Em livro, Cidinha da Silva diz que mercado limita autoras negras
Ser convidada para uma mesa, um catálogo ou uma antologia não garante a uma escritora negra liberdade para escrever o que quiser. É dessa tensão que parte a escritora Cidinha da Silva, que examina os mecanismos capazes de restringir o que essas autoras produzem e a maneira como são lidas. É esse o tema de Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros, livro de ensaios lançado pela Relicário Edições na coleção Nos.Otras.
Os 16 textos se organizam a partir de três imagens. O casulo representa o cerceamento da liberdade criativa. A lagarta corresponde à cobrança permanente para que a autora justifique e explique o que escreve, em vez de discutir como escreve. A borboleta é a raiva organizada que se converte em enfrentamento político e estético.
Ao longo dos ensaios, Cidinha descreve convites que considera indignos, políticas de representatividade que acabam limitando as autoras e expectativas que as reduzem ao papel de eternas educadoras da branquitude. Ao mesmo tempo, defende o direito dessas escritoras à experimentação formal, à crítica e à criação de novos imaginários.
“Entretanto, interessa-me discutir algumas armadilhas forjadas por procedimentos que visam baratear o entendimento da representatividade em favor de práticas coloniais arraigadas, presentes nas experiências e reflexões que seguem”, escreve a autora no ensaio de abertura, Armadilhas da representatividade.
O livro não rejeita a reivindicação por representatividade, que a autora trata como uma das demandas políticas mais fortes do século 21. O que questiona é a forma como o mercado editorial converte essa demanda em vitrine, sem alterar as relações de poder. Para Cidinha, o futuro das escritoras negras não depende de uma promessa abstrata de inclusão, mas da disposição de escrever, criar e se insurgir.
A autora
Cidinha da Silva é escritora, ensaísta e cronista do jornal Rascunho. Publicou, entre outros, Um Exu em Nova York (Pallas), premiado pela Biblioteca Nacional em 2019, e O mar de Manu (Autêntica), premiado pela APCA em 2022. Vamos falar de relações raciais? (Autêntica) foi finalista do Prêmio Jabuti em 2025. Tem textos traduzidos para seis idiomas e integrou o júri de prêmios como Jabuti, Sesc e Kindle.
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