Segunda-feira, 15 de julho de 2024

Coluna

Dívida externa de curto prazo bate recorde e se aproxima de US$ 80 bi

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 28 de janeiro de 2020

A dívida externa de curto prazo do
Brasil, com vencimento em 12 meses, atingiu U$ 79,935 bilhões em dezembro do
ano passado, valor mais alto na série histórica do Banco Central (BC), iniciada
em 1971. Na comparação com 2018, registrou-se avanço de 19,6% e, nos últimos
dois anos, os dados da instituição apontam um salto de 55,86% – um avanço
liderado principalmente pelo setor financeiro. Com juros lá em baixo no mercado
internacional e larga oferta de recursos no sistema financeiro global, ainda
que o câmbio continue sendo uma variável de risco, bancos preferiram acelerar a
contratação de operações de curtíssimo prazo no mercado externo, obviamente,
repassando esses recursos a tomadores no Brasil a custos mais elevados.

A série
estatística do BC mostra a dívida contratada em moeda estrangeira em operações
de curto prazo saindo de US$ 51,287 bilhões em 2017 para US$ 66,844 bilhões no
ano seguinte, crescendo 30,33% e alcançando na sequência aqueles quase US$ 80,0
bilhões. Em dois anos, portanto, foram acrescidos ao saldo daquela dívida algo
como US$ 28,648 bilhões. A relação entre compromissos de curto prazo e a dívida
externa bruta variou de 16,16% em 2017 para 20,85% em 2018 e aproximou-se de
24,70% no ano passado, o percentual mais elevado em 28 anos. Em 1991, a dívida
de curto prazo representava 24,95% da dívida externa bruta total, o mais alto
desde o começo dos anos 1970.

Apenas para comparação, a relação havia
flutuado entre 17,9% e 13,3% durante 1982 e 1983, em plena crise da dívida
externa, que derrubou uma a uma as economias dos países então considerados em
desenvolvimento, a começar pelo México, que declarou moratória de sua dívida
externa na época, levando na sequência praticamente todas as economias latino
americanas. Quando o Brasil quebrou novamente e teve que se socorrido pelo
Fundo Monetário Internacional (FMI), no final da década de 1990, a dívida de
curto prazo representava apenas 11,34% da dívida externa bruta.

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Outros
tempos

São cenários, evidentemente, muito
diversos. No início da década de 1980, o País não tinha dólares sequer para
pagar as importações de petróleo. No final dos anos 1990, as reservas cobriam
57% das importações e representavam qualquer coisa ao redor de 15,1% da dívida
externa bruta (então próxima de US$ 241,47 bilhões). Até o fechamento de 2019,
as reservas, então ao redor de US$ 356,88 bilhões, seriam suficientes para
pagar quase duas vezes o valor das importações e cobriam com sobras toda a
dívida, restando um “troco” ainda de US$ 50,4 bilhões, o que ainda deixava o
País na confortável situação de credor líquido no mercado internacional. Isso
não significa que o avanço do endividamento de curto prazo não gere preocupação
e deva ser menosprezado, ainda mais quando se considera que a equipe econômica
parece decidida a reduzir as reservas internacionais do País para níveis ainda
não muito nítidos. A soma desses dois fatores poderá se tornar, mais à frente
(e mantida a tendência em curso), em fonte de problemas, tornando a economia
brasileira mais vulnerável a turbulências externas.

Balanço

·  
Os
bancos haviam contratado, até dezembro, uma dívida de US$ 67,523 bilhões com
vencimento em até 12 meses (perto de 84,5% da dívida externa total de curto
prazo). Comparada a 2018, quando somava US$ 50,618 bilhões, a dívida aumentou
33,4% e passou a acumular variação de 44,25% em dois anos.

·  
Os
demais setores da economia, excluídos os setores público e financeiro,
reduziram o endividamento externo de curto prazo em 23,3% na passagem de 2018
para 2019, de US$ 16,128 bilhões para US$ 12,365 bilhões. Este valor, no
entanto, ainda era 83,15% mais alto do que em 2017 (US$ 4,367 bilhões).

·  
A
dívida externa bruta cresceu muito moderadamente, acumulando variação inferior
a 2,0% entre 2017 e 2019 ao passar de US$ 317,305 bilhões para US$ 323,593
bilhões (comparando ao seu ponto mais elevado na série, registrado no final de
2014, com US$ 352,821 bilhões, a dívida esteve 8,28% mais baixa no final do ano
passado).

·  
Esse
avanço mais do que modesto é explicado pela redução de 8,41% na dívida de longo
prazo, que encolheu de US$ 266,018 bilhões em 2017 para US$ 243,657 bilhões no
ano passado. Comparada a 2018, a dívida de longo prazo ficou praticamente 4,0%
menor, com baixa de US$ 10,111 bilhões (considerando o saldo de US$ 253,768
bilhões registrado em dezembro daquele ano).

·  
Ainda
em 2019, o saldo da conta de transações correntes, que registra exportações e
importações de bens e serviços, pagamento de juros e amortizações da dívida
externa, remessas de lucros e dividendos e outros compromissos do País com o
restante do globo, ficou negativo em US$ 50,762 bilhões, crescendo 22,2% em
relação ao déficit de US$ 41,540 bilhões registrado em 2018.

·  
Foi
o pior resultado desde o rombo de US$ 54,472 bilhões realizado em 2015. A piora
resultou diretamente de uma queda de 25,7% no superávit da balança comercial do
Brasil, que baixou de US$ 53,047 bilhões para US$ 39,404 bilhões. O déficit na
balança de serviços recuou 1,61%, para US$ 35,141 bilhões.

·  
O
investimento externo no País manteve-se praticamente estável em US$ 78,559
bilhões (numa variação de 0,51% em relação a 2018, quando havia somado US$
78,163 bilhões).

·  
Como
nota preocupante, o País conseguiu “rolar” (adiar) apenas 28,13% dos
compromissos externos vencidos em dezembro, com a taxa situando em 80,44% nos
12 meses do ano passado. Isso significa dizer que os recursos que entraram de
fora não foram suficientes para cobrir os pagamentos vencidos, levando o País a
usar suas reservas para honrar todas as amortizações devidas.