Fora do agronegócio, déficit comercial salta 86,5% e supera US$ 1,9 bilhão

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 18 de setembro de 2021

Os dados da balança comercial de Goiás, para além de números históricos para as exportações, trazem pelo menos duas tendências opostas na aparência. A primeira delas mostra que, fora do agronegócio, os demais setores da economia estadual acumularam um déficit comercial (importações maiores do que exportações) de US$ 1,904 bilhão entre janeiro e agosto deste ano, num aumento de 86,49% em relação ao rombo de US$ 1,021 bilhão no mesmo intervalo de 2020. Parte importante do déficit deste ano deveu-se ao salto das importações de energia elétrica, crescendo 46,6 vezes naquela comparação.

O segundo ponto, agora favorável, diz respeito aos chamados termos de troca. O aumento vigoroso nos preços médios dos produtos exportados por Goiás, com destaque para as commodities de base agropecuária, ajudou a melhorar a relação de troca com o restante do mundo, tornando o custo dos produtos importados relativamente mais baixos. Colocado de outra forma, o Estado teve que realizar um esforço proporcionalmente menor para gerar um saldo ainda bastante positivo em sua balança comercial, com redução nos volumes embarcados para fora do País. Houve uma redução, assim, da produção doméstica destinada ao mercado externo, em tese apropriada pelo mercado local, ajudando a gerar mais riquezas aqui dentro.

Na prática, considerando-se estudos que mostram um agravamento dos indicadores de pobreza no Estado, essa riqueza adicional parece ter sido absorvida quase integralmente pelos setores exportadores, com baixo ou nenhum “transbordamento” dessa renda adicional para o restante da população. Num estudo recente, o economista Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), mostra que a porcentagem de pobres no total da população goiana avançou de 18,1% no início de 2019 para 24,0% no começo deste ano, considerando-se as famílias com renda per capita abaixo de US$ 5,50 por dia. Em toda a região Centro-Oeste, o percentual de famílias com insegurança alimentar grave (quer dizer, passando fome diariamente) já havia avançado de 4,6% em 2018 para 6,9% em 2020.

Ainda o agronegócio

Essa melhoria relativa nos termos de troca, embora não tenha conseguido anular a ampla diferença entre os preços médios das exportações frente aos valores pagos pelo Estado por suas importações, esteve relacionada diretamente ao ciclo recente de alta das commodities, dada a extrema dependência da balança comercial goiana em relação ao agronegócio. As exportações, em valor, conforme anotado neste espaço, cresceram 13,47% nos primeiros oito meses deste ano em relação a igual período de 2020, atingindo o recorde de US$ 6,566 bilhões. Os volumes exportados, no entanto, caíram 14,67%. O ganho nesta área foi assegurado totalmente pelo salto de 32,97% nos preços médios dos bens exportados, com alta de 32,7% para os produtos do agronegócio.

Balanço

  • Na ponta das importações, o salto de 50,9% nos valores gastos com bens importados (dos quais a compra de energia elétrica respondeu por mais da metade) veio da combinação de aumento de 17,51% nos volumes comprados lá fora e da alta de 28,39% nos valores médios daqueles produtos. Como se percebe, ainda que os preços médios das importações tenham avançado com vigor, a variação nos valores médios das exportações foi mais intensa.
  • Os termos de troca, neste caso, foram mais favoráveis aos exportadores. Mas a relação continuou desigual, considerando-se, ainda, a participação mais elevada de produtos de maior valor agregado na pauta das compras externas. Para comparar, tomando dados brutos do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, no ano passado, até agosto, os preços médios das importações foram pouco mais de duas vezes maiores do que os valores médios das exportações. Essa diferença caiu neste ano, mas manteve-se ainda elevada: a diferença nas duas pontas recuou para 93,4%.
  • As estatísticas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) mostram que essa melhora relativa nos termos de troca tem sido influenciada diretamente pelo agronegócio ou, de forma mais precisa, pela tendência de alta global nos preços das commodities. O agronegócio exportou US$ 5,304 bilhões entre janeiro e agosto deste ano, respondendo por 80,78% das vendas externas totais do Estado. O valor exportado cresceu 12,6% em relação aos mesmos oito meses de 2020, quando o agronegócio havia exportado US$ 4,710 bilhões (81,40% das exportações totais).
  • Os volumes embarcados, no entanto, despencaram 15,15% neste ano, de 11,357 milhões para pouco menos de 9,637 milhões de toneladas, sob influência principalmente da redução de 7,2% nos volumes de soja em grão despachados para fora (saindo de 7,034 milhões para 6,530 milhões de toneladas) e do tombo de 70,85% nos embarques de milho (que desabaram de 1,536 milhão para apenas 447,89 mil toneladas).
  • O efeito do boom das commodities correspondeu a uma elevação de 32,71% nos preços médios dos produtos exportados pelo agronegócio, enquanto a cotação média das importações do setor recuou 2,7%. A relação entre os preços das vendas e compras externas igualmente mostra avanços, mas as diferenças entre as duas pontas continuam elevadas, da mesma forma. Na média, o agronegócio pagou 2,46 vezes mais na importação em 2020, distância reduzida para 80,6% neste ano.
  • Na média, os preços da carne bovina, da soja em grão e mesmo do milho aumentaram 17,5%, 23,4% e 19,9% considerando os oito primeiros meses de 2020 e deste ano. Destaque para o incremento de 56,7% nos preços médios do óleo de soja, beneficiados pela quebra na produção de óleo palma no Sudeste da Ásia, o que reduziu a oferta e direcionou a demanda para o óleo de soja.
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