Envelhecimento tende a reduzir total de ocupados em mais de 11%
O número de nascidos vivos no Brasil deixou de compensar a mortalidade há pouco mais de duas décadas e sua população vem envelhecendo em velocidade acelerada, o que tende a gerar impactos econômicos, sociais e mesmo políticos, demandando ainda o desenho de novas políticas públicas. A redução proporcional do total de nascimentos já tem afetado as porções mais jovens da população, num processo a ser amplificado nas próximas décadas, causando seu encolhimento, ao mesmo tempo em que trará um crescimento mais acentuado entre os grupos de idade mais avançada.
Entre outras consequências, nas projeções mais recentes, o total de trabalhadores ocupados tenderia a encolher diante da entrada de um número menor de pessoas no mercado de trabalho, com efeitos ainda controversos sobre a atividade econômica. Como mostra o estudo “O Brasil envelheceu depressa e ainda não decidiu o que fazer sobre isso”, conduzido pelo economista Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) na área de mercado de trabalho e doutor em economia pela Norwegian School of Economics (NHH), considerando as tendências demográficas mais recentes, o total de ocupados atingiria perto de 93,7 milhões em 2060. Ao final de 2025, base utilizada pelo autor, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) registrava 102,7 milhões de ocupados e sofreria, portanto, redução de quase 8,8% em três décadas e meia.
O tombo pode ser mais intenso, no entanto, quando se considera que o número de ocupados deverá alcançar seu pico em 2037, quando se aproximaria de 105,6 milhões de trabalhadores. Nos 23 anos seguintes, nessa conta, a população ocupada anotaria baixa de 11,3%, com redução equivalente a 11,9 milhões de pessoas. As perdas nesta área podem ser avaliadas sob outro prisma ainda, o que apenas reforça a intensidade das mudanças em curso. Caso tivesse se mantido o crescimento populacional observado entre 2013 e 2018, preservados os mesmos componentes demográficos, portanto, o total de ocupados chegaria a 130,4 milhões em 2060. Tomando o dado projetado com base nas tendências demográficas mais atuais, o mercado de trabalho deixaria de gerar 36,7 milhões de ocupações até lá.
Impacto pequeno
O impacto sobre a economia como um todo, de toda forma, pode não ser tão relevante, como sugere o trabalho. Duque mostra que a atividade econômica – o Produto Interno Bruto (PIB) – “pode ser decomposta pela produtividade por trabalhador [quer dizer, pelo volume produzido por trabalhador] multiplicada pelo número de ocupados”. Ao manter a produtividade em cada unidade federativa fixa nos níveis de 2023, o economista encontra uma redução de apenas 1,0% até 2060 em todo o País. “O sinal é negativo, como esperado, mas a magnitude é pequena”, sustenta.
Balanço
Para alguns Estados, prossegue o estudo, a exemplo de São Paulo e Rio de Janeiro, economias com índices mais elevados de produtividade do trabalho, espera-se perda de “participação no emprego nacional, o que reduz a produtividade média ponderada”. Esse efeito deverá ser “parcialmente compensado porque Santa Catarina e Mato Grosso, também relativamente produtivos, ganham peso”, ao mesmo tempo em que “algumas unidades da federação de baixa produtividade também encolhem”.
As projeções para 2060 colocam o PIB real por habitante na faixa de R$ 64,5 mil diante da redução na ocupação, o que se compararia a um produto per capita mais próximo de R$ 69,8 mil caso não ocorresse a queda na oferta de trabalho, numa diferença de R$ 5,35 mil ou algo como 7,7% a menos. “Isso significa que a redução de oferta de trabalho potencial devido à demografia levará a um crescimento quase 10% inferior ao que teríamos se mantivéssemos nosso perfil demográfico atual”, calcula Duque.
As diferenças entre as trajetórias anuais do PIB por habitante mostram ainda que o processo de envelhecimento da população tem sido mais intenso numa fase mais recente. “Mantendo as mudanças demográficas médias de 2013-2018 para cada unidade federativa, o PIB por habitante chega a R$ 67,5 mil em 2060. Já considerando as trajetórias demográficas de 2018-2023, cinco anos depois, o nível de renda chega a apenas R$ 65,5 mil”, registra ele.
Nos anos 1960, anota Duque, cada brasileira tinha em média 6,3 filhos ao longo de sua vida reprodutiva, taxa de natalidade reduzida drasticamente para 1,58 filhos nascidos vivos conforme o Censo Demográfico de 2022, abaixo do “limiar convencional de reposição, próximo de 2,1 filhos”. Essa seria a taxa suficiente para sustentar a população em equilíbrio, cobrindo a mortalidade anual média.
“O Brasil cruzou esse limiar por volta de 2004 e realizou em poucas décadas uma transição que, em partes da Europa, levou mais de um século”, observa ele. As projeções oficiais, ainda de acordo com o economista, tendem a variar entre 1,47 em 2030 e 1,44 por volta de 2040, com modesta recuperação para 1,50 em 2070, inferior à taxa de reposição, de toda forma. As projeções do IBGE consideram que a população alcançaria seu pico em torno de 2041, somando 220 milhões habitantes, número que tende a recuar dali em diante até 199,0 milhões em 2070.
Duque considera que a “pressão fiscal” tende a ser mais importante do que o chamado “efeito geográfico”. De acordo com cálculos baseados na projeção do IBGE, prossegue ele, “a razão entre pessoas de 65 anos ou mais e a população de 15 a 64 anos sobe de 16,8 por 100 em 2025 para 46,1 em 2060: aumento de 29,3 pontos. Isso não determina sozinho o gasto público, mas altera a relação entre contribuintes e beneficiários de previdência, saúde e cuidados de longa duração”.
O envelhecimento populacional, de qualquer forma, é uma tendência global, acrescenta Duque. Segundo ele, “os economistas argumentam que a fecundidade mundial provavelmente já ficou abaixo da reposição em 2026 e que, se as tendências recentes persistirem, a população global poderia atingir o pico perto de 9,0 bilhões em meados da década de 2050”.
Essa queda na fecundidade está associada a causas múltiplas, incluindo maiores níveis de educação, maior empoderamento e presença das mulheres no mercado de trabalho, mudanças tecnológicas e mesmo questões de ordem financeira, entre outros fatores. No caso brasileiro, as taxas de nascimentos já eram mais baixas entre mulheres com maior acesso à educação e a tendência mais recente de queda na fecundidade tem se concentrado entre as menos escolarizadas.
Conforme o economista, observa-se redução para todos os grupos, “mas principalmente para mulheres com fundamental incompleto”. No ano 2000, o contingente de mulheres menos escolarizadas tinha 3,5 filhos por mulher e, “mais de 20 anos depois, esse número era pouco maior que 2,5” – de toda forma, quase o dobro da taxa entre mulheres com ensino superior, que já em 2000 registravam uma taxa de 1,6 filhos.
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