Dívida externa de curto prazo fora dos bancos salta 45,5% desde março

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 23 de dezembro de 2021

O cenário para as contas externas brasileiras continua razoavelmente favorável, em grande parte pela situação confortável das reservas internacionais e, de outra, pela redução das despesas do País com serviços diversos no exterior, especialmente por conta da retração vertical nos gastos com aluguel de equipamentos. Mas alguns indicadores nesta área podem exigir alguma atenção, já que envolvem setores mais vulneráveis às oscilações no mercado do dólar. A dívida externa de curto prazo (ou seja, com vencimento em 12 meses) fora dos bancos, em poder de empresas financeiras não bancárias, empresas não financeiras, famílias e instituições sem fins lucrativos, experimentou salto de 45,52% desde março, saindo de US$ 10,550 bilhões para US$ 15,352 bilhões em novembro, no dado mais recente divulgado pelo Banco Central (BC).

O tamanho relativo dessa dívida pode não parecer exatamente relevante quando considerado o saldo total da dívida externa brasileira, que atingiu US$ 322,456 bilhões ao final do mês passado e avançou 8,03% em relação a março passado. Mas pode criar focos de instabilidade entre empresas não financeiras e também para as famílias, diante das incertezas associadas ao câmbio. Os dados mais desagregados do BC sobre o endividamento daqueles segmentos referem-se ainda a setembro, mas já mostram incremento. A dívida externa de curto prazo das empresas não financeiras havia crescido 22,7% entre março e setembro, passando de US$ 5,619 bilhões para US$ 6,894 bilhões. No caso das famílias e instituições sem fins lucrativos, a dívida de curto prazo registrou alta ainda mais expressiva, num aumento de 30,5%, de US$ 479,560 milhões para US$ 625,847 milhões.

“Ajuda” do FMI

O crescimento da dívida externa bruta esteve associado em grande parte, no entanto, à injeção de US$ 15,1 bilhões, em valores aproximados, pelo (agora execrado) Fundo Monetário Internacional (FMI) em favor do Brasil. Ao contrário de vários exemplos no passado, quando o fundo emprestou recursos para socorrer a economia e evitar a quebradeira no País, a medida favoreceu a todos os países membros da instituição, que emitiu US$ 650,0 bilhões em direitos especiais de saque (DES) por volta de agosto deste ano. A ideia então era a de que os países associados ao FMI pudessem repassar parte dos recursos, que são gratuitos, para países mais pobres, que enfrentam dificuldades severas por conta da pandemia. A expectativa do fundo, até aqui, não se cumpriu, o que apenas deixa mais evidente o caráter dos que conduzem os rumos da economia mundial em meio à mais severa crise sanitária na história.

Balanço

  • A emissão de DES fez a dívida externa do BC experimentar salto de 359,7% entre março e novembro, subindo de apenas US$ 4,108 bilhões para US$ 18,885 bilhões. Em contrapartida, as reservas internacionais cresceram no mesmo período, avançando de US$ 347,413 bilhões para US$ 367,772 bilhões, numa alta de 5,86% (US$ 20,359 bilhões a mais). Olhando todo o conjunto, o País continua como credor internacional líquido. Mais claramente, o valor das reservas era US$ 61,579 bilhões maior do que toda a dívida externa brasileira.
  • Como já se sabe, os riscos de o País quebrar e não conseguir honrar seus compromissos internacionais são praticamente nulos. Essa situação torna ainda mais nebulosa o cenário atual no mercado do dólar, marcado por fortes oscilações no valor da moeda norte-americana em uma economia que tem dólares sobrando para pagar importações, juros, amortizações e todas as suas despesas lá fora.
  • O aumento mais recente no déficit registrado pela conta de transações correntes, que resume todas as relações de um país com o restante do mundo, não altera fundamentalmente a posição da economia brasileira nesta área. A diferença entre os dólares que entraram e saíram do País no acumulado dos primeiros 11 meses deste ano atingiu US$ 22,384 bilhões, diante de um déficit de US$ 16,034 bilhões no mesmo período do ano passado, representando elevação de 39,6%.
  • O resultado deficitário da conta de serviços, que inclui despesas com viagens internacionais, fretes nas importações, seguros, aluguel de equipamentos, royalties e outras, continua em baixa, saindo de US$ 19,216 bilhões para US$ 15,189 bilhões nos primeiros 11 meses de 2020 e 2021, respectivamente – uma redução de 20,96%. Mas o saldo entre exportações e importações de bens recuou 3,0% naquela mesma comparação, saindo de US$ 34,309 bilhões para US$ 33,281 bilhões. A queda, no entanto, explica apenas 16,2% na piora observada na conta de transações correntes.
  • A maior contribuição negativa veio da chamada conta de renda primária, que contempla basicamente despesas com juros e gastos associados a investimentos realizados por estrangeiros no Brasil (na maioria, remessas de lucros e dividendos). O rombo nesta área cresceu 31,06% nos primeiros 11 meses deste ano, atingindo US$ 43,567 bilhões diante de US$ 33,242 bilhões em igual intervalo de 2020. As remessas de lucros e dividendos, considerando os resultados obtidos pelas empresas em investimentos diretos e os ganhos alcançados nas aplicações realizadas por estrangeiros em títulos públicos e privados e em ações, cresceram 73,2% no mesmo período, avançando de US$ 14,595 bilhões no acumulado entre janeiro e novembro de 2020 para US$ 25,279 bilhões neste ano.
  • Depois do tombo de 44,7% nos 11 meses iniciais do ano passado relação aos mesmos meses de 2019, o investimento estrangeiro direto no País cresceu 37,32% neste ano. Sempre tomando janeiro a novembro de cada exercício, o investimento havia despencado de US$ 66,350 bilhões em 2019 para US$ 36,684 bilhões em 2020, subindo para US$ 50,376 bilhões neste ano. Comparado a 2019, persiste uma perda de 24,08%. Excluído o ano passado, o investimento em 2021 registra o pior resultado desde 2009.
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