quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Em novo recorde, juros e amortizações comprometem 28,7% da renda familiar

Lauro Veiga Filhopor em
Em novo recorde, juros e amortizações  comprometem 28,7% da renda familiar
Foto: Rafa Neddermeyer/ABr

Com juros nas alturas, superando os 60% ao ano no segmento de crédito com recursos livremente contratados pelas pessoas físicas, o percentual da renda das famílias comprometida pelo pagamento de juros e amortizações, o chamado “serviço da dívida”, registrou em julho deste ano a taxa mais elevada desde que essa medição começou a ser feita pelo Banco Central (BC), em janeiro de 2013. O percentual da renda comprometida com obrigações financeiras avançou de 27,32% em julho do ano passado para 28,72% em igual mês deste ano, no dado mais recente divulgado pelo BC.

Muito embora o comprometimento tenha superado as marcas historicamente alcançadas pelo indicador, o período entre dezembro de 2018 e igual mês de 2022 acumulou o maior incremento, afetado pelo endividamento crescente observado no período imediatamente posterior à pandemia.

Ao longo da crise pandêmica, vigorou uma espécie de “moratória branca” adotada pelos credores, que aliviaram a cobrança de débitos em atraso no período, considerando as medidas de distanciamento social adotadas então e a consequente paralisação da atividade econômica em amplos setores da economia. A retomada dessa cobrança na sequência agravou o endividamento e a inadimplência de famílias e empresas.

De fato, as dívidas bancárias em atraso superior a 90 dias anotaram seu menor nível na série histórica em fevereiro de 2021, em plena pandemia, quando a inadimplência correspondeu a 4,1% do saldo do crédito concedido às famílias no mercado livre. Ao final de 2022, a taxa de inadimplência já se encontrava em 6,0% ainda no caso das pessoas físicas e elevou-se para o recorde de 8,0% em agosto deste ano.

 

Efeitos macroeconômicos

O comprometimento da renda familiar aumentou de 22,58% em dezembro de 2018 para 27,57% no fechamento de 2022, em alta de 4,99 pontos percentuais, o que corresponderia a 81,3% da variação observada desde 2018 até julho deste ano, numa elevação de 6,14 pontos percentuais. Entre dezembro de 2022 e julho deste ano, dado mais recente divulgado pelo BC, observou-se um incremento de 1,15 pontos, equivalente a uma contribuição de 18,7% para o crescimento acumulado desde o final de 2018. Ainda que a piora tenha sido mais aguda logo nos anos posteriores à pandemia, o avanço continuado no valor da renda comprometida com o pagamento de juros e com as “prestações” de dívidas continua gerando constrangimentos de ordem macroeconômica ao afetar decisões de consumo e de investimento das famílias diante da limitação evidente imposta à capacidade de compra, gerando desaceleração da demanda e, portanto, da atividade econômica como um todo.

 

Balanço

Nesse tipo de aferição, o BC considera a Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias (RNDBF) trimestral, ajustada sazonalmente (quer dizer, com exclusão de eventos e fatores que ocorrem anualmente nos mesmos períodos) e atualizada com base na inflação. Ao final do quarto trimestre de 2018, a renda havia alcançado R$ 626,248 bilhões, dos quais 22,58% foram destinados ao pagamento do serviço da dívida, algo próximo a R$ 141,407 bilhões.

Os valores comprometidos subiram 37,84% até o trimestre finalizado em dezembro de 2022, somando em torno de R$ 194,917 bilhões, correspondendo a 27,57% da renda nacional disponível bruta – que experimentou, por sua vez, variação de 12,89%. O aumento da renda incrementou o orçamento das famílias, com a alta representando a entrada de R$ 80,742 bilhões adicionais naquele período. Quase dois terços daquele ganho, perto de 66,2% ou R$ 53,510 bilhões, foram drenados para cobrir o serviço da dívida.

Parte desse incremento deveu-se à escalada dos juros cobrados das pessoas físicas, que saltou de 28,6% no encerramento de 2018, no mercado de crédito com recursos livremente movimentados pelos bancos, para 34,9% em dezembro de 2022, numa variação de 6,3 pontos percentuais.

Em julho deste ano, conforme já registrado acima, 28,72% da renda estavam maradas ao pagamento do serviço da dívida, numa despesa de aproximadamente R$ 236,873 bilhões, num incremento de 7,86% em relação a julho do ano passado – ao redor de R$ 17,273 bilhões a mais, considerando uma despesa de R$ 219,600 bilhões no trimestre finalizado em julho do ano passado.

A renda no mesmo período variou de R$ 803,807 bilhões para R$ 824,765 bilhões, o que correspondeu a uma elevação de 2,61% em termos reais e a valores sazonalmente ajustados, vale dizer, com exclusão de eventos e fatores que sempre se repetem nas mesmas épocas todos os anos. Em termos absolutos, houve um ganho de R$ 20,958 bilhões naqueles 12 meses, dos quais, nada menos do que 82,42% foram consumidos por juros e amortizações.

O crescimento proporcional da parcela destinada ao pagamento do serviço da dívida, além da elevação recorrente das taxas de juros, responde ainda à tendência de desaceleração no crescimento da renda, que havia experimentado alta de 9,94% entre julho de 2023 e o mesmo mês do ano seguinte, considerando o período de 12 meses encerrados em cada um daqueles meses.

Num prazo mais alongado, entre julho de 2026 e dezembro de 2018, as famílias acumularam um ganho de R$ 198,517 bilhões em sua renda, num aumento real de 31,70%. A conta de juros e amortizações cresceu de forma mais intensa, em alta de 67,61%, gerando uma despesa adicional de R$ 95,466 bilhões, correspondentes a 48,09% do aumento na renda familiar.

O conceito de renda nacional bruta disponível das famílias desenvolvido pelo BC oferece uma visão ampliada do indicador. Além de incluir os salários recebidos pelos trabalhadores, rendas geradas pelo aluguel de imóveis, juros e rendimentos líquidos de aplicações financeiras e outras formas de investimento, dividendos e lucros distribuídos pelas empresas, a RNBDF soma aposentadorias, pensões, abono e seguro desemprego, benefícios de prestação continuada, Bolsa Família e outros benefícios de assistência social.

Na sequência, aqueles valores são descontados de impostos que incidem sobre a renda e o patrimônio das famílias (a exemplo do IPTU), contribuições pagas à Previdência e ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e outras transferências de renda das famílias para outras instituições e para o exterior.

O conceito de renda nacional bruta disponível das famílias desenvolvido pelo BC oferece uma visão ampliada do indicador. Além de incluir os salários recebidos pelos trabalhadores, rendas geradas pelo aluguel de imóveis, juros e rendimentos líquidos de aplicações financeiras e outras formas de investimento, dividendos e lucros distribuídos pelas empresas, a RNBDF soma aposentadorias, pensões, abono e seguro desemprego, benefícios de prestação continuada, Bolsa Família e outros benefícios de assistência social.

Na sequência, aqueles valores são descontados de impostos que incidem sobre a renda e o patrimônio das famílias (a exemplo do IPTU), contribuições pagas à Previdência e ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e outras transferências de renda das famílias para outras instituições e para o exterior.

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