sábado, 26 de setembro de 2026

Escritora paranaense transforma memória familiar em livro que aborda tema do legado emocional

Luana Avelarpor em
Escritora paranaense transforma memória familiar em livro que aborda tema do legado emocional
Em "Uma maçã para quatro", Cornelia Wendel resgata a história de diferentes gerações para refletir sobre os impactos do Holocausto, da migração e dos vínculos que atravessam o tempo

A obra “Uma maçã para quatro”, da médica e escritora Cornelia Wendel, publicada pela Editora Labrador, apresenta uma narrativa de forte carga emocional ao unir ficção, memória familiar e acontecimentos históricos. Com mais de 400 páginas, o romance conduz o leitor por uma trajetória marcada pelos reflexos da Segunda Guerra Mundial, mostrando como o trauma, a imigração e a reconstrução da vida em outro país continuam presentes nas gerações seguintes.

A história acompanha principalmente Corina, personagem cuja identidade é profundamente influenciada pelas marcas deixadas em sua mãe, Bertha, sobrevivente das perseguições nazistas. Ao lado de Ernest, avô ligado às tradições judaicas europeias, e de Willy, um ex-soldado alemão que tenta recomeçar a vida no Brasil, a narrativa constrói um retrato sensível das complexidades humanas, explorando temas como culpa, pertencimento, perdão, afeto e a difícil convivência entre passado e presente.

“A ideia da escrita não era minha. Era de um amigo apaixonado por história. Toda vez que eu contava algum caco incompleto da trajetória dos meus avós, ele falava: ‘Alemoa, tu tens que escrever sobre isso, tu tens muito pra contar, isso ainda vira um best-seller!’. E um belo dia rascunhei a primeira página e, de repente, as páginas fluíram uma atrás da outra até virarem ‘Uma maçã para quatro'”, relata Cornelia.

Mais do que revisitar acontecimentos históricos, o livro propõe uma reflexão sobre a herança emocional transmitida entre gerações. Ao retratar os desafios psicológicos enfrentados por sobreviventes da guerra e por seus descendentes, a autora desconstrói a ideia de que a resiliência ocorre de maneira simples ou definitiva. A personagem Bertha simboliza esse processo ao carregar traumas que moldam não apenas sua própria existência, mas também a formação emocional das filhas, revelando como experiências extremas permanecem vivas mesmo décadas depois.

Ambientada entre a Alemanha e o interior do Paraná, a narrativa também destaca o processo de adaptação vivido por famílias de imigrantes, abordando o choque entre culturas, o isolamento, as dificuldades da vida rural e a constante busca por identidade. Esses elementos ampliam o alcance da obra, que ultrapassa o contexto histórico para oferecer uma reflexão universal sobre memória, pertencimento e os laços invisíveis que conectam diferentes gerações.

“Se há uma mensagem nas entrelinhas dessa obra, o meu desejo é que ela toque o leitor de modo a escancarar o fio invisível que une gerações sem nunca ser cortado, apenas entrelaçado de formas diferentes entre cada personagem. O ar que eu respiro e o chão no qual piso trazem as marcas de cada antepassado meu, com todas as suas dores e alegrias. Eles estão em mim. E eu estarei em cada descendente que vier”, afirma a autora.

A autora

Cornelia Wendel nasceu em 1965 em Rolândia, no sul do Brasil, filha de um lavrador de origem alemã e de uma dona de casa de origem judaica. Médica, desde muito nova mostrou implacável paixão pela leitura, o que acabou por despertar-lhe o desejo de escrever sua primeira obra, “Uma maçã para quatro”, na qual retrata o legado de sua família.

 

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