Desafios e possibilidades de cooperação para etanol nos setores aéreo e marítimo
As pressões geopolíticas e a escalada tarifária patrocinada pelo governo dos Estados Unidos têm gerado constrangimentos ao “aumentar o custo de entrada do etanol brasileiro no mercado norte-americano, reduzindo sua competitividade e introduzindo uma variável adicional de incerteza nas decisões comerciais”, avalia Amaury Pekelman, presidente da União Nacional do Etanol de Milho (Unem). A valorização dos preços do etanol nas usinas, complementa Plínio Nastari, presidente da Datagro Consultoria, contribuiu para a perda de competividade do produto brasileiro no mercado estadunidense.
Dois fatores, no entanto, tendem a influir na construção de uma pauta comum entre os dois países num horizonte de mais longo prazo. A liderança global exercida pelo Brasil e pelos EUA na produção de etanol e as projeções indicando forte crescimento da demanda mundial por biocombustíveis nas próximas décadas, avalia Fabrizio Panzini, diretor de políticas públicas e relações governamentais na Amcham Brasil, tendem a criar “uma oportunidade única para uma agenda conjunta de expansão” desse mercado. Ele considera especialmente o impulso produzido pela “descarbonização dos transportes”, incluindo aviação e o setor marítimo.
Diante dos obstáculos para uma retomada do comércio bilateral, Nastari considera mais provável algum tipo de acordo de cooperação que abra espaço para o avanço conjunto “no desenvolvimento de novos mercados como o uso de etanol no transporte marítimo e aéreo”. Pekelman antevê igualmente espaço para negociações direcionadas “principalmente à expansão dos mercados globais para combustíveis de baixo carbono”.
Mudança nos EUA
Como novidade mais recente, detalha Nastari, a Comissão de Agricultura do Senado dos EUA aprovou em 16 de setembro a nova versão da lei agrícola, conhecida como Farm Bill 2.0, que autoriza a mistura de 15% de etanol na gasolina (E15) durante todo o ano para os Estados que pedirem autorização até a aprovação definitiva da lei pelo Senado, ainda sem prazo previsto. Nos próximos dois a três anos, com a adoção gradual do E15, projeta Nastari, o consumo de etanol no país deverá aumentar em 18 bilhões a 19 bilhões de litros por ano, “absorvendo todo o atual excedente exportado, de cerca de 10 bilhões de litros por ano, abrindo espaço para exportações do Brasil em vários destinos, como Índia, Filipinas, Reino Unido e outros”.
Balanço
Nastari antecipa ainda “enorme espaço de cooperação” entre os dois países “para que avance rapidamente o uso de etanol como substituto de banker fuel na navegação marítima”. Espera-se que a Organização Marítima Internacional (IMO) defina em novembro o cronograma para a descarbonização do setor.
Independentemente dessa aprovação, grandes empresas de navegação já têm adotado motores “tri-fuel”, com uso de bunker, etanol ou metanol. “Já há 70 navios equipados com esses motores, e até o final de 2027 serão mais 400 navios. Isso vai abrir um mercado estimado em mais de 50 bilhões de litros de etanol nos próximos 10 anos”, projeta Nastari, mais do que toda a produção esperada para o Brasil na safra 2026/27, na faixa de 40,9 bilhões de litros.
Uma “agenda concreta” entre os dois países, retoma Pekelman, deveria contemplar, entre outros pontos, a cooperação técnica centrada especialmente em “metodologias de certificação, mensuração da intensidade de carbono, rastreabilidade e reconhecimento de informações utilizadas nos processos regulatórios”.
Para Panzini, de fato, regulação e certificação estão entre as áreas com “maior potencial de cooperação” entre os dois lados, pois a expansão dos biocombustíveis, acredita ele, depende de “previsibilidade regulatória e de critérios que permitam reconhecer adequadamente seus atributos de sustentabilidade nos diferentes mercados”.
O objetivo, detalha em seguida, seria aproximar metodologias adotadas pelos dois países na regulação de biocombustíveis, além de ampliar o que ele qualifica como “interoperabilidade entre padrões”, e avançar no reconhecimento de matérias primas e de rotas tecnológicas diversas. “Questões como rastreabilidade, certificação, cálculo de intensidade de carbono e reconhecimento de diferentes feedstocks terão influência crescente sobre quais produtos e tecnologias conseguirão acessar esses novos mercados”, considera Panzini.
Em nota, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) considera que ambos países, como protagonistas globais na produção de biocombustíveis, “compartilham oportunidades relevantes de cooperação” e considera positivo que Brasília e Washington “mantenham abertos os canais de negociação e avancem na busca de soluções para as questões tarifárias”.
No entanto, pondera que discussões eventuais sobre acesso a mercados apenas “ganham consistência quando inseridas numa visão mais ampla das relações comerciais no setor sucroenergético”. Sob este ponto de vista, a entidade defende que tanto o etanol quanto o açúcar produzido aqui dentro assegurem condições de acesso ao mercado estadunidense, “atualmente limitadas por barreiras tarifárias proibitivas”.
Embora as tarifas impostas ao setor tendam a dificultar o comércio bilateral, comenta Pekelman, torna-se “importante observar que o comércio de etanol entre os dois países já é relevante e possui fluxo nos dois sentidos”. Segundo ele, entre 2017 e os primeiros meses de 2026, os EUA consolidaram-se como segundo mercado de destino das exportações brasileiras de etanol, somando 4,83 bilhões de litros no período, algo como 32% do volume total exportado pelo Brasil.
No lado das importações, os EUA responderam por compras no total 5,34 bilhões de litros, em torno de 87% de todo o etanol importado pelo País em igual intervalo. “Esses números mostram que existe um comércio bilateral efetivo e significativo, e que medidas tarifárias tendem a encarecer e reduzir a eficiência de uma relação que já funciona em ambas as direções”, registra ele.
Nos primeiros oito meses deste ano, os dados da Unica mostram que as exportações brasileiras de etanol para os EUA sofreram baixa severa frente ao mesmo período do ano passado, desabando de 245,58 milhões para 100,33 milhões de litros, o que contribuiu para derrubar em quase 30,0% as vendas externas totais do setor. As importações seguiram caminho inverso, com salto de 90,4% explicado em grande parte pelo crescimento das compras no primeiro trimestre deste ano.
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