Ganhos econômicos e ambientais estimulam avanço das usinas “flex”
A possibilidade de otimizar ativos na área industrial, combinada com a perspectiva de custos fixos mais baixos e de avanços na área ambiental, a exemplo da possibilidade de redução da pegada de carbono, têm estimulado investimentos em usinas flex, que combinam o uso de cana de açúcar e milho na produção de etanol. Na avaliação da União da Indústria de Cana de Açúcar e Bioenergia (Unica), o “arranjo flex” consolida-se como um “modelo de alta competitividade”, que oferece ainda vantagem estratégica diferenciada. “Trata-se de um avanço que fortalece o abastecimento continuado do mercado nacional e apoia a segurança energética do Brasil”, registra a entidade.
Atualmente, de acordo com a Unica, 12 usinas operam em modelo flex, das quais dez no Centro-Sul e duas nas regiões Norte e Nordeste, e produziram entre 5% a 6% de todo o etanol processado no ciclo 2025/26, o que corresponderia a algo entre 1,8 bilhão e 2,2 bilhões e litros, considerando a produção de 36,7 bilhões de litros na safra encerrada em março deste ano. Nas projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), mencionadas pelos professores Marcos Fava Neves e Vinícius Cambaúva, sócios da Markestrat Group, a produção de etanol deve crescer para algo entre 45,0 bilhões e 58,0 bilhões de litros até 2035, dos quais perto de 22,0 bilhões de litros deverão ser extraídos do milho, na projeção mais otimista, incluindo a construção de novas unidades, a conversão e expansão de unidades já existentes para a modalidade flex.
O avanço deverá demandar investimentos de R$ 17,5 bilhões até meados da próxima década apenas na área industrial. A participação do milho na produção de etanol deverá ser aproximar de 40%, frente a 27% na safra 2025/26, nos dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). “O Brasil vivencia uma transformação estrutural na sua matriz energética e agrícola”, anotam Fava e Cambaúva, com a ascensão acelerada do etanol de milho, estabelecendo um modelo de “complementaridade que fortalece a segurança energética, a sustentabilidade e a competitividade do país no cenário de descarbonização global”. No processo, acrescentam, o arranjo reduz a ociosidade dos equipamentos e “estabiliza a oferta do combustível no mercado regional ao longo dos 12 meses”.
Queda de emissões
Além de possibilitar melhor aproveitamento da biomassa da cana, seja no processo industrial, com produção de etanol durante todo o ano, seja na geração de energia, observa Nilza Patrícia Ramos, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, a pegada de carbono nas usinas flex, quando a produção ocorre sem mudanças no uso do solo, tem variado entre 17 gramas a 28 ou 30 gramas de carbono equivalente por megajoule de biocombustível produzido, o que se compara com 87 gramas no caso da gasolina C (sem mistura) – quer dizer, algo entre três e cinco vezes mais elevado. “Mesmo os piores empreendimentos, como se vê, se eles tiverem um bom sistema produtivo já vão evitar muita emissão”, comenta Patrícia Ramos.
Balanço
Com produção aproximada de 600 milhões de litros de etanol por ano, a Cargill Bioenergia concentra a operação integrada de cana e milho em Quirinópolis (GO), onde estão instaladas as unidades São Francisco e a de processamento de grãos. “O modelo flex reúne importantes vantagens operacionais, econômicas e ambientais. A principal delas é a possibilidade de maximizar a utilização dos ativos industriais ao longo do ano, aproveitando a complementaridade entre as safras de cana e milho”, resume Ronaldo Bezerra, diretor-geral da companhia.
Na sua visão, o uso do milho na entressafra da cana amplia o período operacional da indústria, aumenta a “eficiência dos investimentos realizados, melhorando a produtividade dos ativos”, ao agregar ao sistema a produção de óleo de milho e de DDGs destinados à nutrição animal. Adicionalmente, prossegue Bezerra, o uso do bagaço reduz a necessidade de recorrer a fontes externas de matéria primas para a cogeração de energia.
A empresa avalia, neste momento, a possibilidade de instalação de uma planta de milho anexa à Unidade de Rio Dourado, em Cachoeira Dourada (GO), onde processa 3,0 milhões de toneladas de cana por safra para produção de etanol e geração de energia.
A decisão de investimento em plantas anexas de cana e milho, com uso compartilhado de insumos, “passa majoritariamente por diversificação das fontes de matéria prima e aproveitamento de sinergias existentes, minimizando o investimento requerido e capturando potenciais ganhos de escala durante a operação”, afirma Gustavo de Marchi Galvão Oliveira, diretor administrativo e financeiro da CerradinhoBio.
Com plantas em Goiás e Mato Grosso do Sul, a empresa tem capacidade para processar 6,1 milhões de toneladas de cana e 1,85 milhão de toneladas de milho, somando capacidade total para 1,35 bilhão de litros de etanol por ano. A administração da companhia, segundo Oliveira, segue avaliando oportunidades de expansão de sua operação “de acordo com as condições de mercado e com sua estratégia de crescimento”.
A Atvos pretende transformar a Unidade Santa Luzia, em Nova Alvorada do Sul (MS), em seu primeiro complexo de transição energética, integrando cana e milho na produção de etanol e bioeletricidade e ainda uma planta de biometano a partir de torta de filtro e vinhaça. “A estratégia é ampliar a diversificação de soluções energéticas renováveis e avançar na consolidação da companhia como uma plataforma integrada de bioenergia”, afirma Alexandre Maganhato, vice-presidente de tecnologia da empresa.
A unidade de produção de etanol de milho começou a ser construída neste semestre e deve iniciar a produção em 2028, com capacidade para 273 milhões de litros. Num investimento de R$ 350 milhões, a produção de biometano, prevista em 28 milhões de metros cúbicos por ano, deverá ser iniciada em 2027.
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