US$ 3,695 bilhões para US$ 5,367 bilhões.
  • A indústria de média-alta intensidade tecnológica conseguiu ampliar suas exportações em percentual mais intenso do que as importações, com alta de 12,54% no primeiro caso (de US$ 18,698 bilhões para US$ 21,042 bilhões) e de 11,64% para as compras externas (que saíram de US$ 55,152 bilhões para US$ 61,572 bilhões). Como parece evidente, o maior valor alcançado pelas importações determina um acréscimo maior em valores absolutos, quando comparado às exportações, mesmo que a variação destas últimas tenham se mostrado mais intensas.
  • Assim, o déficit comercial nesta área manteve-se em alta, saindo de US$ 36,454 bilhões para US$ 40,530 bilhões, variando 11,18% – ou em torno de US$ 4,076 bilhões a mais, o que, por sua vez, correspondeu a 48,53% do aumento observado para o déficit comercial da indústria de transformação.

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