sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Fertilizantes disparam e tendem a pressionar custos na próxima safra

Lauro Veiga Filhopor em

Os impactos da guerra movida por Israel e Estados Unidos contra o Irã dependerão, evidentemente, da evolução dos conflitos na região, de sua duração no tempo, da intensidade dos ataques e dos alvos escolhidos daqui em diante. Os primeiros reflexos, embora permitam visualizar o que poderá vir pela frente, anda devem ser tomados com cautela, diante da imprevisibilidade e das incertezas que vão se agravando como consequência direta da intensificação dos combates e da falta de racionalidade na administração Trump e da brutalidade dos planos expansionistas alimentados pela gestão de Benjamin Netanyahu.

Os estudos divulgados até aqui tentam mostrar os efeitos negativos sobre o comércio internacional, a atividade econômica global, assim como sobre preços e inflação, tomando o comportamento de indicadores ainda preliminares e que tendem a registrar alterações não esperadas conforme o andamento dos combates. Em trabalho recente, o economista Matheus Dias, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), registra que o acúmulo de tensões no Estreito de Ormuz, por onde trafegam (ou trafegavam) em torno de 20% da produção mundial de petróleo e gás natural, provocou uma escalada nos preços da ureia e do enxofre, insumos básicos para a produção de fertilizantes e adubos, “ameaçando a produção global de alimentos”.

Uma disruptura nas cadeias de suprimento no setor de fertilizantes de fato poderia complicar e encarecer o plantio das safras, afetando, como consequência, a oferta mundial de alimentos assim como seus custos – embora pareça ser ainda muito prematuro qualquer tipo de antecipação de cenários. De todo modo, segundo a plataforma Trade Economics, nos 30 dias entre 24 de fevereiro e ontem, 23 de março, os preços do enxofre e da ureia saltaram 30,11% e 45,88% respectivamente, com salto acumulado de 100,8% e de 79,2% em 12 meses, respeitando a mesma ordem. As cotações do enxofre já superam os níveis registrados logo no início da guerra entre Rússia e Ucrânia. Os preços do gás natural, principal matéria prima para a produção de fertilizantes nitrogenados, embora tenham registrado elevação 2,77% nos últimos 30 dias, ainda se encontravam 26,3% abaixo dos níveis registrados em 24 de março do ano passado.

Pressão altista

Dias estima que metade da alta dos custos dos fertilizantes tenderiam a ser repassados aos preços recebidos pelos produtores, segundo a “literatura empírica internacional sobre transmissão de preços agrícolas”. Neste caso, apenas como exercício, a escalada daqueles custos tenderia a gerar um encarecimento nos preços da safra a ser plantada a partir de setembro deste ano, com impactos sobre a produção a ser colhida no próximo ano. Em teoria, acrescenta ele, mercados competitivos tenderiam a repassar integralmente as altas de custos. No caso dos fertilizantes, no entanto, alguns fatores contribuem para limitar o repasse, a começar pela existência de contratos de médio prazo para compra de insumos, incluindo ainda o “poder de barganha ao longo da cadeia produtiva, capacidade ociosa e [a possibilidade de] substituição parcial entre insumos”.

Balanço

  • Aquele conjunto de fatores contribuiu para que os produtores possam absorver “parte do choque sem repassá-lo integralmente ao preço do produto”, assinala o economista. Em segundo lugar, acrescenta Dias, a compra antecipada de fertilizantes já é uma prática consolidada no setor.
  • Os “produtores adquirem insumos com três a seis meses de antecedência em relação ao plantio, de modo que os preços ao produtor já refletem expectativas de custo formadas com base em movimentos recentes dos preços internacionais, comprimindo a defasagem observável nas séries mensais”, anota.
  • Desta forma, o economista acredita que seria possível “sugerir uma estrutura de repasses que incidam entre zero e cinco meses, considerando que há repasses contemporâneos dado o elevado nível do choque”.
  • Ao avaliar “as contribuições combinadas dos canais diretos e indiretos” na alta do Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), que responde por 60% na composição do Índice Geral de Preços (IGP) da FGV, o economista projeta elevação em torno de 0,6 pontos percentuais, numa perspectiva mais otimista (que considera alta de 30% nos preços dos fertilizantes), e de 2,0 pontos na hipótese de um salto de 70%. “O impacto pode ser suficientemente relevante para alterar a tendência de curto prazo do IPA e, consequentemente, do IGP, que atualmente registra variação acumulada negativa em 12 meses”, projeta ainda.
  • Considerando a estrutura de custos e a “participação dos fertilizantes no custo intermediário de cada setor agropecuário”, entre os produtos em que a participação do insumo registra maiores percentuais estão o milho, com 32%, banana (31%), feijão (28%), batata inglesa e soja, ambos com 27%. Os números confirmam a “elevada dependência desses setores de insumos como ureia, fosfatados e potássio, que têm origem justamente nas regiões afetadas pelo conflito no Estreito de Ormuz”.
  • Segundo dados de The Fertilizer Institute, mencionados por Dias, a região sob os efeitos da guerra “não é somente estratégica na produção de petróleo, mas também na produção e no fluxo de exportação de insumos e fertilizantes”. A produção de ureia nas regiões que dependem do estreito para escoamento corresponde a praticamente metade da exportação global do insumo.
  • Adicionalmente, a região afetada pelo conflito participa ainda de quase 50% das exportações mundiais de enxofre, utilizado na produção de fertilizantes fosfatados. E um quinto da produção mundial de gás natural, essencial na produção de adubos nitrogenados, passa por Ormuz.
  • “Esses números mostram que uma interrupção da cadeia logística de fertilizantes, mesmo que por poucas semanas, pode gerar efeitos significativos nas cadeias globais de alimentos dada a elevada dependência dos volumes que escoam diariamente pelo estreito”, comenta Dias.
  • Nos dois primeiros meses deste ano, a participação dos países na região nas importações brasileiras de fertilizantes e adubos havia sido elevada para 25,32%, saindo de 19,89% no mesmo bimestre de 2025. Em volume, havia sido registrada alta de 26,49%, de 1,050 milhão para 1,329 milhão de toneladas. No total, o Brasil havia reduzido suas compras nesta área em 0,66%, num recuo de 5,281 milhões para 5,246 milhões de toneladas.

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