sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Endividamento no Brasil avança, mas fica abaixo da média dos emergentes

Lauro Veiga Filhopor em
Endividamento no Brasil avança, mas fica abaixo da média dos emergentes
Foto: Marcello Casal Jr./ABr

A dívida consolidada das famílias, empresas financeiras e não financeiras e dos governos no Brasil apresentou crescimento de 52,84% entre os três meses finais de 2019, antes que a pandemia assolasse o País, e o segundo trimestre deste ano, num ritmo inferior àquele observado pelo Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês) para o conjunto das economias consideradas emergentes, classificação que inclui a China – ainda que, pelo critério de paridade do poder de compra, a economia chinesa já tenha superado a nação outrora mais poderosa do planeta. Na estimativa do instituto, o endividamento total no País saiu de US$ 3,752 trilhões no encerramento de 2019 para US$ 5,735 trilhões no trimestre encerrado em junho deste ano, num incremento absoluto de US$ 764,683 bilhões.

Para o conjunto dos países emergentes, a dívida geral saltou 68,71%, avançando de US$ 65,545 trilhões para US$ 110,582 trilhões, correspondendo a qualquer coisa como R$ 45,037 trilhões a mais. A variação observada pelo IIF fez a participação brasileira naquele total recuar discretamente de 5,72% para 5,19%. A contribuição brasileira para o avanço total entre os países emergentes, no entanto, limitou-se a menos de 1,70%. Isso não significa que o peso relativo do endividamento para a economia local deva ser desprezado ou desconsiderado como um risco macroeconômico, especialmente num cenário de juros excessivamente mais altos.

A política monetária, que define os rumos da taxa básica de juros e, ao fim e ao cabo, do custo do crédito em toda a economia, tem agravado as tendências de piora do endividamento e da inadimplência. Na comparação com o Produto Interno Bruto (PIB), a dívida total dos brasileiros, suas empresas e governos aumentou de 204,24% para 225,06%, enquanto entre os emergentes, ainda com a inclusão da China, a relação avançou de 199,08% (inferior à taxa registrada no Brasil) para 230,49% – desta vez, ligeiramente acima daquela alcançada pelo Brasil.

 

Distanciamento

Em termos proporcionais, as famílias experimentaram a maior alta nos níveis de endividamento, com salto de 68,50% no estoque da sua dívida, que escalou de US$ 549,149 bilhões no quarto trimestre de 2019 para US$ 925,316 bilhões no trimestre encerrado em junho deste ano, correspondendo a um incremento de US$ 376,167 bilhões. Nesta área, o crescimento observado superou a média verificada entre as economia emergentes, que atingiu 54,34% (de US$ 12,502 trilhões para US$ 19,296 trilhões). A exclusão das dívidas das famílias chinesas dessa conta apenas alarga a distância entre o Brasil o restante dos emergentes, que anotou elevação de 49,47% para o endividamento familiar naquele mesmo período.

 

Balanço

A segunda maior alta, ainda no caso brasileiro, foi observada para as dívidas das corporações não financeiras, que tiveram o endividamento total ampliado de US$ 862,329 bilhões ao fim de 2019 para US$ 1,397 trilhão no encerramento da primeira metade deste ano, em alta de 62,01%. Como proporção do PIB e ainda no mesmo segmento da economia, a dívida saiu de 47,04% para 54,83%. Na média das economias emergentes, descontada a China, o mesmo setor chegou a ter sua dívida aumentada em 45,35%, de US$ 8,474 trilhões para US$ 12,316 trilhões.

A indústria financeira, assim qualificada por economistas e consultores, embora o setor não produza um prego de latão sequer, teve a dívida aumentada em 25,66%, abaixo da variação registrada para os países emergentes (com a devida exclusão dos chineses), ao redor de 45,4%. Aqui dentro, o saldo devido pelas corporações financeiras cresceu de 743,410 bilhões para US$ 934,177 bilhões, passando a representar 36,66% do PIB, diante de 40,55% em 2019 – uma redução de 3,89 pontos percentuais.

Embora também tenha crescido menos do que a alta de 64,70% acumulada pelos emergentes (sem a China novamente), a dívida dos governos no Brasil registrou elevação de 55,16% no período analisado, passando de US$ 1,597 trilhão para US$ 2,478 trilhões, variando, portanto, US$ 881,067 bilhões (numa contribuição de 44,4% para o avanço do endividamento total no País).

Os governos nos demais países emergentes, sempre sem considerar os números chineses nessa conta, tiveram sua dívida elevada em 64,70%, avançando de US$ 9,052 trilhões para pouco menos de US$ 14,910 trilhões (mais US$ 5,857 trilhões frente a um acréscimo de US$ 13,058 trilhões na dívida total da região).

De volta ao Brasil, a relação entre dívida pública e PIB, na contabilidade do IIF, avançou praticamente 10 pontos percentuais desde 2019, saindo de 87,12% para 97,26% (a mais elevada da série histórica do instituto). A posição devedora estimada pelo IIF parece considerar a mesma metodologia adotada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que acrescenta ao estoque da dívida pública os títulos emitidos pelo Tesouro Nacional, mas estacionados na carteira do Banco Central (BC) – numa certa medida, seria como o governo devesse para si próprio, já que aqueles papéis não estão em circulação, vale dizer, mantêm-se fora do mercado.

Se os juros têm pesado no endividamento dos governos ao redor do mundo, o caso brasileiro parece mais grave, proporcionalmente, já que o País sustenta uma das taxas reais de juros mais altas no planeta. Nas séries estatísticas do BC, o saldo da dívida do governo geral (União, Estados e municípios) cresceu 99,03% entre o final de 2019 e julho de 2026, correspondendo a uma variação de quase R$ 5,447 trilhões. A dívida bruta dos governos, naquele período, avançou de R$ 5,500 trilhões para R$ 10,947 trilhões e a relação com o PIB, por sua vez, cresceu de 74,44% para 82,51%.

A emissão de dívidas novas, no entanto, respondeu por apenas 3,08% do aumento observado para o estoque da dívida, somando R$ 168,058 bilhões. E de onde veio todo o restante daquele aumento? Acertou quem apostou na conta dos juros. Entre janeiro de 2020 e julho de 2026, as despesas com juros chegaram a estratosféricos R$ 5,447 trilhões, algo como 41,0% do PIB. Feitas as contas, os juros responderam por 94,84% do crescimento da dívida.

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.