quarta-feira, 1 de julho de 2026

Despesa com juros supera gastos sociais em mais de 40% até maio

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 1 de julho de 2026

O processo exageradamente acanhado de cortes da taxa básica de juros em curso em nada alterou os impactos gerados sobre os resultados do governo central, que consolida os números do Tesouro, da Previdência Social e do Banco Central (BC). Pelo contrário, o peso dos gastos com juros continua em ritmo acelerado de crescimento neste ano, sabotando as possibilidades do tão reclamado ajuste fiscal. O estrago da política tresloucada de juros nas alturas não se limita aos rombos criados nas contas do setor público, mas ajuda ainda a agravar a crise de inadimplência e endividamento da população, afetando o dia a dia do povão, além de, como já sabido e reconhecido, gerar maiores desigualdades e iniquidades.

Desde o ano passado, os gastos com juros passaram a superar toda as despesas realizadas pelo Tesouro com programas sociais, saúde e educação. Neste ano, a distância vem se alargando com o avanço ainda mais acentuado da conta financeira espetada no orçamento federal, comprometendo seu equilíbrio. Nos 12 meses de 2025, a despesa com juros superaram os gastos sociais em 23,04%. Mas a diferença, no acumulado entre janeiro e maio do ano passado, havia sido de 21,46%. Em valores atualizados até maio deste ano com base na variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os juros consumiram quase R$ 331,530 bilhões nos cinco meses iniciais de 2025, diante de R$ 272,954 bilhões gastos com benefícios de prestação continuada, com o Bolsa Família, abono e seguro desemprego, assistência social, saúde e educação.

Aquelas despesas passaram a somar R$ 300,753 bilhões nos meses cinco meses deste ano, num avanço de 10,2% em termos reais, passando a representar 26,9% das despesas primárias totais, excluídos gastos de natureza financeira. Mas os juros dispararam no mesmo período, atingindo R$ 423,317 bilhões entre janeiro e maio deste ano, o que representou um salto de 27,69% em termos reais. Comparados aos valores direcionados para programas sociais, saúde e educação, os recursos drenados para o pagamento de juros foram 40,75% mais elevados, gerando um estrago superior ao déficit primário acumulado em igual período, como mostram os dados da Secretaria do Tesouro Nacional (STN).

 

Juros e o rombo

Mesmo diante das evidências, que “sobram” nos dados oficiais, a ofensiva permanente da “esquadrilha austericida” não apenas menospreza os efeitos da política de juros sobre as contas públicas, como sustenta que o ajuste fiscal deveria se concentrar no lado das despesas, atingindo espacialmente políticas que buscam, ainda de forma tímida, compensar os impactos concentradores da renda das políticas monetárias e tributária. As estatísticas do BC mostram, por exemplo, que a conta dos juros respondeu por 95,84% do déficit nominal acumulado pelo setor público brasileiro, incluindo nessa contabilidade o governo central, Estados, prefeituras e estatais, entre 2021 e 2025.

 

Balanço

Naqueles cinco anos, o resultado nominal de todo o setor público, dado que inclui o que foi gasto com juros no cassino financeiro instalado no País, alcançou perto de R$ 3,872 trilhões, algo como 7,10% do Produto Interno Bruto (PIB), na média anual. Os juros responderam por uma fatia de nada menos do que R$ 3,711 trilhões, ao redor de 6,80% do PIB anual médio do mesmo período, diante de um déficit primário de R$ 160,977 bilhões ou meros 0,30% do PIB. Ainda assim, os ataques da “brigada austericida” têm como alvo as despesas primárias, desprezando os gastos com juros.

Os dados da STN para este ano, considerando os cinco primeiros meses, mostram uma mudança de sinais no resultado das contas primárias do governo central, saindo de um superávit de R$ 36,441 bilhões no ano passado, a valores atualizados, para um déficit de R$ 43,313 bilhões. Com a inclusão dos juros, o chamado déficit nominal entrou em disparada, num avanço muito mais vigoroso do que aquele que poderia ser explicado pela virada de sinais no resultado primário.

De fato, o rombo saltou 57,73% na comparação com os cinco primeiros meses de 2025, saindo de R$ 296,951 bilhões para R$ 468,380 bilhões. A participação dos juros na composição daquele déficit atingiu perto de 90,38%. Adicionalmente, o aumento nas despesas com juros, significando um acréscimo de R$ 91,788 bilhões, respondeu por mais da metade do crescimento do déficit nominal – precisamente, uma contribuição de 53,54% do incremento de R$ 171,429 bilhões registrado pelo resultado nominal.

O balanço parece mais negativo do que sugerem os dados desagregados divulgados pela STN no começo desta semana. O resultado primário foi influenciado por uma combinação de um crescimento real menos expressivo das receitas primárias e um aumento mais intenso das despesas primárias, descontados os juros. As receitas líquidas de transferências avançaram de R$ 1,026 trilhão para pouco menos de R$ 1,075 trilhão, variando 4,79% em termos reais (já descontada a inflação), correspondendo a um ganho de R$ 49,158 bilhões.

As despesas primárias totais subiram 13,03% em relação aos cinco meses iniciais do ano passado, saltando de R$ 989,380 bilhões para R$ 1,118 trilhão, correspondendo a um acréscimo de R$ 128,912 bilhões. É preciso levar em conta, no entanto, que perto de 54,80% daquela alta estiveram relacionados ao crescimento das despesas com precatórios e sentenças judiciais. Esse tipo de gasto avançou de R$ 13,769 bilhões entre janeiro e maio de 2025, algo como 1,39% das despesas totais, para R$ 84,409 bilhões, numa escalada de 513,05% depois de descontada a inflação.

Os precatórios passaram a representar 7,55% das despesas primárias totais, mas sua contribuição para o crescimento geral foi bem mais expressiva, já que os desembolsos no setor aumentaram em R$ 70,641 bilhões. A mesma categoria de gasto explica toda a piora no resultado da Previdência, que havia ampliado seu déficit de R$ 162,667 bilhões para R$ 187,580 bilhões, em alta de 15,32% (perto de R$ 24,914 bilhões a mais).

O valor dos precatórios pagos pela Previdência quase quadruplicaram no período analisado, disparando de R$ 8,709 bilhões para R$ 33,890 bilhões, num incremento de quase R$ 25,181 bilhões. Descontados os precatórios, o déficit entre os valores arrecadados pela Previdência e as despesas com pensões e aposentadorias no regime geral chegou a apresentar levíssimo recuo, saindo de R$ 153,958 bilhões para R$ 153,690 bilhões (-0,17%).

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