Emprego caiu mais nas indústrias com maior conteúdo tecnológico

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 23 de julho de 2021

Num cenário extremamente hostil à atividade industrial em todo o País, com custos exorbitantes para o crédito e dólar muito barato, baixa demanda e perda de competitividade, as indústrias com maior conteúdo tecnológico foram responsáveis por mais da metade das demissões realizadas por todo o setor entre 2013 e 2019, período que inclui a recessão de 2015/16 e antecede ao da grande crise gerada pela pandemia. Segundo a mais recente edição da Pesquisa Industrial Anual (PIA), divulgada na quarta-feira, 21, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os setores industriais que processam produtos e bens de média e alta tecnologia reduziram o número de ocupados de 4,319 milhões para 3,551 milhões naquele período, numa queda de praticamente 18,0%.

As demissões significaram o afastamento de 767,78 mil trabalhadores naquelas áreas, que demanda mão de obra mais qualificada e pagam salários mais elevados do que a média do setor industrial. Os números da pesquisa mostram que a indústria como um todo demitiu pouco menos de 1,430 milhão de pessoas entre 2013 e 2019, reduzindo o número de ocupados para 7,618 milhões, em valores arredondados, frente a pouco menos de 9,048 milhões no início do período analisado. Assim, os setores com maior conteúdo tecnológico foram responsáveis por 53,7% do total de demissões na indústria. Os demais segmentos cortaram 14,0% do pessoal, fechando 661,97 mil vagas e reduzindo o contingente de empregados de 4,729 milhões para 4,067 milhões.

A política de cortes de pessoal trouxe como um os reflexos aparentes uma perda de participação da folha de salários sobre a receita líquida de vendas da indústria no mesmo intervalo. Neste caso, a diluição dos custos com salários, retiradas e outras remunerações ocorreu ainda porque as receitas experimentaram crescimento nominal muito mais intenso naquele período.De acordo com a PIA, as receitas líquidas subiram 34,1% desde 2013 até 2019, elevando-se de R$ 2,658 trilhões para R$ 3,564 trilhões. Como o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do IBGE, subiu 40,73% naquele mesmo intervalo, a comparação sugere uma perda real de 4,7% aproximadamente.

Custo mais pesado

Os custos com a folha avançaram em velocidade muito menor, crescendo 16,9% em termos nominais (o que teria correspondido a uma retração de quase 17,0% depois de descontada a variação do IPCA), saindo de R$ 267,907 bilhões para R$ 313,119 bilhões. Esses gastos passaram a corresponder a 8,78% das receitas líquidas com vendas, diante de 10,08% em 2013. Os cortes na folha, de qualquer forma, não parecem ter sido suficientes para contrapor ao incremento mais intenso dos custos das operações industriais, que aumentaram 39,5% entre as duas pesquisas analisadas, subindo de R$ 1,328 trilhão para R$ 1,853 trilhão. O peso desses custos sobre as receitas de venda foi elevado de 49,96% para 52,0%.

Balanço

  • Enquanto o valor bruto da produção aumentou praticamente 34,8%, de R$ 2,415 trilhões para R$ 3,255 trilhões para o conjunto do setor industrial, o valor da transformação industrial (VTI) registrou variação proporcionalmente mais modesta, crescendo 28,9% e passando de R$ 1,087 trilhão para quase R$ 1,402 trilhão igualmente entre 2013 e 2019.
  • Na comparação entre aqueles dois indicadores, o VTI passou a representar 43,06% do valor bruto da produção realizada, diante de 45,02% no início da série. Lida de outra forma, essa relação sugere que a indústria reduziu relativamente a utilização de insumos e matérias-primas, ampliando a fatia de produtos mais elaborados ou bens finais em seu processamento – o que, de toda forma, parece reforçar a tendência de desindustrialização e perda de densidade do setor industrial brasileiro.
  • Os dados da pesquisa anual sugerem que esse processo de perda de substância teria sido mais intenso entre as indústrias de menor conteúdo tecnológico (extrativa, alimentos, bebidas, fumo, têxteis e vestuário, produtos de couro e de madeira, móveis, gráficas, borracha, plásticos, produtos minerais não metálicos e produtos diversos). Nesta área, enquanto o valor bruto da produção aumentou 38,2%, o VTI apresentou variação de 27,10%. A relação entre os dois indicadores baixou de 47,13% para 43,34%.
  • A outra ponta inclui os setores de produção de petróleo, coque e biocombustíveis, químicos e medicamentos, máquinas e equipamentos, aparelhos elétricos, equipamentos de informática e ótica, veículos e outros equipamentos de transporte, além de reparação, manutenção e instalação de máquinas e equipamentos. Nestes casos, o valor bruto da produção cresceu 31,86% diante de avanço de 30,58% para o VTI, reduzindo marginalmente a relação entre esses indicadores de 43,24% para 42,82%.
  • As demissões praticadas intensamente no período, com provável perda de experiência acumulada e inteligência voltada para processos industriais, produziram um aumento espúrio da produtividade industrial de forma geral. Neste caso, a produtividade é estimada a partir da divisão do valor da transformação industrial pelo número total de pessoas ocupadas no setor. O VTI, por sua vez, corresponde ao valor bruto de tudo o que a indústria produz, excluído o valor dos insumos, matérias-primas e outros bens utilizados no processo de produção, descontando-se ainda o valor do trabalho vendido pelos empregados (na prática, o total de salários pagos).
  • Assim, a produtividade por pessoa ocupada experimentou salto de 53,1% no período, passando de R$ 120,19 mil para R$ 184,02 mil. O crescimento foi relativamente mais vigoroso nos setores de maior conteúdo tecnológico, com alta de 56,1% – avançando de R$ 149,08 mil para R$ 232,70 mil, ou seja, quase 26,5% maior do que a média da indústria. Não por acaso, conforme já analisado, foi este o segmento que mais demitiu pessoal. Nos setores de menor tecnologia, a produtividade avançou 50,9% entre 2013 e 2019, de R$ 93,80 mil para R$ 141,51 mil, o equivalente a 76,9% da produtividade média na indústria geral.
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