Geração eólica atrai investimentos de quase US$ 14,0 bilhões até 2024

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 19 de outubro de 2021

Ao longo dos últimos 10 anos, a produção de energia elétrica a partir do aproveitamento dos ventos no País recebeu investimentos literalmente bilionários e tende a se consolidar, nos próximos anos, como uma alternativa renovável e limpa para suprir a demanda. Na contabilidade da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), na década encerrada no ano passado, as plantas de energia eólica receberam investimentos próximos a US$ 35,8 bilhões, o que permitiu ao setor multiplicar em quase 11 vezes sua capacidade instalada, saindo de 1.524 megawatts em 2011 para 17.747 MW no ano passado. Atualmente com 726 parques eólicos em operação, dos quais 630 em Estados nordestinos, e potência instalada de 19.103 MW, representando perto de 11,0% da capacidade total do sistema elétrico brasileiro, a indústria do setor já engatilha investimentos de praticamente US$ 14,0 bilhões entre este ano e 2024, segundo ElbiaGannoum, presidente da associação.

Os novos projetos, parte contratados em leilões já realizados no mercado regulado e a maioria negociada no mercado livre, deverão elevar a capacidade para 30.203 MW até o final daquele período, acrescentando 12.456 MW em quatro anos, num avanço de 70,2% sobre 2020. Para este ano, os dados da ABEEólica colocam a potência instalada nos parques eólicos em 20.177 MW, em alta de 13,7% frente ao ano passado. “Os investimentos em fontes renováveis não convencionais (categoria que inclui eólica, solar e parte da biomassa) apresentam trajetória virtuosa de crescimento, sob liderança da eólica”, afirma Elbia.

Escalada

O início dos leilões de energia de reserva exclusivos para a fonte eólica, em 2009, marcou o início da escalada no setor, que respondia ali por menos de 1,0% da potência total do sistema. A arrancada ganhou fôlego renovado a partir de 2018, com o aquecimento do mercado livre, movimentado, de acordo com Elbia, pelo número crescente de contratos firmados diretamente entre parques eólicos e grandes empresas em busca de fontes limpas e renováveis. O incremento derivou ainda do barateamento nos custos, tornando a energia eólica a fonte mais barata em 2017. “Nos leilões daquele ano, nossa energia tornou-se mais barata do que a da usina de Belo Monte e foi negociada a R$ 98 por megawatt/hora”, sustenta Elbia. Entre 2018 e 2019, as vendas no ambiente de livre contratação responderam por 75% da energia produzida. No ano passado, diante da suspensão dos leilões no ambiente regulado, toda a energia nova gerada pelo setor foi negociada no mercado livre.

Balanço

  • Neste ano, embora os números no mercado regulado tenham sido pouco animadores até aqui, as perspectivas continuam positivas no segmento livre. No leilão A-5 de energia nova, realizado em setembro deste ano, apenas 11 projetos de parques eólicos saíram vitoriosos, entre 690 cadastrados, correspondendo à contratação de 161,3 MW de potência, em torno de 0,7% do volume ofertado originalmente pelo setor.
  • Em plena “safra dos ventos”, que vai de julho a novembro de cada ano, os parques em operação “estão salvando o Brasil de um racionamento”, considera Elbia, lembrando que a energia entregue pelo setor, em alguns momentos daquele período, chegou a representar um quinto da demanda de todo o Sistema Integrado Nacional (SIN). No dia 21 de julho, a energia eólica respondeu por 99,9% da demanda da região Nordeste, significando o fornecimento de 11.094 MW médios no dia, contribuindo para poupar os reservatórios de água numa fase de crise hídrica severa.
  • Um mecanismo de regulação que preveja remuneração para a energia armazenada em baterias ajudaria a reduzir esse caráter intermitente das energias eólica e solar, argumenta Roberta Bonomi, presidente da Enel Green Power. O uso de baterias, tecnologia já disponível, mas ainda não aplicada nos parques brasileiros, poderia prevenir problemas de interrupção da geração como os ocorridos em julho e agosto passados, quando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determinou cortes durante alguns períodos por conta de gargalos na transmissão. “O ciclo da geração eólica e solar é mais curto do que o ciclo da transmissão. É preciso que a transmissão siga um planejamento antecipado em direção a um sistema mais moderno e mais estável”, comenta ainda.
  • Maior produtora de energia eólica e solar do país, com potência instalada de 1.498 megawatts em suas plantas eólicas e mais 979 MW em energia solar, a Enel Green Power investiu em torno de R$ 11,0 bilhões entre 2016 e 2020 em projetos de energia limpa, multiplicando sua capacidade por seis no período. A empresa investe, no momento, perto de R$ 5,6 bilhões em quatro empreendimentos eólicos e um solar, todos em fase final de construção, somando uma potência instalada adicional de 1,3 gigawatts. “Esse volume corresponde a um terço da capacidade que o grupo Enel começou a construir em todo o mundo em 2020”, sustenta Roberta.Parte dos recursos, em torno de € 360,0 milhões (ao redor de R$ 2,30 bilhões), será investida na ampliação do parque eólico Lagoa dos Ventos, no Piauí, o maior da América do Sul, que terá sua capacidade ampliada de 716 para 1.112 MW, passando a gerar 5,0 terawatts/hora de energia por ano ou 51,5% a mais.
  • A Casa dos Ventos disparou investimentos de R$ 7,5 bilhões para colocar em operação três parques eólicos com capacidade somada de 1.549,2 MW. O primeiro deles, o Complexo Eólico Folha Larga Sul, iniciou a operação em abril de 2020, em Campo Formoso, na Bahia, com potência para 15,2 MW e 36 aerogeradores. Ainda neste semestre, conforme Araripe, deverá entrar em funcionamento a primeira etapa do Complexo Eólico Rio do Vento, no Rio Grande do Norte, com capacidade para 504 MW. A segunda etapa, com potência prevista de 534 MW, iniciará a entrega de energia em 2023. Localizado na região de Morro do Chapéu, na Bahia, o Complexo Eólico Babilônia Sul deverá entrar em operação em 2022, com 360 MW de potência instalada.
  • A empresa antecipa a definição de investir em três novos complexos eólicos entre 2024 e 2025, acrescentando 1,5 GW à capacidade atual. A Casa dos Ventos vem estruturando ainda plantas solares, com capacidade projetada para 600 MW, para reforçar a geração eólica e agregar maior estabilidade e eficiência ao sistema. A Casa dos Ventos trabalha ainda com um pipeline (projetos em formatação) superior a 20 GW, “o maior do País”, conforme empresa.
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