terça-feira, 3 de novembro de 2026

Em livro, Cidinha da Silva diz que mercado limita autoras negras

Luana Avelarpor em
Em livro, Cidinha da Silva diz que mercado limita autoras negras
Em “Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros”, publicado pela Relicário, a ensaísta reúne 16 textos sobre controle, silenciamento e resistência no meio literário

Ser convidada para uma mesa, um catálogo ou uma antologia não garante a uma escritora negra liberdade para escrever o que quiser. É dessa tensão que parte a escritora Cidinha da Silva, que examina os mecanismos capazes de restringir o que essas autoras produzem e a maneira como são lidas. É esse o tema de Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros, livro de ensaios lançado pela Relicário Edições na coleção Nos.Otras.

Os 16 textos se organizam a partir de três imagens. O casulo representa o cerceamento da liberdade criativa. A lagarta corresponde à cobrança permanente para que a autora justifique e explique o que escreve, em vez de discutir como escreve. A borboleta é a raiva organizada que se converte em enfrentamento político e estético.

Ao longo dos ensaios, Cidinha descreve convites que considera indignos, políticas de representatividade que acabam limitando as autoras e expectativas que as reduzem ao papel de eternas educadoras da branquitude. Ao mesmo tempo, defende o direito dessas escritoras à experimentação formal, à crítica e à criação de novos imaginários.

“Entretanto, interessa-me discutir algumas armadilhas forjadas por procedimentos que visam baratear o entendimento da representatividade em favor de práticas coloniais arraigadas, presentes nas experiências e reflexões que seguem”, escreve a autora no ensaio de abertura, Armadilhas da representatividade.

O livro não rejeita a reivindicação por representatividade, que a autora trata como uma das demandas políticas mais fortes do século 21. O que questiona é a forma como o mercado editorial converte essa demanda em vitrine, sem alterar as relações de poder. Para Cidinha, o futuro das escritoras negras não depende de uma promessa abstrata de inclusão, mas da disposição de escrever, criar e se insurgir.

A autora

Cidinha da Silva é escritora, ensaísta e cronista do jornal Rascunho. Publicou, entre outros, Um Exu em Nova York (Pallas), premiado pela Biblioteca Nacional em 2019, e O mar de Manu (Autêntica), premiado pela APCA em 2022. Vamos falar de relações raciais? (Autêntica) foi finalista do Prêmio Jabuti em 2025. Tem textos traduzidos para seis idiomas e integrou o júri de prêmios como Jabuti, Sesc e Kindle.

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