sábado, 26 de setembro de 2026

Em meio à guerra, elevar juros agora seria um erro monumental

Lauro Veiga Filhopor em

A mudança radical no cenário geopolítico pode de fato afetar negativamente as tendências até recentemente desenhadas para os preços em geral na economia brasileira em 2026, assim como as expectativas inflacionárias daqui para frente. A extensão desses impactos, no entanto, dependerá da intensidade, duração e desdobramentos da guerra que Israel e Estados Unidos decidiram promover contra o Irã desde 28 de fevereiro último, um sábado.

Em tempos assim, a irracionalidade tende a predominar, como parecem demonstrar a movimentação meramente especulativa observada nos últimos dias no mercado de combustíveis, com revendedores, transportadores e distribuidoras escamoteando estoques à espera de eventuais reajustes determinados pela Petrobrás, causando o encarecimento dos preços nas bombas, principalmente no caso do diesel. Cabe à equipe econômica preservar a racionalidade, combater a especulação, com a colaboração dos órgãos de defesa do consumidor, assim como, além de tudo, evitar decisões precipitadas e na direção equivocada.

A manutenção da política de arrocho ao crédito, recuando da intenção já antecipada de iniciar um modesto processo de redução do custo do dinheiro, ou, mais grave, a decisão de aumentar ainda mais a taxa básica de juros, atualmente em exorbitantes 15,0% ao ano, num exemplo, seria desastroso e, novamente, um equívoco.

Como parece evidente, as pressões altistas esperadas a partir do conflito, com a escalada dos preços do petróleo, não serão contornadas por medidas domésticas, já que independem do poder de decisão da equipe econômica e, mais ainda, tendem a refluir mais à frente quando e se os conflitos começarem a perder força. Nitidamente, um cenário de refluxo dos combates ainda não está colocado, pelo contrário. Os sinais são de um acirramento no conflito, o que de todo modo não autoriza decisões açodadas.

Escalada

Os resultados apresentados até o momento pelas pesquisas sugerem um quadro mais confortável para os preços aqui dentro, ainda sem considerar eventuais focos altistas a serem detonados pela guerra numa das regiões mais críticas do globo, seja sob o ponto de vista do abastecimento global de petróleo, já que a região responde por mais de dois terços da produção global, seja por sua complexidade geopolítica. Ontem, nos mercados futuros, os preços do barril saltaram 10,4% em relação ao fechamento de quarta-feira, 11, com a cotação do barril do petróleo tipo Brent alcançando US$ 101,57 e acumulando um salto de 43,6% em relação a 26 de fevereiro, dois dias antes do início dos ataques. A última vez em que a cotação superou a marca dos US$ 100 foi em agosto de 2022. O petróleo tipo WTI experimentou idêntica variação entre quarta-feira e ontem, aproximando-se da marca de US$ 96,40. Desde 26 de fevereiro, no entanto, registrou-se salto de 47,8% neste caso.

Balanço

  • Ontem, o governo antecipou um pacote de medidas para amenizar o impacto daquela disparada sobre os preços domésticos dos combustíveis e combater práticas abusivas aqui dentro, fixando multa de até R$ 500 milhões para casos de altas exorbitantes e não justificadas nos preços cobrados do consumidor.
  • Entre outras medidas, foi decidido zerar as alíquotas do PIS e da Cofins sobre a importação e a venda interna de óleo diesel, prevendo-se uma redução de R$ 0,32 por litro, além da criação de subvenção correspondente também a R$ 0,32 por litro para produtores e importadores do mesmo combustível, desde que comprovada a transferência do benefício para o consumidor final por meio de redução proporcional dos preços nas bombas. Espera-se um impacto somado de R$ 0,64 por litro a partir da implantação daquelas medidas.
  • Além disso, o governo deverá manejar o Imposto sobre Exportação de forma a estimular o aumento do refino do petróleo aqui dentro, estimulando um aumento da produção doméstica de derivados com efeito duplo de assegurar o abastecimento e amortecer os impactos das altas do petróleo no mercado internacional.
  • Os números sobre a inflação de fevereiro, muito evidentemente, não sofreram influências de um cenário que apenas se tornou real no último dia daquele mês. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), havia experimentado variação de 0,33% em janeiro, atingindo 0,84% entre os dias 15 de janeiro e 12 de fevereiro, mas encerrou as quatro semanas do mês passado em 0,70%, já indicando desaceleração frente aos níveis registrados ao final da segunda semana de fevereiro.
  • Fatores sazonais e outros itens de maior volatilidade explicaram a maior parcela da taxa inflacionária do mês, a exemplo da alta de 6,20% nos custos de cursos regulares (que incluem matrículas e mensalidades dos ensinos fundamental, médio e superior) e do salto de 11,40% nos preços das passagens aéreas (que haviam sofrido baixa de 8,90% em janeiro). Somados, os dois itens responderam por 51,2% do IPCA de fevereiro e influíram igualmente na inflação dos serviços.
  • Como a variação do IPCA em fevereiro deste ano ficou bem abaixo da alta de 1,31% registrada no mesmo período de 2025, a inflação acumulada em 12 meses caiu para 3,81% – o que se compara com uma alta de 5,06% nos 12 meses terminados em fevereiro do ano passado.
  • Divulgado no começo da semana, o Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S), mensurado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), apontou variação de apenas 0,04% nas quatro semanas encerradas em 7 de março, depois de encerrar fevereiro num recuo de 0,14% – lembrando que o instituto havia anotado uma variação mensal de 0,59% até a primeira semana de fevereiro.
  • O índice acumulado em 12 meses, nessa medição, caiu de 3,98% na primeira quadrissemana de fevereiro para 2,81% nos 30 dias concluídos ao final da primeira semana de março, distante até mesmo do piso da meta inflacionária, fixada em 3,5%. Os dados coletados pelo Ibre/FGV antecipavam, até ali, uma tendência benigna para os preços em geral, com índices mais bem comportados e uma sinalização de taxas inflacionárias dentro das metas ao longo deste ano.

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