Ganhos na área externa trouxeram mais desigualdades até o momento

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 07 de setembro de 2021

O crescimento das exportações brasileiras neste ano tem sido puxado pela alta de preços das commodities, numa tendência iniciada ainda na segunda metade do ano passado, envolvendo não apenas produtos agrícolas, como soja e seus derivados, café, açúcar e outros, mas também petróleo, cobre, níquel, ouro e principalmente minério de ferro. Apenas três produtos – minério ferro, soja em grão e óleos brutos de petróleo, nessa mesma ordem – responderam por quase 60% do aumento experimentado pelo valor total das vendas externas entre janeiro e agosto deste ano comparado ao mesmo período de 2020. Esse avanço, no entanto, não tem sido correspondido, aqui dentro, por uma reação em igual direção e proporção da atividade econômica e seus efeitos, da mesma forma, têm se distribuídos de forma extremamente desigual, agravando disparidades e concentrando ainda mais as riquezas geradas pelo esforço de todos os brasileiros num momento de crise sanitária.

O chamado “boom das commodities”, claro, tem encarecido os custos para várias cadeias de produção que dependem de matérias primas e insumos importados, mas também produz efeitos sobre a renda do País. Embora e discuta a intensidade e a duração desse “boom”, pontos sobre os quais não há consensos ainda estabelecidos, como lembra Lia Valls, pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), o dado concreto é que o preço mais alto dos produtos exportados pelo Brasil tem gerado uma melhora no que os economistas chamam de “termos de troca”.

Mais claramente, isso significa dizer que os preços recebidos pelo País ao exportar parte de sua produção subiram mais do que os valores desembolsados para fazer frente às importações de toda sorte de bens e mercadorias. Colocado de outra forma, a economia pode exportar volumes proporcionalmente menores para comprar lá fora os mesmos volumes ou mesmo volumes maiores de máquinas e equipamentos, insumos, matérias primas e outras mercadorias. Houve uma “transferência de renda” de fora para dentro do País. Em termos gerais, observa a economista, “uma melhora nos termos de troca significa maior riqueza para o País”. Atribui-se em parte a esse efeito, por exemplo, o crescimento observado entre os primeiros anos da década de 2000 e o começo da década seguinte, coincidindo com um ciclo de alta das commodities, que saíram de baixas históricas para níveis recordes, igualmente numa perspectiva de longo prazo.

Termos de troca

Assim como lá atrás, o “boom” atual tem sido atribuído, prossegue Lia Valls, ao apetite chinês por alimentos, minério de ferro, petróleo e outros insumos. “Pode ser que essa pressão tão grande sobre as commodities sofra alguma desaceleração, moderando o avanço das exportações”, diz ela, mas este não é um cenário ainda de consenso. De qualquer forma, tomando os dados até julho deste ano, a economista aponta uma elevação de 27% nos termos de troca desde julho do ano passado. Essa melhora reflete alta de 28,2% nos preços médios dos produtos exportados, diante de variação de 3,9% nos volumes embarcados, na comparação entre os sete primeiros meses deste ano e igual intervalo de 2020; enquanto os preços médios dos bens importados subiram 6,2%, com alta de 22,7% nos volumes.

Balanço

  • O mais recente boletim sobre comércio exterior do Ibre/FGV, assinado pela economista, registra que o indicador dos termos de troca atingiu 125,9 em julho, ainda 4,8% abaixo do pico histórico da série, atingido em outubro de 2011, quando o índice bateu em 132,2. Quando considerado o índice médio de 2011, no entanto, muito próximo de 127,4 pontos, a distância fica menor, já que o índice médio observado entre janeiro e julho deste ano chegou a 124,0 (quer dizer, apenas 2,7% mais baixo do que na fase do “superciclo de commodities” daquele período).
  • Lá atrás, o aumento exponencial das commodities veio acompanhada de queda do dólar, ao contrário do que ocorreu agora, e os ganhos trazidos pela melhoria nos termos de troca puderam ser melhor distribuídos em função de um conjunto de políticas de inclusão, de melhorias sociais e de recuperação da renda da população adotadas pelo governo da época. O impacto sobre a concentração de riquezas foi, no entanto, reduzido, já que os extratos mais elevados na divisão da renda também foram favorecidos por ganhos no período.
  • A discussão sobre os motivos que têm impedido que os efeitos da alta nos termos de troca gerem mais crescimento e possam ser melhor partilhados pelo restante da população ainda começam a ser debatidos aqui dentro. Mas a professora Laura Carvalho, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, autora de “Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico”, sugere que a alta do dólar e a interrupção das políticas de inclusão possam fazer parte da explicação.
  • Como lembra a economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim de Conjuntura do Ibre/FGV, “o câmbio ficou muito desvalorizado (no ciclo atual de alta das commodities)”, gerando mais inflação. “Quando há um choque de commodities e o câmbio se valoriza, todos se beneficiam. Mas não aconteceu muito isso no ciclo atual”, observa ela.
  • O fim da política de valorização real (acima da inflação) do salário mínimo, lembra por Laura Carvalho, deve ser incluído no “pacote”, já que sua correção lá atrás contribuiu para o processo de inclusão social em curso. Segundo números do IpeaData, que considera valores corrigidos pela inflação, o salário mínimo experimentou crescimento real de 65,26% entre julho de 2002 e o mesmo mês de 2012. Entre julho de 2017 e julho deste ano, o mínimo encolheu 2,6%.
  • Trabalho desenvolvido pelo economista Daniel Duque, pesquisador do Ibre/FGV, e publicado pelo jornal Valor Econômico (25/08/21) mostra que aumentou o percentual da população com renda per capita abaixo de US$ 5,50 por dia (R$ 28,50 aproximadamente), que define o que se convencionou chamar de “linha da pobreza”. Na média do Brasil, perto de 25,2% dos brasileiros encontravam-se abaixo daquela linha no primeiro trimestre de 2019, percentual elevado para 29,5% no mesmo trimestre deste ano.
  • A piora foi generalizada entre os Estados, com exceção para o Acre e o Tocantins (onde o percentual da pobreza já era elevada, chegando respectivamente a 46,4% e a 35,7% da população local). Os Estados do Norte e do Nordeste apresentaram piora de forma generalizada, mas a pobreza avançou destacadamente no Distrito Federal, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Goiás e São Paulo.
  • A contrapartida desse empobrecimento geral veio sob a forma de um forte crescimento dos ativos financeiros em poder dos muito ricos. Considerando as várias aplicações em títulos federais e privados, fundos de investimento e outras formas de investimento financeiro (excluída a caderneta de poupança), o estoque de “riqueza financeira” aumento quase 12,9% entre julho do ano passado e julho deste ano, saindo de praticamente R$ 6,436 trilhões (87,6% do Produto Interno Bruto) para R$ 7,264 trilhões (em torno de 89,5% do total de riquezas geradas pelo País).
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