segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Desafios (e oportunidades) do envelhecimento dos brasileiros

Lauro Veiga Filhopor em
Desafios (e oportunidades) do envelhecimento dos brasileiros
Foto reprodução | Canva

A participação das pessoas com 65 anos ou mais de idade na população total deverá crescer quatro vezes entre 2012 e o começo dos anos 2060, saltando de 7% para 28%, na projeção do superintendente executivo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), José Cechin. “Vamos atingir aquela proporção antes que França, Reino Unido, Suécia e Estados Unidos, numa velocidade de envelhecimento extraordinariamente rápida”, registra o ex-ministro da Previdência Social.

Em média, observa Gleisson Rubin, diretor do Instituto de Longevidade MAG, o número de crianças e adolescentes vem diminuindo a uma taxa de 500 mil pessoas por ano, enquanto o contingente com 60 anos ou mais aumenta em 1,0 milhão anualmente. “O primeiro e maior desafio é conseguir reagir a um processo tão veloz”, considera ele. Ao longo dos anos, esse processo vai impor uma curva de crescimento mais vigoroso nas despesas com saúde, que deve avançar em formato de “jota”, na estimativa de Cechin, para quem a sociedade brasileira “não tem discutido o tema de forma adequada e nem suficiente e, portanto, não está se preparando para isso”.

Os dados mais desagregados sugerem que o impacto será tão mais severo quanto maior a idade dos beneficiários do sistema de saúde. Enquanto a população de 59 anos ou mais tende a crescer 125% até 2060, chegando a 77,0 milhões de pessoas, as faixas de 70 a 79 anos e de 80 a 89 anos deverão avançar 152% e 298% respectivamente, de acordo com Cechin. Os dados da União Nacional Instituições Autogestão em Saúde (Unidas), acrescenta ele, mostram que a despesa per capita com assistência aos idosos com 80 anos ou mais é praticamente quatro vezes mais elevada do que os valores gastos com a população de 55 a 59 anos. Uma opção, considerando o segmento de planos privados de saúde, pode estar na criação de alguma forma de poupança voluntária e “possivelmente incentivada”, sugere Cechin, que permita aos usuários custearem, mais adiante, metade do custo de um plano, num exemplo.

Políticas públicas

Todo o planejamento de iniciativas do Ministério da Saúde nas áreas da atenção primária e da atenção especializada, assim como de ações mais específicas, que demandam serviços mais especializados, já considera a perspectiva de rápido envelhecimento da população e a necessidade de reforçar investimentos e o custeio no atendimento e cuidado à população mais vulnerável, incluindo idosos, segundo Felipe Proenço, secretário de Atenção Primária à Saúde do ministério. “Estamos trabalhando em uma série de iniciativas junto a universidades para organizar políticas públicas e atendimento à população idosa”, reforça ele.

Balanço

  • Entre outros fóruns, parte do debate sobre políticas públicas para a população com 60 anos ou mais ocorre no âmbito da Política Nacional de Atenção à Pessoa Idosa, onde as discussões têm focado a busca de soluções para preservar a autonomia e a capacidade funcional dos mais idosos, ao mesmo tempo em que provê suporte nos casos de maior restrição de atividade, em conjunto com outros setores, mas especialmente com a assistência social.
  • Proenço considera que o Programa Saúde da Família, com 52,2 mil equipes distribuídas entre quase todos os municípios do país, “acaba sendo uma grande iniciativa para cuidar da população idosa devido a sua capilaridade”. O novo modelo em definição para o programa contempla, entre outros pontos, o monitoramento das funções de cuidado com a pessoa idosa, considerado fundamental por Proenço, associado à criação, no ano passado, de equipes multiprofissionais, considerando a “necessidade tanto de prevenção, suporte e reabilitação, como de estímulo à atividade física e manutenção da capacidade funcional”.
  • Atendendo a demandas dos municípios, o ministério já credenciou até aqui mais de 3,0 mil equipes, formadas por fisioterapeutas, preparadores físicos, nutricionistas e médicos geriatras, quando necessário. Diante da escassez de geriatras, prossegue Proenço, o ministério tem trabalhado para aumentar as residências nesta área e, neste ano, lançou o programa Mais Acesso a Especialistas, com foco “em situações de saúde com maior prevalência de pessoas idosas”. O programa terá um reforço no custeio e vai trabalhar com prazos para atendimento, seguindo as demandas a serem apresentadas por Estados e municípios.
  • Em diversos Estados, acrescenta a professora Ana Maria Malik, do Centro de Estudos em Planejamento e Gestão da Saúde (FGVSaúde), o SUS conta com centros de referência à saúde do idoso (CRI) e muitas das condições crônicas que tem prevalência ampliada com a idade “podem ser seguidas, controladas, cuidadas no âmbito da atenção primária”. De qualquer maneira, pondera, faltam especialistas em geriatria e gerontologia, enquanto profissionais voltados para a reabilitação de pacientes, a exemplo de fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e educadores físicos, entre outros, “não têm o reconhecimento lhes é devido”.
  • Adicionalmente, há carência de profissionais especializados em cuidados, “embora haja cada vez mais cuidadores informais ou generalistas”, ao mesmo tempo em “que se verifica a profusão de familiares que cuidam, sem qualquer conhecimento”. Para Malik, seria necessário, neste caso, “aproveitar a realidade para ajudá-las a serem mais proficientes”. A disponibilidade muito aquém da demanda atual de profissionais com formação específica para lidar com doenças típicas do envelhecimento, comenta Rubin, soma-se a uma distribuição territorialmente desigual de estruturas de atendimento, com “forte concentração no Sudeste e no Sul do País”.

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