Estoques apertados e boa demanda garantem margens positivas no campo

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 16 de julho de 2021

As margens de lucratividade da soja e do milho tendem a avançar para níveis históricos na safra a ser colhida em 2022, esperando-se alguma redução para os ganhos líquidos dos produtores de algodão e um forte tropeço para o arroz, nas projeções mais recentes do Itaú BBA. Um balanço ainda muito apertado entre produção e consumo em todo o mundo, especialmente nos casos do milho e da soja, a demanda por grãos e matérias-primas ainda em ritmo vigoroso da China e o avanço da vacinação nas principais economias, acredita Guilherme Bellotti, gerente de consultoria agro do banco, devem puxar a renda bruta da porteira para dentro e essa combinação de fatores tenderá a influir nos resultados finais da safra recém-concluída e muito provavelmente ajudarão a manter um panorama ainda promissor para o ciclo 2021/22.

O Valor Bruto da Produção (VBP), na estimativa divulgada nesta semana pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), deve superar o recorde do ano passado, crescendo 10,5% em termos reais (já descontada a inflação), avançando de R$ 995,04 bilhões em 2020 para R$ 1,099 trilhão.As atividades ligadas mais diretamente às exportações explicam boa parte desse desempenho, diante da alta nos preços internacionais e domésticos e do dólar mais favorável.

Esse movimento de alta da renda bruta das atividades primárias da agropecuária, identificado praticamente na mesma proporção também pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), segundo seu diretor técnico, Bruno Lucchi, está diretamente relacionado aos preços muito mais elevados das commodities agrícolas. As cotações médias de alguns entre os principais itens da pauta de exportações do setor registram evolução vigorosa nos 12 meses terminados em junho deste ano, conforme levantamento da consultoria StoneX, com base em dados das bolsas de Chicago e de Nova York.

Preços e estoques

O milho surge como grande destaque, com salto de 105,3% entre junho do ano passado e o mesmo mês deste ano, saindo de quase US$ 3,28 para US$ 6,72 por bushel. Soja e café experimentaram altas de 68,6% e de 61,6% respectivamente, com ganhos de 45,5% para o açúcar. Na passagem de maio para junho deste ano, no entanto, houve desaquecimento para os preços da soja e do milho, que passaram a registrar baixas de 6,9% e de 3,6%. A cotação do açúcar em Nova York manteve-se inalterada ao redor de 17,20 centavos de dólar por libra peso, mas o café manteve a tendência de alta, subindo mais 4,7% no mês passado. A escalada dos preços intensificou-se a partir de setembro e outubro do ano passado e, nas previsões de Lucchi, tende a se manter pelo menos por mais uma safra, considerados os níveis ainda muito baixos dos estoques, principalmente de milho e soja.

Balanço

  • Entre os ciclos 2018/19 e 2020/21, nas previsões divulgadas no começo deste mês pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), os estoques de passagem da soja em grão sofreram perdas de 20,17% em todo o mundo, encolhendo de 114,61 milhões para 91,49 milhões de toneladas (23,12 milhões a menos). A queda no caso do milho foi de 13,2% em igual período, com os estoques finais caindo de 322,56 milhões para 279,86 milhões de toneladas (perto de 42,7 milhões de toneladas a menos).
  • A relação entre estoques e consumo baixou de 28,2% para 24,4% no caso do milho, o que significou sair de um volume de reservas que assegurava o consumo durante quase 103 dias para apenas 89 dias – um pouco menos do que o volume que seria necessário para cobrir a demanda durante a entressafra. Os estoques de soja, que eram suficientes para fazer frente a mais de 121 dias de consumo ao final a safra 2018/19, passaram a cobrir pouco mais de 90 dias.
  • Aqui dentro, o aumento nos preços externos e o câmbio mais favorável, embora ligeiramente mais baixo do que no ano passado, combinou-se com a produtividade mais elevada para produzir um ganho líquido de R$ 3.974 por hectare na média registrada pelas lavouras de soja no ciclo 2020/21 na região sudeste de Mato Grosso, o que significou alta de 20,8% em relação à safra anterior, nas estimativas do Itaú BBA.
  • Para a safra oficialmente iniciada em julho deste ano e a ser colhida a partir de fevereiro do próximo ano, se São Pedro ajudar, mesmo estimando um rendimento médio estável frente ao ciclo anterior, na faixa de 57,0 sacas por hectare, a margem agrícola ainda cresceria 14,2% em função de um avanço de 17,4% esperado para os preços que os produtores deverão receber pela soja a ser colhida no próximo ano. De acordo com Bellotti, o valor médio da saca tende a subir de R$ 115 para R$ 135, pouco mais do que dobrando em relação à safra 2018/19, quando havia alcançado R$ 67. No mesmo intervalo, a margem da cultura terá crescido em torno de 190% (saindo de R$ 1.563 por hectare em 2018/19).
  • O resultado líquido para os produtores de milho, ainda no sudeste mato-grossense, ficou estável na safra 2020/21, ao redor de R$ 2.581 por hectare, embora o preço tenha registrado elevação de 20,0%, para R$ 54 a saca, na média do período. A seca derrubou a produtividade em 11,5%, para 92 sacas por hectare, enquanto os custos de produção na lavoura subiram 14,6%.
  • No cenário desenhado pelo banco para a safra 2021/22, as margens para o milho tendem a crescer 20,9%, passando a R$ 3.121 por hectare, com o retorno da produtividade praticamente aos níveis de 2019/20 e avanço de 5,6% nos preços pagos aos produtores. O rendimento mais elevado, supondo um comportamento mais próximo do normal para o clima, e a elevação nos preços compensarão o incremento de quase 20,0% esperado para os custos de produção.
  • O algodão, que havia registrado níveis recordes para a margem agrícola em 2020/21, com ganho de R$ 9.222 por hectare, deverá observar recuo de 4,8% no ciclo 2021/22, para R$ 8.780. Para o arroz irrigado produzido no Rio Grande Sul, as margens tendem a desabar 44,8% na safra 2021/22, encolhendo para R$ 4.220 por hectare, depois de terem batido recorde na temporada passada, quando atingiram R$ 7.639, turbinadas pelo salto de 35,0% nos preços. Ainda assim, o ganho líquido estaria 139,4% maior do que aquele alcançado em 2018/19.
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