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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Deterioração dos “termos de troca” afeta resultado da balança comercial

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 25 de dezembro de 2025
balança
Foto: Diego Baravelli/MInfra

As estatísticas brutas da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), trabalhadas pela coluna, indicam que o aquecimento da demanda doméstica pode ter exercido influência menor do que se imagina sobre o desempenho das importações ao longo deste ano. A piora nos dados da balança comercial entre janeiro e novembro parece ter sido determinada de forma mais intensa pela deterioração dos chamados “termos de troca”, reflexo do encarecimento dos custos dos bens importados em relação aos preços recebidos pelos exportadores brasileiros por cada unidade de produto vendida ao mercado internacional.

Essa interpretação contraria, em certa medida, o consenso predominante entre correntes majoritárias ou mais conservadoras do pensamento econômico. No diagnóstico mais difundido, a retração do saldo comercial — principal responsável pelo avanço do déficit em transações correntes — estaria associada ao crescimento mais vigoroso das importações quando comparado ao desempenho das exportações. Esse aumento das compras externas, por sua vez, seria consequência direta do sobreaquecimento da demanda doméstica. Como a produção industrial tem apresentado desempenho sofrível, o consumo interno estaria sendo suprido pela entrada de bens, mercadorias e insumos importados, ampliando o desequilíbrio das contas externas.

Parte dessa explicação pode parecer coerente, mas ela se choca com outros dados relevantes. Os volumes importados praticamente não variaram entre os 11 primeiros meses de 2024 e o mesmo intervalo deste ano. Houve, na verdade, um recuo de apenas 0,05%, com as importações passando de 171,623 milhões para 171,531 milhões de toneladas — redução de cerca de 91,7 mil toneladas, irrelevante diante do volume total, mas suficiente para indicar estagnação.

O crescimento do valor das importações foi impulsionado, portanto, não por um aumento das quantidades compradas, mas pela elevação dos preços médios dos bens importados ou por alterações no perfil das compras externas, com maior participação de produtos de maior valor agregado. O preço médio de cada tonelada importada, medido em dólar, avançou 7,21%. A dinâmica desses preços no exterior guarda baixa relação com processos inflacionários domésticos, embora sua elevação possa produzir efeitos internos caso seja acompanhada por desvalorizações cambiais.

Após subir nos primeiros meses do ano, o dólar recuou 3,42% na média observada entre julho e novembro de 2025 na comparação com igual período de 2024, acumulando queda de 11,89% no último dia de novembro frente à mesma data do ano anterior. Esse movimento cambial contribuiu para a desaceleração da inflação acumulada em 12 meses, medida pelo IBGE, que caiu de 5,35% até junho para 4,46% até novembro, recuando ainda para 4,41% no período encerrado em 12 de dezembro.

Balanço

O movimento do câmbio ajudou a derrubar a inflação acumulada em 12 meses, segundo o IBGE, ao mesmo tempo em que a elevação dos preços internacionais resultou em aumento de 7,15% das importações totais do País, considerando bens e mercadorias, que passaram de US$ 242,624 bilhões para US$ 259,981 bilhões, acréscimo de US$ 17,358 bilhões. As exportações, por sua vez, cresceram apenas 1,81%, avançando de US$ 312,165 bilhões para cerca de US$ 317,822 bilhões, aumento de aproximadamente US$ 5,656 bilhões. Com esse descompasso, o saldo da balança comercial registrou perda de US$ 11,702 bilhões.

Nos 11 primeiros meses deste ano, o superávit comercial acumulado somou US$ 57,839 bilhões, abaixo dos US$ 69,541 bilhões registrados em igual intervalo de 2024, o que representa queda de 16,83%. As vendas externas foram impulsionadas principalmente pelo aumento dos volumes embarcados, já que os preços médios em dólar dos produtos exportados recuaram 2,27% entre janeiro e novembro deste ano na comparação anual.

As reduções de preços atingiram sobretudo petróleo, combustíveis e derivados, refletindo a tendência de baixa observada no mercado internacional do barril, além de minério de ferro, soja em grão e açúcar. Houve, contudo, ganhos expressivos nos preços médios do café, do ouro e das carnes, embora essas valorizações não tenham ocorrido com intensidade suficiente para compensar as perdas registradas nos demais segmentos da pauta exportadora.

Como resultado desse movimento, os preços médios de exportação, que em 2024 correspondiam a 29,35% dos preços pagos nas importações, recuaram para 26,75% neste ano, indicando uma deterioração de 8,9% nos termos de troca. Em outras palavras, o País precisou realizar um esforço adicional nas vendas externas para compensar o custo relativo mais elevado dos bens importados, transferindo mais renda ao exterior.

As importações de bens intermediários responderam por 60,7% do aumento total das compras externas, com os gastos passando de US$ 144,303 bilhões para US$ 154,835 bilhões, alta de 7,30% ou US$ 10,532 bilhões. Cerca de 70% desse crescimento concentrou-se em três grupos de produtos, com destaque para “reatores, caldeiras, máquinas, instrumentos mecânicos e suas partes”, cujas importações avançaram 19,5%, de US$ 23,218 bilhões para US$ 27,746 bilhões.

Dentro desse grupo, as compras de turbinas a gás responderam por aproximadamente dois terços do aumento observado, com crescimento de quase 37%, ao saltarem de US$ 7,676 bilhões para US$ 10,512 bilhões. A segunda maior contribuição veio das importações de adubos e fertilizantes, que subiram 9,25%, seguidas pelas compras de veículos, tratores, partes e acessórios, em alta de 13,26%.

Outra parcela relevante do aumento das importações veio dos bens de capital, com forte participação das plataformas de petróleo. No total, o País importou US$ 40,621 bilhões em bens de capital neste ano, dos quais US$ 5,155 bilhões corresponderam a operações de importação ficta de plataformas. Em comparação com 2024, quando as importações de bens de capital haviam somado US$ 32,580 bilhões, houve crescimento de 24,68%, equivalente a cerca de US$ 8,040 bilhões.

Desse incremento, as plataformas de petróleo responderam por 61,69%, já que haviam registrado apenas US$ 195,245 milhões nos 11 primeiros meses do ano passado. O avanço de aproximadamente US$ 4,96 bilhões no segmento representou 28,57% do aumento total das importações brasileiras no período analisado.

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