Coluna

Dinheiro mais barato, inadimplência em queda. E bancos resistem a baixar lucros

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 28 de novembro de 2019

Os
juros básicos atingiram níveis históricos de queda, com as taxas reais (depois
de descontada a inflação) aproximando-se de 1,3% a 1,5% ao ano, a se considerar
as expectativas do mercado para o Índice Nacional de Preços Ampliado (IPCA)
para os próximos 12 meses. A inadimplência no sistema financeiro, nas operações
contratadas a taxas “livres” (expressão que parece desconsiderar o poder de
quase monopólio exercido pelos bancos nas transações com seus clientes
regulares), desabou de 5,0% no começo de 2018 para 4,1% em outubro daquele ano
e atingiu 3,9% em igual mês de 2019.

Confirmando
seu poderio econômico, as taxas de juros na ponta, quer dizer, aquelas cobradas pelo setor ao emprestar dinheiro a empresas e
consumidores, caem numa lentidão desgastante. Chegaram a 42,1% ao ano em
fevereiro do ano passado, recuaram para 38,0% em outubro e, em seguida, para
35,6% em dezembro, apenas para sofrerem ligeira inflexão para cima no começo
deste ano, alcançando 39,0% em março. Os juros vieram recuando modestamente
dali em diante, fechando outubro em 35,9% (na média, já que os juros do crédito
rotativo no cartão saíam, ainda em outubro, pela bagatela de 317,2% ao ano,
algo assim como 119 vezes mais a inflação acumulada em 12 meses até a primeira
quinzena de novembro).

O
lento, quase imperceptível, repasse dos cortes na taxa básica para os juros nos
balcões do sistema financeiro parece contrariar os “fundamentos” (queda nos
custos de captação de recursos para os bancos, que atualmente têm acesso a um
dinheiro mais barato para financiar suas operações; inadimplência sobre
controle e mesmo em baixa). Mais do que isto, parece haver uma resistência dos
bancos, típica de monopólios, a adequar suas “margens de lucro” à realidade do
mercado. De fato, os chamados “spreads” (que correspondem à diferença entre
custos de captação e os juros cobrados nos empréstimos e financiamentos), ainda
no “mercado livre”, chegaram a 30,3% em outubro deste ano, frente a 29,6% em
igual mês de 2018. Para relembrar, os “spreads” haviam recuado para 27,8% em
dezembro.

Hora de acelerar

O
crédito foi uma ferramenta importante para permitir que a economia enfrentasse
os efeitos da crise global de 2008/2009, amortizando seu impacto sobre a
atividade doméstica, sobre o emprego e a capacidade de consumo das famílias. Os
excessos cometidos nos anos seguintes complicaram o cenário, numa conjuntura
bem diferente da atual. Hoje, ao contrário, falta demanda e a economia derrapa.
O crédito avança, mas não em velocidade suficiente para impulsionar os negócios
de forma mais vigorosa.Na avaliação do Institutos de Estudos para o
Desenvolvimento Industrial (Iedi), embora seja um “instrumento poderoso para o
crescimento econômico”, o crédito poderia ser “mais efetivose empresas e
consumidores estivessem mais confiantes em relação ao futuro e se os credores
reduzissem suas margens, isto é, o chamado spread bancário”.

Balanço

· “O
crédito é um instrumento poderoso para o crescimento econômico porque permite
romper as limitações da renda corrente, viabilizando decisões de gasto de maior
magnitude que vão mobilizar diversos setores e atividades produtivas, gerando
assim mais emprego e mais renda”, reforça o instituto.

·  O
efeito combinado dessa resistência dos bancos em revisar suas margens e da
redução muito lenta e gradual dos juros na ponta dos empréstimos tem produzido
uma expansão menor do que a desejada nas operações de crédito – processo que
poderia ser acelerado se o dinheiro fosse mais barato para empresas e famílias.

· De
uma forma ou de outra, a contratação de novas operações (ou as concessões de
novos empréstimos)tem avançado. Na comparação com igual mês de 2018, descontada
a inflação medida pelo IPCA, aponta o Iedi, registrou-se elevação de 11,9% nas
concessões para empresas e de 16% para as famílias. “Assim, no agregado, as
concessões totais avançaram 14,3% em relação a outubro de 2018”.

·  
Numa
tendência observada desde que esse tipo de operação voltou a experimentar algum
crescimento, prossegue o instituto, “as operações junto às famílias dão sinais
de que estão cada vez mais robustas. No caso do crédito corporativo, porém,
além de registrar variações positivas com certo atraso, não tem conseguido
ganhar velocidade adicional”, avalia o Iedi.

·  
Considerando
as variações acumuladas nos 10 meses iniciais de cada ano, as concessões totais
avançaram 3,4% em 2017, outros 11,9% no ano passado e 12,9% neste ano (sempre
em relação ao período entre janeiro e outubro do ano imediatamente anterior).

·  
No
caso das empresas, houve queda de 3,4% em 2017 e altas de 14,7% e 10,9% em 2017
e 2018, respectivamente, sugerindo certa desaceleração no ritmo de avanço. No
caso das famílias, as concessões avançaram 8,9% (2017), 9,8% (2018) e 14,5%
(2019).

Por uma mera questão “ideológica”, o governo tem
segurado as operações de crédito com recursos direcionados (a exemplo do
desmonte em andamento no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social,
o BNDES). As concessões nesta área registram variação de apenas 3,7% nos 12
meses encerrados em outubro e avanço de 1,8% no acumulado do ano. Sem amarras
“ideológicas”, a contribuição do setor para o crescimento poderia ser mais
decisiva. 

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