Desmonte achata fatia do BNDES no PIB para somente 0,7% em 2021

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 10 de maio de 2022

A participação da carteira de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na economia brasileira encolheu para níveis historicamente recordes no ano passado, contribuindo para tirar tração da atividade econômica em geral e, particularmente, dos investimentos, reduzindo as possibilidades de uma reação de longo prazo mais sustentável e duradoura. O total de empréstimos e financiamentos concedidos pelo banco de fomento aos diversos setores da economia passou a representar meros 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB), o mais baixo desde 1995, ou seja, há pouco mais de duas décadas e meia, quando a carteira do banco estatal havia respondido por algo em torno de 1,0% do PIB, de acordo com artigo do economista Gilberto BorçaJr., da Área de Planejamento e Pesquisa Econômica (APP) do BNDES.

A participação do banco no mercado brasileiro de crédito, da mesma forma, caiu para apenas 9,23% também no ano passado, também o mais baixo desde o começo da série, em 1995. Uma reversão desses números em direção às médias históricas, entende Borça, seria relevante para a retomada da economia. “Em um momento em que a agenda prioritária de curto prazo deve se concentrar na retomada do crescimento, o BNDES (…) poderia ser mais ativo na concessão de financiamento à economia, elevando esse apoio para cerca de 2,0% do PIB, valor compatível com sua média histórica de atuação”, reforça o economista.

Financiamento de longo prazo

Historicamente, prossegue ele, o banco de fomento sempre foi um “ator relevante no mercado de crédito bancário doméstico”, direcionando recursos para financiar o desenvolvimento econômico de forma mais ampla, suprindo recursos “notadamente” para grandes projetos industriais e de infraestrutura básica, o que transformou o banco na principal fonte de recursos de longo prazo para a economia brasileira. “O BNDES faz parte de uma rede de bancos oficiais que garante uma característica peculiar ao mercado de crédito no Brasil, que é sua flexibilidade e complementaridade com o sistema de bancos privados. No entanto, recentemente, seu papel tem se modificado, com a instituição passando por um amplo redimensionamento de seu apoio via crédito”, comenta Borça, que divide a atuação do banco entre 2000 e 2021 em seis períodos distintos, como se detalha a seguir.

Balanço

  • Numa primeira fase, entre 2001 e 2003, Borça identifica dois movimentos paralelos, que contribuíram para uma expansão importante da carteira de crédito do BNDES, que teve sua participação no crédito total transacionado na economia elevada de 17,3% para 22,8%.
  • O economista destaca o crescimento dos desembolsos destinados ao financiamento de exportações por meio da linha BNDES-Exim, que vinha crescendo desde 1997, ainda nos anos FHC. Conforme Borça, as exportações receberam em média qualquer coisa ao redor de 30,0% dos desembolsos totais do banco entre 2001 e 2003, atingindo neste último ano um pico de 35,5% (o que se compara com 4,1% em 1996). “Houve, portanto, ampla geração de ativos em moeda estrangeira”, constata ele.
  • Ao longo de 2002, em meio à campanha eleitoral e às incertezas que a cercavam, a economia brasileira enfrentou um “intenso processo de depreciação da taxa nominal de câmbio”, que dizer, o dólar disparou, acumulando salto de 52,2% entre o final de 2001 e o último mês do ano seguinte. “A conjugação desses fatores fez com que o saldo da carteira de crédito do BNDES, quando mensurado em moeda nacional, tivesse um salto significativo, elevando sua participação no estoque total de crédito”, chegando a 22,8% em 2003, frente a 17,3% em 2000, ainda de acordo com Borça.
  • O banco enfrentou perda relativa de participação no mercado de crédito entre 2004 e agosto de 2008, saindo daqueles 22,8% registrados em 2003 para 15,6%. O movimento respondeu, no entanto, ao início do “ciclo expansionista de crédito” observado no País na primeira metade dos anos 2000 sob liderança do financiamento às famílias, com avanços do crédito consignado e à compra de veículos, suportado principalmente pelos bancos privados, no lado da oferta.
  • Na fase seguinte, já entre 2006 e 2008, as operações de crédito privado às empresas ganharam maior relevância, de acordo com Borça, “no contexto do ciclo de investimentos vivenciado pelo Brasil” naquele período. As operações do BNDES mantiveram-se em crescimento, mas em velocidade inferior à de mercado, sublinha ele.
  • Ao longo dos anos da crise financeira global, entre setembro de 2008 e o final e 2010, os bancos públicos assumiram papel anticíclico, injetando crédito na economia de forma a amenizar os impactos recessivos da crise. A participação do banco no crédito total permaneceu ao redor de 20% entre 2011 e 2015, com a continuidade dos empréstimos do Tesouro Nacional ao BNDES.
  • Entre 2016 e 2017, o banco passa a experimentar “expressiva contratação” em sua carteira de empréstimos e financiamentos, com a participação no crédito total baixando de 21,0% em 2015 para 17,3% em 2017. Os desembolsos do banco caíram 27,5% em termos reais entre 2015 e 2017 e devolveu ao Tesouro perto de R$ 163,0 bilhões em 2016 e 2017.
  • Na fase mais recente, de 2018 a 2021, a carteira de crédito da instituição encolheu a uma taxa anual de 10,0%, acumulando perda de 34,3% depois de descontada a inflação. O BNDES ainda pagou antecipadamente ao Tesouro em torno de R$ 289,5 bilhões (somando R$ 452,5 bilhões desde 2016). No mesmo período, a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), mais baixa, foi trocada pela Taxa de Longo Prazo (TLP), mais cara, tornando mais pesado o custo do financiamento de longo prazo.
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