Economia parou de crescer e encolheu 2,8% frente a seu melhor momento

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 05 de março de 2022

Literalmente, a economia brasileira parou de crescer há 31 trimestres. Quer dizer, há praticamente oito anos o Produto Interno Bruto (PIB), medida do total de bens e serviços produzidos pelo País, não sai do lugar, indicando problemas mais graves e duradouros na economia. O cenário, na verdade, já não era lisonjeiro antes mesmo da pandemia, agravou-se no primeiro ano do ataque do Sars-CoV-2, registrou alguma melhora em 2021, mas insuficiente para recolocar o PIB nos níveis de 2014, e está sujeito a sérios riscos neste ano. Depois de encerrar 2021 em ritmo menos intenso do que se esperava, a onda de contágios e mortes trazida pela Ômicron no começo deste ano já havia afetado os negócios em geral e as perspectivas tornam-se mais incertas com o começo da guerra entre Rússia e Ucrânia, no final de fevereiro.

O nível da atividade econômica patina desde o começo da recessão de 2015 e já vinha derrapando nos trimestres anteriores, depois de atingir seu melhor momento nos três primeiros meses do ano anterior. Na comparação entre o último trimestre de 2021 e o primeiro trimestre de 2014, o PIB chegou a encolher 2,8%, levando em conta indicadores dessazonalizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que divulgou na sexta-feira, 4, os dados do PIB de 2021. O ajuste sazonal aplicado nos índices trimestrais permite excluir ou aliviar a influência de fatores que se repetem regularmente em períodos específicos do ano, abrindo espaço para uma comparação mais fidedigna.

As perdas foram quase generalizadas em relação ao período em que cada setor de atividade atingiu níveis mais elevados na série histórica. O consumo das famílias, que passou a responder por 61% do PIB no ano passado, a menor participação desde 2011, quando correspondia a 60,3% do produto, registra baixa de 2,4% diante do último trimestre de 2014. Sempre tomando o quarto trimestre de 2021, o consumo do governo caiu 3,4% frente ao quarto trimestre de 2013, ajudando a deprimir o PIB.

Estrela cadente

“Grande estrela” no ano passado, quando chegou a saltar 17,2% em relação a 2020, o investimento ainda acumulava perdas de 12,4% em relação ao segundo trimestre de 2013 – seu melhor momento desde que as contas nacionais ganharam o formato atual, em 1996. Embora a taxa de variação observada nos 12 meses de 2021 tenha sido muito positiva, ela apenas se sustenta, como visto, se tomada como base períodos em que o investimento veio muito mal. Não fosse esse fator, deve-se considerar que também nesta área houve perda de fôlego ao longo do ano. Afinal, o investimento apresentou queda de 4,0% na comparação entre o primeiro e o quarto trimestres de 2021.

Balanço

  • No lado da oferta, a única exceção foi o setor de serviços, que atingiu seu pico precisamente no quarto trimestre de 2021, contrariando a tendência geral, mas situando-se apenas 0,17% acima dos níveis do primeiro trimestre de 2014 (segundo melhor resultado da série). Na mesma comparação, no entanto, o comércio (varejo e atacado) ainda registrava perdas de 9,3%, sugerindo uma demanda ainda enfraquecida.
  • O setor de construção, que ajudou a incrementar os investimentos em 2021, quando avançou 12,8%, como visto, mantinha-se muito distante de seu melhor momento na série histórica, com tombo de 26,2% frente aos primeiros três meses de 2014, seguido pela indústria de transformação, em baixa de 18,2% diante do segundo trimestre de 2013. Como se percebe, as dificuldades para o setor industrial antecedem a recessão de 2015/2016 e a própria pandemia. O indicador da indústria em geral, somando os segmentos de transformação e de extração mineral, mostrava queda de 13,1% entre o terceiro trimestre de 2013 e o quarto trimestre do ano passado.
  • A economia segue pressionada pela escalada inflacionária, pelos riscos à frente associados a ameaça não descartada de novas variantes do Sars-CoV-2, pelos reflexos ainda não totalmente previsíveis para o País do conflito entre Rússia e Ucrânia, pela alta dos juros, cm encarecimento proporcional do crédito para empresas e famílias, e pelo baixo dinamismo do mercado de trabalho, com grande avanço da informalidade e da subocupação, derrubando a renda dos trabalhadores e, claro, sua capacidade de consumir bens e serviços.
  • Na leitura do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), encerado “o período de baixas bases de comparação, foi ficando mais difícil (para a economia) mostrar um desempenho robusto. Tanto é que as projeções para o PIB de 2022 apontam para um quadro de virtual estagnação, com uma variação de mero 0,3%, de acordo tanto com o Fundo Monetário Internacional (FMI) quanto com o último levantamento do Boletim Focus do Banco Central (BC)”.
  • Segundo o instituto, o avanço de 4,6% registrado pelo PIB no ano passado compensou a queda de 3,9% registrada em 2020 e “nem por isso, podemos considerar superados todos os efeitos adversos da pandemia”. As cicatrizes, prossegue o Iedi, “são muitas, a exemplo da taxa de desemprego de dois dígitos, gargalos nas cadeias de fornecedores, aceleração da inflação e queda do poder de compra da população. Obstáculos adicionais também marcaram 2021 e podem não deixar 2022 ileso, como a crise hídrica e tensões políticas internas e externas”.
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