terça-feira, 1 de setembro de 2026

Gasto com juros no governo central supera R$ 1,0 trilhão em 12 meses

Lauro Veiga Filhopor em
Gasto com juros no governo central supera R$ 1,0 trilhão em 12 meses
Foto: Pedro França/Agência Senado

A escalada das despesas com juros no governo central muito dificilmente vai gerar manchetes de primeira página e nem mesmo nas seções de economia dos jornalões nacionais. Não haverá comoção, muito menos indignação e nem revolta contra a “gastança” dos juros. Essa rubrica, no entanto, ameaça já há tempos o equilíbrio nas contas do setor público central, entidade que consolida os números do Tesouro, da Previdência Social e do Banco Central (BC), gerando rombos crescentes e drenando recursos que poderiam ser destinados a políticas mais nobres e socialmente mais justas, a exemplo daquelas desenhadas para os setores de saúde e educação, por exemplo. E ainda para medidas destinadas a socorrer os mais pobres, contribuindo de alguma forma para amenizar desequilíbrios e iniquidades, agravados pela política de juros extorsivos, que estimula os rendimentos dos mais ricos e promove maior concentração de riquezas no País.

Nos 12 meses encerrados em julho deste ano, os juros nominais pagos pelo governo central extrapolaram a barreira do trilhão, subindo de R$ 899,703 bilhões no acumulado entre agosto de 2024 e julho do ano passado para nada menos do que R$ 1,061 trilhão entre agosto de 2025 e julho último. Em termos reais, quer dizer, depois de descontados os efeitos da inflação sobre aqueles valores, essa despesa aumentou 17,89% – ainda que esse crescimento deixe de certa forma “camuflada” a forte aceleração observada mais recentemente. Tomados a valores nominais, quer dizer, sem descontar o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os gastos com juros passaram a responder por 7,82% do Produto Interno Bruto (PIB), saindo de 6,80% nos 12 meses imediatamente anteriores.

 

O estrago no equilíbrio fiscal

Os juros foram responsáveis ainda por quase R$ 94 a cada R$ 100 do chamado rombo nominal, indicador que considera todas as despesas do governo central, inclusive as despesas de caráter financeiro (que, muito evidentemente, incluem juros e amortizações). O resultado nominal, historicamente negativo dado o peso dos juros na sua composição, elevou-se de R$ 925,225 bilhões nos 12 meses encerrados em julho do ano passado para R$ 1,132 trilhão, variando 22,34% e passando a representar 8,37% do PIB, frente a 7,08% no período anterior. As séries estatísticas da Secretaria Nacional do Tesouro (STN) demonstram o impacto avassalador dos juros sobre o equilíbrio fiscal, gerando estragos continuados. Numa etapa mais recente, houve uma aceleração evidente das despesas com juros, que alargaram a distância em relação aos chamados gastos sociais, aqui consideradas as despesas com abono salarial e seguro desemprego, renda mensal vitalícia (destinado a idosos e deficientes de famílias de baixa renda), Bolsa Família, educação, saúde e assistência social.

 

Balanço

Nos primeiros sete meses deste ano, a valores de julho passado, os juros consumiram R$ 617,631 bilhões, diante de R$ 490,438 bilhões nos mesmos sete meses do ano passado, num salto de 25,93% em termos reais. Nessa comparação, o gasto aumentou em R$ 127,193 bilhões. Em relação ao PIB do período, agora a valores nominais, os juros sofreram elevação de 6,36% para 7,79%.

A relação entre juros e o resultado nominal, que havia alcançado 87,54% nos sete meses iniciais de 2025, avançou para 88,35% em igual período deste ano. O déficit nominal cresceu quase proporcionalmente, num salto de 24,79% em termos reais, ao subir de R$ 560,223 bilhões para R$ 699,091 bilhões, o que mostra uma variação de R$ 138,868 bilhões em termos absolutos. Vale dizer, o aumento dos gastos com juros foi responsável por 91,56% do incremento acumulado pelo déficit nominal.

Observando o resultado primário, que desconsidera as despesas com juros, registrou-se de fato uma piora relativa, causada em parte (e ainda) pelo pagamento de sentenças judiciais e precatórios em diversas áreas, envolvendo a Previdência, a folha de salários, benefícios de prestação continuada e ainda nas áreas de custeio e de capital. Na soma geral, aqueles gastos saíram de R$ 83,210 bilhões entre janeiro e julho do ano passado, em termos reais, para R$ 90,892 bilhões, numa variação de 9,23% (em torno de R$ 7,682 bilhões a mais).

As receitas líquidas no período registraram variação de 5,93% igualmente em termos reais, passando de pouco mais do que R$ 1,415 trilhão para R$ 1,499 trilhão, em torno de R$ 83,5 bilhões a mais. As despesas totais, evidentemente sem os juros, subiram alguma coisa acima das receitas, variando 6,25% entre os sete meses iniciais do ano passado e igual intervalo deste ano, saindo de R$ 1,487 trilhão para pouco menos de R$ 1,580 trilhão.

Dado a discrepância na intensidade de crescimento daquelas duas contas, o déficit primário cresceu 12,44%, saindo de R$ 71,471 bilhões para R$ 80,365 bilhões, o que significou alta de R$ 8,894 bilhões.

A exclusão dos precatórios mostra que o restante das despesas apresentou de fato uma variação muito próxima da elevação registrada pelas receitas. Neste caso, os gastos nas demais rubricas elevaram-se de R$ 1,404 trilhão para R$ 1,489 trilhão, variando 6,08%, num acréscimo de R$ 85,318 bilhões. Neste caso, o resultado primário passa a ser positivo, ainda que em ritmo decrescente, saindo de R$ 11,846 bilhões para R$ 10,527 bilhões, em baixa de 11,13%.

Os gastos sociais responderam por quase 47% do incremento das despesas totais (incluídos os precatórios no caso), demonstrando maior centralidade na execução orçamentária, considerando apenas despesas primárias, quer dizer, sem incluir os juros. Essas despesas subiram de R$ 426,788 bilhões para R$ 470,273 bilhões, em alta real de 10,19% (ou quase R$ 43,485 bilhões a mais). Sua participação na despesa total avançou de 28,70% para 29,77%.

A inclusão dos juros altera essa leitura, já que esse tipo de gasto passou a superar as despesas sociais em 31,33% neste ano. Entre janeiro e julho do ano passado, os valores desembolsados para fazer frente aos juros haviam superado os gastos sociais em 14,91%.

O aumento mais vigoroso das despesas com saúde e educação, que somadas explicam 83,84% do aumento das despesas sociais, cresceram, pela ordem, 19,51% (de R$ 126,359 bilhões para R$ 151,010 bilhões) e nada menos do que 54,19% (de R$ 21,792 bilhões para R$ 33,601 bilhões). Os avanços compensaram o corte de R$ 8,843 bilhões no Bolsa Família, com os desembolsos recuando de R$ 100,692 bilhões para R$ 91,850 bilhões, numa redução de 8,78%.

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.