sábado, 26 de setembro de 2026

Energia e passagens aéreas explicam mais da metade da inflação no mês

Lauro Veiga Filhopor em
Energia e passagens aéreas explicam mais da metade da inflação no mês
Foto: José Cruz/ABr

O fim do bônus distribuído pela usina hidrelétrica de Itaipu, que ajudou a reduzir a conta de luz nas semanas anteriores, e a estratégia comercial adotada pelas companhias aéreas, que parece estar por trás da extrema volatilidade dos preços nesta área, ajudaram a pressionar a taxa de inflação nas duas primeiras semanas de setembro, com ajuda ainda dos custos da alimentação. Energia e passagens aéreas subiram, respectivamente, 7,42% e 9,82% entre 15 de agosto e 15 de setembro, em relação às quatro semanas imediatamente anteriores, contribuindo em quase 53% para que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de setembro registrasse elevação de 0,70%.

Segundo acompanhamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o IPCA aferido nos 30 dias de agosto havia apresentado recuo de 0,34%. Na medição do instituto, a taxa inflacionária registrada entre as duas últimas semanas de agosto e a primeira quinzena deste mês foi a mais elevada par ao período desde 2021, quando o IPCA-15 chegou a bater em 1,14% também em setembro, acumulando 10,05% em 12 meses.

O cenário era então completamente diferente, com pressões de alta nas áreas de energia, relacionadas à crise hídrica enfrentada pelo País; de combustíveis, com preços respondendo à alta do barril do petróleo diante da retomada da demanda na saída da pandemia; alimentos, com salto para commodities agrícolas no mercado internacional. Adicionalmente, incertezas políticas e a desestruturação das cadeias de suprimento ao longo da pandemia igualmente causaram desequilíbrios nos preços e ajudaram a puxar as cotações do dólar para cima, gerando focos altistas em toda a economia.

 

Outro cenário

Adicionalmente, os focos inflacionários no curtíssimo prazo estão associados a fatores que não parecem produzidos por eventuais pressões de demanda, o que poderia levar o Banco Central (BC) a avaliar a possibilidade de interromper a modorrenta redução aplicada à taxa básica de juros. Pelo contrário, como já registrado mais acima, as altas mais recentes respondem principalmente a oscilações nos itens energia elétrica e passagens aéreas, com variações para cima ainda no grupo alimentação e bebidas (que vinha de quase três meses de quedas), relacionadas a questões climáticas e à entressafra agrícola.

 

Balanço

Neste momento, começando pelo final, o câmbio tem mostrado bom comportamento e mesmo queda no acumulado do ano, frente a igual período de 2025. Não há crise no suprimento de energia e os preços internacionais das commodities agrícolas têm se mantido abaixo dos níveis observados no ano passado, embora com alguma pressão no curto prazo.

O mercado de petróleo, diante das crises em sequência produzidas por um presidente tresloucado e pela guerra movida pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, tem de fato alternado períodos de altas intensas e acomodação, mas com efeitos muito menos relevantes para o mercado doméstico do que em 2021, até o momento pelo menos, em função do câmbio mais contido.

Os efeitos da pandemia sobre as cadeias globais de suprimento parecem solucionados, com exceção óbvia para o petróleo, diante do bloqueio do estreito de Ormuz causado pelo conflito no Irã e pelas reiteradas ameaças estadunidenses contra aquele país.

Em dos momentos mais críticos da guerra no Oriente Médio, os preços do petróleo tipo Brent chegou a saltar 67,3% entre 26 de fevereiro e 31 de março, subindo de US$ 70,75 para US$ 118,35 – nível mais alto observado neste ano, pelo menos até aqui. No primeiro dia de julho, no entanto, aqueles preços chegaram a desabar para US$ 71,57 – aproximando-se dos níveis anteriores à guerra, numa retração de 39,53%.

Desde lá, as cotações vieram oscilando entre altas e baixas, mas notadamente com tendência de alta, e apresentaram nova escalada em setembro, alcançando US$ 108,75 no dia 15 último, num salto de quase 52% frente ao início de julho. Na média de sexta-feira, 25, o barril do Brent havia recuado 3,95%, para US$ 104,45. Ainda assim, acumulando incremento de 45,9% frente ao primeiro dia de julho.

O IPCA-15 acumulado em 12 meses até a primeira quinzena de setembro deste ano alcançou 4,47% (acima da taxa de 4,22% registrada nos 12 meses finalizados em agosto). Para comparação, nos 12 meses finalizados na segunda semana de setembro do ano passado, o índice havia alcançado 5,32%. A comparação entre os dois períodos mostra um recuo de 0,85 pontos percentuais.

Uma parcela de quase 40% do IPCA acumulado em 12 meses foi gerada pelas altas de 4,40% nos preços dos alimentos e bebidas e de 2,83% na tarifa de energia elétrica residencial, pelo salto de 43,04% nas passagens aéreas e ainda pela variação de 4,69% nos preços dos combustíveis. As variações em igual período do ano passado, na mesma ordem, haviam sido de 7,21% (alimentos e bebidas), de 13,18% (energia) e de 1,69% para combustíveis, com baixa de 7,17% para as passagens aéreas.

A exclusão daqueles itens permite uma avaliação mais assertiva do comportamento dos demais preços, até como forma de verificar se pressões de alta naquelas áreas não estariam se transferindo, por “inércia inflacionária”, para o restante da economia. Nessa estimativa, feita pela coluna com base nos dados do IBGE, a inflação dos demais preços cedeu de 3,19% nos 12 meses terminados em 15 de setembro do ano passado para 2,75% em igual período encerrado na segunda quinzena deste mês. Ou seja, houve um recuo de 0,44 pontos percentuais.

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