terça-feira, 28 de julho de 2026

Estado passa a registrar déficits desde final de 2024, mostra IMB

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 28 de julho de 2026 às 00:03

Os números do relatório resumido da execução orçamentária já antecipavam alguma deterioração nas contas públicas do Estado no ano passado, quando desconsideradas receitas e despesas de caráter financeiro. O resultado primário, que não contabiliza juros e amortizações, havia saído de um superávit (receitas superiores às despesas primárias) de R$ 2,350 bilhões para um déficit de R$ 4,558 bilhões, refletindo uma aceleração dos gastos estaduais e principalmente dos investimentos. Registrou-se, portanto, uma reversão nas contas correspondente a R$ 6,909 bilhões em números aproximados.

Agora, texto publicado pelo Instituto Mauro Borges de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (IMB), de autoria do economista Karlo Marques Junior, investiga não apenas as oscilações nas receitas e despesas, mas o efeito fiscal daquelas alterações sobre a atividade econômica em Goiás. Doutor em desenvolvimento econômico pela Universidade Federal do Paraná e professor associado do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Ponta Grosso (UEPG), Marques Junior foi um dos selecionados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) como bolsista na área de desenvolvimento científico e tecnológico para atuação na Secretaria Geral de Governo.

O trabalho acompanha o período entre 2022 e 2025, analisando o resultado entre receitas e despesas a cada bimestre. Os números apurados por Marques Junior confirmam uma mudança de padrão a partir do final de 2024, com a política fiscal assumindo um papel mais “expansionista” – o que significa dizer que o Estado passou a gastar mais do que arrecada depois de descontados fatores não recorrentes na ponta das receitas e das despesas, assim como a influência da conjuntura econômica sobre aqueles dois fatores. Vale dizer, o governo estadual passou a “devolver” à sociedade, sob a forma de gastos públicos, valores mais elevados do que aqueles “enxugados” pelo setor público do lado real da economia por meio da cobrança de impostos, contribuições e taxas.

 

Método

Marques Junior trabalha com os conceitos de Resultado Primário Ciclicamente Ajustado (RPCA) e Resultado Fiscal Estrutural (RFE), estimando, para isso, qual seria o chamado “produto potencial” frente ao Produto Interno Bruto (PIB) efetivamente observado e apurando, a partir dessa comparação, o “hiato do produto estadual” – quer dizer, a diferença entre quanto cresceu e quanto poderia ter crescido a economia caso a atividade continuasse se comportando dentro de sua trajetória histórica, um dado, de resto, não observável na prática, mas apenas estimado por aproximação.

 

Balanço

O economista argumenta, corretamente, que “indicadores fiscais brutos podem induzir a diagnósticos equivocados para a gestão da política fiscal quando influenciados por flutuações transitórias e por eventos não recorrentes”. Mais especificamente, de acordo com ele, “superávit primário convencional é frequentemente utilizado para guiar a política fiscal e avaliar sua sustentabilidade. No entanto, essa medida, que considera apenas a diferença entre receitas e despesas sem incluir juros, pode não refletir adequadamente o esforço fiscal devido a fatores cíclicos e extraordinários”.

Para minimizar os riscos embutidos em avaliações precipitadas, o estudo estimou quais seriam os resultados ajustados ao ciclo econômico (RCPA), “expurgando” os efeitos das oscilações no ritmo de crescimento (ou de baixa) da economia.

A partir desse dado, Marques Junior construiu o RFE, que “visa isolar os efeitos de fatores cíclicos, como as flutuações no PIB (ciclos econômicos), nos preços de commodities e ativos, além de eventos não recorrentes, como receitas extraordinárias ou despesas temporárias”. Depois de estabelecer o RFE, o trabalho aferiu o impacto fiscal estrutural, que permite visualizar os reflexos efetivos da política fiscal sobre a economia.

Em sua visão, “a utilização sistemática do RFE e do impulso fiscal estrutural pode fortalecer a transparência das contas públicas e apoiar a formulação de estratégias fiscais mais alinhadas à sustentabilidade de longo prazo das finanças do Estado”.

A análise bimestral dos dados primários, prossegue Marques Junior, mostra oscilações relevantes entre 2022 e 2023, mas ainda em terreno positivo, com a trajetória fiscal passando a “apresentar resultados negativos a partir de 2024, “com convergência descendente entre o resultado primário, o RPCA e o RFE e predominância de impulsos fiscais estruturalmente expansionistas ao longo de 2025”.

No primeiro bimestre de 2024, medido em relação ao PIB estadual, o setor público estadual havia registrado superávit primário de 1,35%, correspondente a um impulso fiscal contracionista de 1,05%. Grosso modo, isso significa que o resultado fiscal ajudou a retirar do lado real da economia pouco mais de um ponto percentual o PIB. No sexto bimestre do mesmo ano, com o superávit primário “enxugado” para apenas 0,16% do produto, o estudo registra um impacto expansionista equivalente a 0,81%, ajudando a puxar o PIB ligeiramente para cima no período. O impacto foi ampliado para 0,51% no bimestre final do ano passado, resultado de um déficit primário de 1,63%.

A consolidação dos dados anuais, aponta ainda Marques Junior, reforça aquele diagnóstico. O Estado registrou superávit de forma estrutural entre 2022 e 2024, com saldos positivos de 0,26% no ano inicial desta série mais curta, de apenas 0,05% em 2023 e de 0,24% no ano seguinte, passando a registrar déficit de 0,98% em 2025. “Mesmo assim, embora haja um enfraquecimento da posição fiscal em 2025, sua magnitude ainda é moderada e reflete, em parte, condições econômicas transitórias que afetaram especificamente este ano”, registra o trabalho.

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