sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Energia explica alta do IPCA (mas demais preços continuam em baixa)

Lauro Veiga Filhopor em
Energia explica alta do IPCA (mas demais preços continuam em baixa)

Antes que o “terrorismo inflacionário” se instale mais uma vez, a alta da taxa de inflação nas duas primeiras semanas de setembro nada teve a ver com “descontrole” e muito menos com alguma forma de “escalada de preços”. Praticamente toda a elevação registrada pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), medido entre os dias 15 de agosto e 15 de setembro, pode ser explicada pelo aumento de 12,17% anotado para a tarifa da energia residencial, que havia registrado baixa de 4,21% ao longo dos 30 dias de agosto, quando o IPCA havia recuado 0,11% em relação a julho. Na quadrissemana encerrada no dia 15 deste mês, no entanto, o índice passou a registrar variação de 0,48%, com a taxa acumulada em 12 meses saindo de 5,13% até o final de agosto para 5,32%.

Sozinha, o encarecimento da energia nas residências explicou algo como 97,3% do IPCA-15 geral. A alta esteve relacionada a fatores que não guardam qualquer relação com a “demanda agregada”, quer dizer, com o consumo total das famílias, das empresas e dos governos. Mais claramente, o avanço não ocorreu devido a pressões da demanda sobre os preços e, portanto, não deveria reavivar temores de um descontrole inflacionário a ser contido por novo aperto na política de juros – que continuam excessivamente elevados qualquer que sejam os parâmetros considerados.

Os dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável pelo cálculo do IPCA e do IPCA-15, mostram, na verdade, dois focos principais de alta inflacionária, a saber, os grupos habitação – que saiu de queda de 0,90% em agosto para uma taxa positiva de 3,31% nas quatro semanas encerradas ao final da primeira quinzena deste mês, por conta do aumento da energia elétrica – e vestuário. Neste último caso, a “inflação” avançou de 0,72% para 0,97% entre agosto e a segunda quadrissemana de setembro (ou seja, entre 15 de agosto e 15 de setembro). Para comparar, o custo do vestuário havia registrado variação de apenas 0,17% entre o início da segunda quinzena de julho e o final da primeira quinzena de agosto (medida pelo IPCA-15 do mês passado).

Efeitos sazonais

A mudança ano ritmo de preços no setor pode ser reflexo da entrada de nova coleção no mercado, o que sempre pressões sazonais de alta. De toda forma, a participação de 4,61% do vestuário no orçamento das famílias e sua variação menos intensa comparativamente ao salto registrado pelos preços da energia ajudaram a limitar seus efeitos inflacionários. O aumento nos preços do setor neste mês, por exemplo, teve impacto de 9,31% na formação do IPCA-15 geral.

Balanço

  • No caso da energia residencial, mais do que eventuais reajustes ou revisões de tarifas, o maior impacto veio do fim da incorporação à tarifa do chamado “Bônus de Itaipu”, que havia sido creditado às faturas de energia em agosto. O desconto, concedido a clientes do sistema que haviam consumido menos de 350 quilowatts/hora (Kwh) no ano passado, corresponde à distribuição de valores excedentes da venda de energia da hidrelétrica binacional, sancionada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
  • O benefício ajudou a compensar os efeitos negativos da entrada em vigor da bandeira tarifária vermelha, que entrou em seu nível 2 desde 1º de setembro, com adição de R$ 7,87 na conta de luz a cada 100 Kwh consumidos.
  • Esse impacto tende a se diluir ao longo das próximas semanas, caso não os níveis dos reservatórios não sofram novos impactos do período seco, que parece abrir espaço agora para um começo ainda incipiente das chuvas.
  • Para uma avaliação mais apropriada das tendências em curso para a taxa inflacionária, seria relevante analisar o que tem ocorrido com os demais preços. O IPCA-15 de setembro, além da energia, sofreu influência da deflação persistente dos preços dos alimentos e dos combustíveis, pela redução nos preços das passagens aéreas (que oscilam historicamente entre altos e baixos). Esse comportamento contribuiu para amenizar, ainda que moderadamente, as pressões geradas pelas tarifas de energia elétrica.
  • A tarifas áreas baixaram 2,61% nas quatro semanas concluídas em 15 de setembro, com recuo de 0,10% para os combustíveis e baixa de 0,35% nos custos da alimentação (notoriamente em função da queda de 0,63% nos preços dos alimentos consumidos em domicílio). O salto de 12,17% na fatura da energia literalmente anulou os efeitos baixistas gerados por aqueles outros setores.
  • Numa estimativa construída pela coluna, quando descontados aqueles itens (energia, alimentos, combustíveis e as passagens aéreas), a “taxa de inflação” dos demais produtos e serviços, que havia avançado de 0,14% para 0,26% entre as quatro semanas de julho e a quadrissemana terminada em 15 de agosto, já havia recuado para 0,20% nos 30 dias de agosto e baixou agora para 0,11%.
  • A comparação mostra que o ritmo de alta de todos os demais preços na economia tem se mantido declinante, indicando a persistência de um cenário baixista ou deflacionário nas semanas mais recentes.
  • Em outro dado relevante, o IPCA-15 deste mês veio abaixo dos 0,52% esperados pelos mercados, com forte desaceleração inclusive para os custos dos serviços, que haviam sofrido alta de 0,39% em agosto, anotaram variação de 0,12%. Os chamados “núcleos inflacionários”, medidas que excluem movimentos excessivos de altas e baixas para os preços, assim como itens mais voláteis e sujeitos a oscilações desproporcionais, saíram de 0,32% em agosto para 0,19% em setembro, conforme cálculo do Itaú BBA.

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