FGV projeta baixa de 0,7% para PIB goiano no primeiro trimestre
A quebra na produção de grãos neste ano, explicada principalmente por um tombo de 31,4% na colheita da segunda safra de milho, e perdas nos setores de aves, suínos e leite levaram a uma retração no valor adicionado pela agropecuária à economia do Estado ao longo do primeiro trimestre deste ano, causando uma redução de 0,7% no Produto Interno Bruto (PIB). A projeção foi divulgada pelo Núcleo de Contas Nacionais do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), coordenado pelos economistas Juliana Trece e Claudio Considera, que foi diretor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) entre 1992 1998 e secretário de acompanhamento econômico do Ministério da Fazenda de 1999 a 2002, no segundo mandato então presidente Fernando Henrique Cardoso.
A estimativa faz parte de uma iniciativa do Núcleo de Contas Nacionais do Ibre lançada no início de 2025 e que pretende “ampliar a análise da atividade econômica sob o aspecto regional”, escolhendo pela primeira vez o Centro-Oeste como foco. “Trata-se de um esforço experimental, ainda em avaliação, com objetivo de dar maior visibilidade a aspectos econômicos locais”, resumem Juliana e Considera. Nessa estimativa, Goiás teria registrado o pior desempenho na região, considerando que as previsões do Ibre apontam recuo de 0,3% para o PIB de Mato Grosso, mas altas de 3,5% para o Distrito Federal e de 4,5% no Mato Grosso do Sul.
Nessa análise, Goiás e Mato Grosso foram mais atingidos pela queda no valor gerado pela agropecuária. “As estimativas de queda ou estagnação em Mato Grosso e Goiás, tanto na produção de soja quanto na de milho, explicam a retração estimada para o setor regional no primeiro trimestre de 2026”, anota o Ibre. Mas Mato Grosso do Sul deveu 70% de seu crescimento à agropecuária ao restante da indústria, considerando que o setor de serviços teria anotado estabilidade ao longo do primeiro trimestre. O PIB da capital federal, ao contrário, foi movimentado pelo setor de serviços, que responde por mais de 90% da economia local.
Diferenças locais
Ao analisar o comportamento da economia em todo o Centro-Oeste, o estudo estima uma variação de 1,5% para o PIB, ligeiramente inferior à elevação de 1,8% registrada para o PIB brasileiro também no primeiro trimestre. A desaceleração pode ser associada, de acordo com o Ibre, “ao desempenho da agropecuária, que após ter apresentado, em 2025, forte desempenho na região, iniciou 2026 com recuo, apesar do bom desempenho agropecuário de Mato Grosso do Sul, explicado pela estimativa de crescimento da produção de soja do Estado em 2026”. Nos dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra de soja em Mato Grosso do Sul cresceu 10,93% no ciclo 2025/26, saindo de 14,202 milhões de toneladas na safra anterior para 15,754 milhões de toneladas.
Balanço
No Centro-Oeste como um todo, ainda nas estimativas do Ibre/FGV, o PIB agropecuário anotou baixa de 1,4%, compensada por altas de 2,4% tanto na indústria quando nos serviços. “Na indústria, a transformação é a principal responsável pelo crescimento do setor, explicada principalmente pelos estados do Mato Grosso do Sul e do Mato Grosso. No setor de serviços, estima-se que o crescimento positivo se deva, principalmente, aos desempenhos do Distrito Federal e de Mato Grosso, unidades federativas em que todas as atividades de serviços mostraram crescimento”, comenta o estudo.
No caso de Goiás, os números da Conab mostram uma redução de 11,23% na produção de grãos, que baixou de 37,363 milhões para menos de 33,167 milhões de toneladas, numa perda de 4,196 milhões de toneladas. A produção de soja registrou baixa menos severa, numa redução de 2,79% na comparação com a safra 2024/25, saindo de 20,726 milhões para 20,148 milhões de toneladas.
A grande quebra atingiu a segunda safra de milho, que desabou de 12,717 milhões para menos de 8,720 milhões de toneladas, num tombo de 31,43%, significando 3,998 milhões de toneladas a menos. Aqui, o atraso no plantio de soja impediu o cultivo da segunda safra de milho na janela ideal, com a lavoura ainda sofrendo os efeitos da baixa precipitação no momento de plantio e excesso de chuvas na fase de colheita.
O efeito daquelas perdas, entre outros, produziu uma redução também no valor bruto da produção da agropecuária no Estado, a valores corrigidos com base no Índice Geral de Preços-Disponibilidade Interna (IGP-DI) do Ibre/FGV. O levantamento realizado pelo Ministério da Pecuária e Agricultura (Mapa) mostra que o valor bruto da produção total no setor deverá cair de R$ 126,545 bilhões no ano passado para R$ 117,101 bilhões neste ano, configurando uma perda de R$ 9,444 bilhões – ou seja, uma redução de 7,46% em termos reais.
A queda ficou mais concentrada nas lavouras, já que o valor da produção no setor tenderá a encolher de R$ 83,758 bilhões para R$ 75,088 bilhões, numa retração de 10,35%. Além da quebra na safra, os preços médios dos principais grãos indicam uma redução de 4,5% entre 2025 e 2026, em termos reais.
As perdas nas lavouras ficaram concentradas em soja, milho e cana, que deverão responder por 51,19% de todo o valor bruto da agropecuária neste ano, abaixo do que havia sido observado no ano passado, quando as três culturas tiveram participação de 56,28% no total. Mais uma vez, a queda mais relevante ficou por conta do milho, que deverá observar um tombo de 36,79% em valores atualizados até junho deste ano, saindo de R$ 15,865 bilhões para R$ 10,028 bilhões (em torno de R$ 5,837 bilhões a menos).
O valor da produção de soja sofreu baixa de 9,41%, reduzido de R$ 40,418 bilhões para R$ 36,614 bilhões. Os produtores de cana devem experimentar baixa de 7,58% na receita bruta total, estimada em R$ 13,306 bilhões neste ano, frente a R$ 14,397 bilhões no ano passado.
A pecuária tende a sofrer menos, com recuo de 1,81%, saindo de R$ 42,786 bilhões para R$ 42,013 bilhões, graças à colaboração positiva da pecuária bovina, que deverá registrar ganho de 7,24% na mesma comparação, avançando de R$ 22,642 bilhões para R$ 24,282 bilhões. Os demais setores da pecuária (aves, suínos, leite e ovos) deverão ter o valor de sua produção reduzido de R$ 20,144 bilhões para R$ 17,731 bilhões, em baixa de 11,98% (perto de R$ 2,413 bilhões a menos).
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