FGV antecipa recuo de 0,3% para a economia em Goiás ao longo de 2026
As projeções do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) para 2026 sugerem desaquecimento para o Produto Interno Bruto (PIB) na região Centro-Oeste, considerando a estimativa de taxas menos alentadas de crescimento do produto no segundo trimestre e no restante deste ano. As previsões consideram a perda de dinamismo da agropecuária, algum avanço para a indústria, sobretudo em Mato Grosso e Goiás, e maior influência dos serviços, especialmente no Distrito Federal, onde a participação do setor é mais ampla.
O cenário antevisto pelo Ibre/FGV, na avaliação dos coordenadores do Núcleo de Contas Nacionais do instituto, Juliana Trece e Claudio Considera, leva em conta a perspectiva de elevação de 1,9% para o PIB de todo o Centro-Oeste no fechamento de 2026, comparado ao ano passado, saindo de uma variação anual média de 3,1% em 2024 e 2025. O desempenho, de toda forma, antecipa uma tendência de repetir o comportamento projetado para a economia em todo o País, na mediana das projeções coletadas pelo Banco Central (BC) no relatório Focus.
A nota mais negativa está reservada para a economia goiana, que tende a apresentar estagnação virtual ao longo deste ano, num recuo de 0,3% frente a 2025, depois de apresentar crescimento médio de 3,3% nos dois últimos anos. Mato Grosso deve acompanhar a mesma tendência de desaceleração, saindo de um avanço médio de 3,9% em 2024 e 2025 para uma variação positiva de apenas 0,8%. Graças ao comportamento mais destacado dos serviços, o PIB do Distrito Federal deve manter-se na mesma média dos dois anos anteriores, subindo 3,6% na expectativa do Ibre/FGV. Mato Grosso do Sul surge como a exceção que parece confirmar a regra, para abusar de um chavão, já que a taxa de variação do PIB tenderia a sair de apenas 0,7% na média de 2024 e 2025 para uma alta de 4,2%
Padrão e exceção
Os dados trabalhados pelo Ibre-FGV para construir suas projeções sugerem que o PIB de toda a região Centro-Oeste deve seguir um “padrão similar” ao observado para o conjunto da economia brasileira neste ano, com Mato Grosso do Sul surgindo, conforme já registrado, como “única exceção”. O Estado, apontam os autores do estudo, “tem na agropecuária um forte motor para o crescimento econômico do ano”. Mesmo que “um El Niño severo” traga “impactos prejudiciais para a agropecuária no segundo semestre”. De qualquer maneira, ponderam Juliana e Considera, “como o Mato Grosso do Sul apresentou crescimento do setor bastante influenciado pela produção de soja e, grande parte dessa cultura é colhida no primeiro semestre, grande parte do bom desempenho agropecuário do Estado já foi efetivamente realizado”.
Balanço
O cenário para os demais Estados da região aponta desafios em comum, mas com a diferença de um desempenho mais negativo da atividade agropecuária. Entre esses desafios, o trabalho aponta os níveis muito elevados das taxas de juros, “alto grau de endividamento das famílias e, ao risco de pressão inflacionária pelo aumento do preço do barril do petróleo neste ano, além da expectativa de aumento no preço dos alimentos devido aos potenciais prejuízos que podem ser gerados pelo El Niño, o que acarreta risco de pressão inflacionária, o que pode reduzir o ritmo de corte dos juros em curso pelo BC”.
Neste ponto, uma observação lateral talvez se faça necessária. Até o momento, as taxas de inflação têm mantido bom comportamento, com variações reduzidas e mesmo algum recuo nas medições mais recentes. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de agosto, apenas como exemplo, apresentou recuo de 0,32% e uma taxa inflacionária de 4,22% no acumulado em 12 meses.
Vale dizer, as pressões inflacionárias antecipadas pelo Ibre/FGV tendem a ocorrer em um ambiente que vinha sendo deflacionário até o final de agosto, o que pode ajudar a absorver eventuais choques de preços adiante, a depender da intensidade das altas à frente. No caso dos alimentos, as pressões podem vir mais da área de legumes, hortaliças e frutas, de ciclo mais curto e mais sensíveis a alterações climáticas. Os preços dos grãos tenderiam a apresentar alguma variação na virada do ano, caso se caracterize um cenário mais drástico de quebra das safras de verão.
De volta ao estudo do Ibre/FGV, ainda como fator de insegurança, os economistas fazem menção a “toda a incerteza característica de um ano eleitoral”, acrescentando que, no conjunto da obra, todos os elementos mencionados – a saber, juros nas nuvens, endividamento histórico das famílias (e de empresas, acrescente-se), riscos de pressões inflacionárias e o período eleitoral – “tendem a deixar os agentes econômicos mais cautelosos na tomada de decisão e comprometem, principalmente, investimentos em atividades ligadas à indústria e parte dos serviços”.
No segundo trimestre deste ano, comparado ao mesmo período do ano passado, enquanto o PIB total do País avançou 2,0%, as estimativas do Ibre/FGV anotam variação de 1,6% para o Centro-Oeste como um todo. Na liderança, ao menos em termos relativos, o PIB do Distrito Federal teria apresentado a maior variação, crescendo 2,9% por conta do “crescimento disseminado do setor de serviços”.
O instituto estima que mais de 70% do crescimento do PIB regional podem ser explicados pelo desempenho do setor de serviços. Mais d que isto, destaca o trabalho, “cerca de 75% do crescimento do valor adicionado dos serviços regional deveu-se ao Distrito Federal”. Na capital federal, a alta de 3,0% nos serviços, que representa em torno de 95% da economia do DF, mais do que compensou a redução de 1,2% estimada para a indústria no segundo trimestre.
O segundo melhor resultado veio de Mato Grosso do Sul, com alta de 2,5% frente ao segundo trimestre do ano passado, favorecido principalmente pelo aumento de 19,7% na produção de soja (o que contribuiu para o salto de 7,3% no valor adicionado da agropecuária) e pelo incremento de 2,4% na indústria.
Goiás e Mato Grosso teriam apresentado, cada um, variação de 0,5% para o PIB no segundo trimestre deste ano, ajudando a desaquecer o PIB regional. O valor adicionado pela agropecuária goiana caiu 5,0% diante de quedas de 27,6% e de 2,8% na produção respectivamente de soja e milho, o que se compara com recuo de 0,6% para o setor em Mato Grosso (influenciado pela quebra de 11,0% na produção de algodão).
Além disso, os dois Estados compartilharam a mesma variação para o PIB industrial, num avanço de 3,1%. Alimentos, minerais não metálicos e biocombustíveis lideram o desempenho favorável em Mato Grosso, enquanto em Goiás o instituto destaca avanços na produção de biocombustíveis e veículos.
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