Desigualdade dispara e satisfação do brasileiro cai ao menor nível

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 19 de junho de 2021

O cenário relevado pelo recente trabalho “Bem-Estar Trabalhista, Felicidade e Pandemia”, organizado pelo diretor do FGV Social, Marcelo Neri, escancara o que analistas do mercado, comentaristas globais e a equipe econômica em conjunto, salvo raríssimas exceções, têm desprezado em suas análises sobre a economia brasileira. Não porque desconheçam os dados, mas por opção política (ou ideológica, como preferem alguns), em defesa de uma agenda de desmonte do Estado, da nação, na verdade, como reforça agora a aprovação açodada e sem debates da entrega da Eletrobrás à sanha dos mercados – assunto para uma futura coluna.

Parecia já bastante evidente que a crise inédita causada pela pandemia e pelas medidas de restrição à movimentação de pessoas e ao funcionamento de setores relevantes para o emprego e a geração de renda. Com avanço histórico do desemprego, redução das oportunidades de emprego, com fechamento de empresas, e perdas de renda, especialmente entre as famílias de renda muito baixa, os indicadores sociais sofreram agravamento equivalente, numa intensidade até aqui ainda não experimentada pelo País, como comprova o trabalho.

Conforme anota Neri em seu estudo, “um ano depois (do início da pandemia) podemos datar o primeiro trimestre de 2021 como o pior ponto da crise social”. Segundo ele, os “indicadores objetivos de performance trabalhista, como desigualdade, renda média e bem-estar, baseados em renda per capita do trabalho, apresentam piora inédita na pandemia”. Considerando a média móvel de quatro trimestres, o índice de Gini, que mede o nível de desigualdade numa economia ou em um setor do país, atingiu 0,674 nos quatro trimestres encerrados no primeiro quarto de 2021, o que significou um aumento em torno de 5,0% frente ao primeiro trimestre do ano passado, quando aquele índice havia alcançado 0,642. Quanto mais próximo de um, maior a desigualdade. Para comparar, em seu melhor momento, o País havia registrado índice de 0,610 no primeiro trimestre de 2015. Desde lá, o indicador da desigualdade apontou uma piora de 10,5% e chegou ao seu nível mais elevado na série histórica da FGV Social, iniciada em 2012.

Análises desmentidas

A renda média per capita efetivamente recebida pelos trabalhadores, ainda considerando a média móvel de quatro trimestres, desabou 11,3% entre o primeiro trimestre de 2020, quando havia alcançado R$ 1.122, e o mesmo período deste ano, chegando a R$ 995, a mais baixa da série. A pandemia trouxe um achatamento da renda, via redução das ocupações e aumento do desemprego, levando a uma perda igualmente inédita de bem-estar e uma piora proporcional nos níveis de satisfação dos brasileiros com a vida presente. As perdas em série sofridas pela grande massa de trabalhadores, refletidas naqueles e em outros indicadores, desautorizam análises mais otimistas sobre a economia e seu futuro imediato.

Balanço

  • Utilizando dados sobre renda e desigualdade, o FVG Social desenvolveu uma medida de bem-estar social, chegando a um índice em reais que jamais conseguiu se recuperar desde a recessão de 2015/2016 e agora desaba literalmente. O ponto mais elevado foi registrado no quarto trimestre de 2014, quando o indicador de bem-estar bateu em R$ 429. Daí até o primeiro trimestre de 2017, registrou-se queda de 7,9%, com leve alta de 1,8% até o primeiro trimestre do ano passado, quando o indicador havia estacionado em R$ 402.
  • No primeiro trimestre deste ano, num tombo de 19,4% frente a idêntico período de 2020, o índice de bem-estar despencou para R$ 324 e marcou seu recorde negativo até aqui. Essa perda, não por acaso, coincide com uma piora na nota média de satisfação com a vida presente no País, segundo dados de uma pesquisa global realizada pelo instituto Gallup e trabalhados pela equipe do FGV Social.
  • A nota havia alcançado 7,1 em 2013, baixou para 6,5 em 2019 e caiu para 6,1 no ano passado. A queda no Brasil durante a pandemia foi mais severa do que a observada em um conjunto de 40 países pesquisados pelo Gallup, muito provavelmente associada à tragédia sanitária a que o País tem sido submetido pelo desgoverno de plantão.Entre aqueles 40 países, o índice de satisfação manteve-se virtualmente estabilizado, saindo de 6,02 para 6,04 entre 2019 e 2020.
  • Analisado por faixa de renda, o indicador de satisfação reforça as desigualdades no País. Entre os 40% mais pobres, a nota de “satisfação” baixou de 6,3 para 5,5. Mas avançou ligeiramente entre os 20% mais ricos, indo de 6,8 para 6,9. A relação parece óbvia, já que os mais pobres foram muito mais sacrificados ao longo da pandemia, seja pela impossibilidade de manter o isolamento, pelas dificuldades de acesso a sistemas regulares de saneamento básico e pelo apoio oficial intermitente e, numa fase mais recente, totalmente insuficiente para assegurar a subsistência dessas famílias.
  • Ao avaliar a renda de todos os trabalhos, o FGV Social constatou uma retração média de 10,89%. Entre a metade mais pobre dos trabalhadores, as perdas foram quase duas vezes mais severas, numa queda de 20,81%. Segundo o estudo, “Indicadores subjetivos, como satisfação com a vida, apresentaram queda maior na base da distribuição de renda. A diferença de satisfação com a vida entre os extremos de renda era de 7,9% em 2019 e sobe para 25,5% (em 2020). Ou seja, há aumento da desigualdade de felicidade na pandemia”.
  • Entre outros indicadores subjetivos, capturados pelo Gallup ainda, 24,0% dos brasileiros responderam que haviam experimentado raiva no dia anterior ao da pesquisa, diante de 19,0% em 2019. Esse percentual registrou variação menos intensa nos 40 países que formam a amostragem total, saindo de 19,2% para 20,0% em igual período.
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