Exportação de grãos avança em março (e soja deve bater recorde)
A despeito da guerra e de seus impactos sobre as cadeias globais de suprimento, principalmente no setor de energia, os embarques de grãos programados pelos portos brasileiros para março tendem a apresentar avanço entre 1,40% e 10,8% em relação ao mesmo mês do ano passado, segundo dados da Associação Nacional de Exportadores de Cereais (Anec). Na soma geral, considerando as exportações de soja em grão, farelo de soja, milho e trigo, as vendas externas deverão sair de 18,599 milhões de toneladas em março do ano passado para algo entre 18,860 milhões e 20,609 milhões de toneladas no mesmo mês deste ano.
A diferença entre os números esperados para este mês está relacionada à expectativa da Abiec de que os embarques previstos para a soja em grão não se verifiquem integralmente, levando a associação a trabalhar com dois números. O primeiro toma como base a programação definida pelos embarcadores, que permite estimar o despacho total de 16,749 milhões de toneladas do cereal, o que significaria uma elevação de 6,46% em relação ao volume embarcado em março do ano passado, algo na faixa de 15,732 milhões de toneladas. Nesta hipótese, o primeiro trimestre encerraria com alta de 5,3% para as vendas de soja, que subiriam de 26,583 milhões para 27,994 milhões de toneladas.
Mais conservadora, a segunda projeção da associação considera a possibilidade de algum recuo para as vendas externas de soja em grão, para algo próximo a 15,0 milhões de toneladas em março deste ano, o que significaria uma redução de 4,7% na comparação com igual mês do ano passado, em valores aproximados. Neste caso, os números dos três primeiros meses deste ano indicariam um embarque total de alguma coisa acima de 26,245 milhões de toneladas, correspondendo a um recuo de 1,3%.
Efeito reduzido
Na soma geral, as vendas brasileiras de cereais para o restante do mundo no primeiro trimestre deste ano tenderiam a experimentar alguma estabilidade frente ao mesmo intervalo de 2025, numa estimativa mais conservadora, passando de 38,319 milhões para 38,332 milhões de toneladas. A se confirmarem as previsões mais otimistas, no entanto, haveria um avanço de 4,6% no trimestre inicial deste ano, com embarques totais ao redor de 40,040 milhões de toneladas. A se levar em conta a programação de embarques, a guerra de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã parece ter produzido efeitos reduzidos sobre os volumes destinados ao mercado internacional pelo agronegócio brasileiro, ao menos no caso dos grãos.
Balanço
Mesmo no caso do milho, que no primeiro bimestre deste ano destinou praticamente 40% de suas exportações para Irã, Egito e Arábia Saudita, os despachos ainda não haviam sido afetados. Os dois primeiros países recepcionaram perto de 21% e algo como 17% dos volumes totais embarcados pelo setor, respectivamente. A fatia da Arábia Saudita, no entanto, limitou-se a algo perto de 2%.
Apenas em março, os volumes programados para despacho ao exterior saltaram 83,63% frente ao terceiro mês do ano passado, subindo de 474,165 mil para 870,707 mil toneladas, na sequência de um redução de 18,93% em fevereiro. No trimestre, os embarques somaram 5,196 milhões de toneladas, diante de 4,976 milhões de toneladas nos primeiros três meses de 2025, num incremento de 4,40%.
Os embarques de farelo de soja também reagiram à queda de 9,91% registrado em fevereiro, passando a crescer 11,71% em março, sempre em relação ao mesmo mês do ano passado. No terceiro mês de 2025, a indústria havia embarcado 2,187 milhões de toneladas de farelo, volume elevado para 2,443 milhões de toneladas em março deste ano. Esse desempenho contribuiu para elevar o volume exportado no primeiro trimestre de 5,333 milhões no ano passado para 5,531 milhões de toneladas neste ano, numa elevação de 3,71%.
No primeiro bimestre, 48% das exportações farelo haviam sido direcionadas para países asiáticos, com destaque para Indonésia, com participação de 22% de acordo com a Abiec, seguida pela Tailândia, com 12%, Bangladesh e Vietnã, ambos com 5%, e China, com uma fatia de apenas 4%. O mercado chinês, de toda forma, concentrou 71% das exportações de soja em grão.
Resultado do esmagamento do milho para a produção de etanol, os “grãos secos de destilaria” (ou DDGs, na sigla em inglês) tiveram seus embarques elevados em 32,99% no primeiro trimestre, saltando de 253.283 mil para 336,852 mil toneladas. Já os volumes de trigo despachados para o exterior despencaram 30,76% em igual período, encolhendo de 1,426 milhão para 987,506 mil toneladas.
As projeções liberadas na sexta-feira, 13, pela Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove), já com a guerra em andamento, apostam em dados recordes tanto para o processamento doméstico de soja, favorecido por mais uma safra recorde do grão, quanto para as exportações do setor como um todo. O esmagamento tende a crescer 4,8% neste ano, saindo de 58,698 milhões de toneladas no ano passado para 61,5 milhões, resultando em um incremento de 5,7% para a produção de farelo (de 44,854 milhões para 47,4 milhões de toneladas) e de 3,5% para o óleo de soja (de 11,930 milhões para 12,350 milhões de toneladas).
Ainda na estimativa da Abiove, as exportações de soja deverão bater o número histórico do ano passado, quando foram embarcadas 108,181 milhões de toneladas, atingindo neste ano perto de 111,50 milhões de toneladas, numa variação de 3,1%. A alta de quase 9,5% esperada para os preços do grão lá fora tenderá impulsionar o valor a ser exportado para US$ 49,060 bilhões, numa alta de 12,7%.
Com alta de 5,6% nos volumes e queda de 10,3% no preço médio, as exportações de farelo tendem a baixar 5,2% neste ano, saindo de US$ 7,914 bilhões para US$ 7,503 bilhões. As vendas de óleo de soja no mercado internacional devem apresentar alta de 10,8%, avançando de US$ 1,448 bilhão para US$ 1,605 bilhão, refletindo o crescimento de 10% nos volumes exportados e leve variação de 0,75% nos preços médios.
No geral, a indústria da soja tenderá a elevar suas vendas em 3,6% em volume, para 137,6 milhões de toneladas, quebrando outro recorde, com aumento de 9,96% nas receitas de exportação, que tendem a subir de US$ 52,897 bilhões para US$ 58,168 bilhões – número inferior àquele registrado em 2023, próximo de US$ 67,317 bilhões, já que as cotações da soja e do farelo estiveram em média 19% e quase 68% mais elevadas, seguindo a mesma ordem.