Exportação de serviços culturais evita alta maior do déficit externo
As exportações líquidas de serviços de saúde, educação e outros de natureza cultural, associadas ao sucesso do cinema brasileiro no exterior, ajudaram a conter o avanço do déficit do País com o restante do mundo durante os primeiros 11 meses deste ano. As estatísticas mais recentes divulgadas ontem pelo Banco Central (BC) apontam elevação de 11,86% no déficit em transações correntes na comparação entre novembro deste ano e igual mês do ano passado, saindo de US$ 4,418 bilhões para pouco menos de US$ 4,943 bilhões.
O resultado, historicamente negativo, apresentou alta de 20,68% na comparação entre os 11 meses iniciais deste ano e o mesmo intervalo de 2024, com o déficit avançando de US$ 55,932 bilhões para US$ 67,496 bilhões, variação muito próxima de US$ 11,565 bilhões.
O ritmo de crescimento, tanto na comparação mensal quanto no acumulado do ano até novembro, teria sido ainda mais intenso se fosse desconsiderado o saldo entre exportações e importações de serviços culturais. A participação do setor na composição da conta total de serviços e, especialmente, no valor agregado das transações correntes pode parecer pouco expressiva — e de fato assim mostram os dados do BC. No entanto, a variação em relação a iguais períodos do ano passado tem sido suficientemente relevante para influenciar o desempenho geral das contas externas ao longo deste ano, o que reforça que o setor cultural não deveria ser desprezado na definição de políticas públicas.
Em novembro, o déficit na conta de serviços alcançou cerca de US$ 4,454 bilhões, correspondendo a 90,1% do resultado geral da conta de transações correntes. Ainda assim, houve queda de 11,82% em relação ao rombo de US$ 5,051 bilhões registrado no mesmo mês de 2024, significando que o País deixou de gastar nessa área aproximadamente US$ 596,959 milhões. Boa parte dessa “economia” deve ser creditada aos serviços culturais, que também explicam toda a redução do déficit dos serviços em geral entre janeiro e novembro deste ano.
Contribuição
Em novembro do ano passado, o País enviou ao exterior praticamente US$ 427,838 milhões para fazer frente a importações de serviços culturais, como filmes estrangeiros. Neste ano, porém, foi registrada uma receita líquida de US$ 36,091 milhões. Embora o valor pareça pequeno diante de um déficit superior a US$ 4,4 bilhões no mesmo mês para a conta de serviços, a mudança representou uma “virada” de sinal de US$ 463,929 milhões, equivalente a quase 78% da redução líquida observada no déficit dos serviços, que recuou cerca de US$ 597 milhões.
Entre janeiro e novembro do ano passado, o setor de serviços exigiu remessas líquidas ao exterior na ordem de US$ 50,211 bilhões. Neste ano, o déficit caiu para US$ 49,163 bilhões no mesmo período, correspondendo a um recuo de 2,09%, ou US$ 1,048 bilhão a menos. O rombo teria sido cinco vezes maior não fosse o saldo positivo acumulado pelas exportações de serviços culturais.
Balanço
Nos primeiros 11 meses do ano passado, a conta de serviços culturais acumulava déficit pouco inferior a US$ 4,457 bilhões, quase 9% do déficit total do setor de serviços. A queda nas despesas com a compra de serviços culturais fornecidos por estrangeiros levou essa conta ao terreno positivo em 2025, com superávit de US$ 136,790 milhões, indicando que as receitas passaram a superar as despesas.
Embora o valor pareça insignificante diante das dimensões do déficit geral, a mudança de sinal representou um impacto de US$ 4,593 bilhões, correspondentes ao montante que o País deixou de gastar nessa área entre os dois períodos analisados.
Ainda no setor cultural, os serviços de audiovisual, que haviam gerado um pequeno saldo de US$ 2,588 milhões entre janeiro e novembro de 2024, produziram superávit de US$ 81,988 milhões no mesmo intervalo deste ano — quase 32 vezes mais.
A conta de serviços de saúde, educação e outros serviços culturais, pessoais e recreativos, que havia sido deficitária em US$ 4,459 bilhões até novembro do ano passado, passou a registrar superávit de US$ 55,201 milhões neste ano, com crescimento de 39,1% nas receitas e queda de 90,2% nas despesas com importações desses serviços.
Em um exercício realizado pela coluna, apenas para reforçar o argumento, se excluídos os serviços culturais, o déficit do País em transações correntes teria registrado salto de quase 25% em novembro — frente à alta efetiva de 11,9% — passando de US$ 3,991 bilhões para US$ 4,979 bilhões. No acumulado de 11 meses, o aumento teria avançado de 20,7% para 31,4%, com o déficit subindo de US$ 51,475 bilhões para US$ 67,633 bilhões.
A conta de transações correntes contempla exportações e importações de bens e mercadorias, despesas com serviços no exterior — como gastos com viagens internacionais, fretes e aluguel de equipamentos importados — além de pagamentos de royalties, juros e remessas de lucros e dividendos ao exterior.
A balança comercial de bens e mercadorias continua a desempenhar papel central na definição do resultado das transações correntes, em função do ritmo mais intenso de crescimento das importações. Em novembro, especificamente, a queda de 15,28% no superávit comercial respondeu de forma decisiva pelo incremento no déficit em transações correntes.
O País elevou suas exportações de bens em 2,27% em relação a novembro do ano passado, de US$ 28,035 bilhões para US$ 28,672 bilhões, alta de US$ 636,920 milhões. No acumulado de 11 meses, o avanço foi de apenas 1,63%, com as vendas externas passando de US$ 314,763 bilhões para US$ 319,897 bilhões, variação de US$ 5,135 bilhões.
Já as importações de bens cresceram 7,10% em novembro, saindo de US$ 21,992 bilhões em 2024 para US$ 23,553 bilhões neste ano, acréscimo de US$ 1,560 bilhão. Com isso, o superávit da balança comercial caiu 15,28%, encolhendo de US$ 6,043 bilhões para US$ 5,119 bilhões, perda de US$ 923,503 milhões.
Entre janeiro e novembro, o País importou US$ 269,549 bilhões, contra US$ 253,043 bilhões no mesmo período de 2024, elevação de 6,52%, ou US$ 16,506 bilhões a mais. O resultado foi a queda do saldo comercial de US$ 61,720 bilhões para US$ 50,348 bilhões, um tombo de 18,42%. Essa retração representou uma perda líquida de US$ 11,372 bilhões para a balança comercial, equivalente a 98,3% do crescimento registrado pelo déficit em transações correntes no mesmo período.