quinta-feira, 30 de julho de 2026

Déficit externo cai pela metade em junho e investimento quase triplica

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 30 de julho de 2026 às 08:59

O déficit na conta de transações correntes vem desabando praticamente na mesma medida em que avança a balança comercial brasileira, refletindo o incremento do superávit entre exportações e importações de bens, que tem compensado de longe o crescimento dos déficits nas contas de serviços e de renda primária. Adicionalmente, como mostram os dados do Banco Central (BC), o investimento estrangeiro direcionado para o Brasil passou a apresentar alta vigorosa, cobrindo com larga folga os dados mais negativos na conta de transações correntes.

Os números de junho, divulgados na terça-feira, 28, mostram que o déficit em transações correntes despencou 55,0% na comparação com o mesmo mês do ano passado, encolhendo de US$ 5,177 bilhões para pouco menos de US$ 2,330 bilhões – algo como US$ 2,847 bilhões a menos. Na série histórica dos dados sobre o setor, a déficit de junho deste ano foi o mais baixo para o mês desde 2023. Também em junho, a entrada de investimentos estrangeiros foi a mais elevada par um mês de junho desde 2013, somando US$ 9,075 bilhões, numa escalada de 195,80% frente a US$ 3,068 bilhões no sexto mês do ano passado – o que parece sugerir um ânimo mais positivo de investidores estrangeiros em relação à atividade econômica doméstica. Os valores investidores foram 3,89 vezes mais elevados do que o déficit em transações correntes, alargando a folga registrada no financiamento das contas externas.

O tombo no déficit em conta corrente na comparação mensal deveu-se ao salto de 62,71% registrado pelo saldo na balança de bens, que disparou de US$ 5,427 bilhões em junho do ano passado para US$ 8,830 bilhões no mesmo mês deste ano, num ganho de US$ 3,403 bilhões. O saldo comercial reagiu a uma elevação de 24,83% nas vendas externas diante de uma variação de 15,30% nas importações de bens e mercadorias. Na ponta das exportações, os números cresceram de US$ 29,174 bilhões para US$ 36,417 bilhões, num acréscimo de US$ 7,243 bilhões, enquanto as compras saíram de US$ 23,927 bilhões para US$ 27,587 bilhões, correspondendo a US$ 3,660 bilhões a mais. A conta de serviços, puxada pela alta nas despesas com transportes e viagens internacionais, teve seu déficit ampliado de US$ 4,386 bilhões para US$ 5,133 bilhões, num avanço de 17,03% – mas com acréscimo de US$ 746,930 milhões.

 

Renda primária

Na soma de bens e serviços, o resultado foi amplamente positivo, com o saldo a favor do País multiplicado em mais de quatro vezes no mês, de US$ 861,229 milhões em junho do ano passado para US$ 3,698 bilhões. O déficit em transações corrente decorreu principalmente do resultado negativo na conta de renda primária, que inclui basicamente remessas de lucros e dividendos e pagamentos de juros pelo Brasil lá fora. Nesta área, o País registrou déficit de US$ 6,440 bilhões em junho de 2025 e repetiu praticamente igual resultado neste ano, algo em torno de US$ 6,466 bilhões – uma variação de 0,40%.

 

Balanço

Para recordar, a conta de transações correntes contempla o saldo da balança comercial (exportações menos importações de bens e mercadorias), gastos líquidos do País (descontadas as receitas) com serviços no exterior, incluindo viagens internacionais, transporte de cargas e de passageiros e aluguel de equipamentos importados, pagamentos de royalties pelo uso de tecnologias importadas, entre outros. Somam-se àquela conta gastos com juros e remessas de lucros e dividendos para fora do País, que apresentou dados negativos para a primeira variável e aumento no segundo caso.

Ao longo do primeiro semestre, o déficit em transações correntes acumulou um valor ligeiramente acima de US$ 27,477 bilhões neste ano, saindo de US$ 32,845 bilhões nos seis meses iniciais do ano passado, numa queda de 16,34% (em torno de US$ 5,368 bilhões a menos). O saldo comercial subiu 20,10% na mesma comparação, escalando de US$ 26,133 bilhões para US$ 37,417 bilhões, o que correspondeu a um ganho de US$ 11,284 bilhões.

Impulsionadas pelas vendas de petróleo, minérios e grãos, as exportações aumentaram de US$ 166,961 bilhões para US$ 185,509 bilhões, crescendo US$ 18,548 bilhões e variando 11,11%. As importações experimentaram igualmente algum incremento, saindo de US$ 140,828 bilhões para US$ 148,091 bilhões, numa variação de 5,16% (ou perto de US$ 7,624 bilhões a mais).

A balança de bens e serviços, desta forma, passou a apresentar saldo positivo de US$ 9,988 bilhões entre janeiro e junho deste ano, disparando 15,4 vezes em relação ao superávit de US$ 650,202 milhões realizado nos seis meses iniciais do ano passado. Na renda primária, o déficit brasileiro com o resto do mundo registrou elevação de 12,24% ao passar de US$ 35,828 bilhões para US$ 40,211 bilhões.

O investimento direto no País aumentou em quase um terço, subindo de US$ 35,343 bilhões para US$ 46,986 bilhões (cerca de US$ 11,643 bilhões adicionais, em alta de 32,94%). No primeiro semestre do ano passado, o investimento já havia superado o déficit em transações correntes em 7,61%. Neste ano, a diferença foi alargada, com o investimento suplantando o déficit em 71,0%.

Nos 12 meses encerrados em junho, enquanto o déficit baixou de US$ 75,506 bilhões para US$ 61,350 bilhões nos 12 meses imediatamente anteriores, em baixa de 18,75% (US$ 14,157 bilhões a menos), o investimento direto cresceu 30,47% em igual comparação, avançando de US$ 68,457 bilhões para US$ 89,319 bilhões (mais US$ 20,862 bilhões). Apenas os dólares investidos foram 45,6% mais elevados do que o rombo.

Na conta de serviços, a alta acumulada no semestre recebeu a contribuição mais decisiva, isoladamente, das despesas com viagens internacionais, que subiram de US$ 5,246 bilhões para US$ 6,973 bilhões, crescendo 32,92% – ou seja, perto de US$ 1,727 bilhão a mais, o que explica 88,72% da alta no déficit entre serviços comprados e vendidos no exterior.

Os gastos líquidos somados com serviços de propriedade intelectual (remessas de royalties pelo uso de tecnologias impostadas, principalmente), telecomunicação, computação e informações e aluguel de equipamentos cresceram 11,52% no primeiro semestre, passando de US$ 16,023 bilhões para US$ 17,869 bilhões (alta de US$ 1,846 bilhão).

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.