Coluna

Gigante, Washington Novaes lutou pelo meio ambiente e pelos índios

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 26 de agosto de 2020

O
jornalismo brasileiro está hoje de luto. Se não está, deveria. Pois perdeu um
gigante em coragem, inteligência, caráter, competência e generosidade.
Inspirador e formador de gerações de jornalistas, entre as
quais este colunista se inscreve, humildemente, Washington Novaes deixou este
mundo na segunda-feira, 24, aos 86 anos. Poético e visionário, mas radicalmente
ocupado das coisas desse país que parece ter perdido o rumo, nessa já alongada
noite de embrutecimento e estupidez, Washington foi um dos pioneiros do que
hoje se chama, talvez de uma forma que ele próprio recusasse, de jornalismo
ambiental. Também assumiu com brilho e destemor a defesa da causa indígena, num
país que insiste em maltratar e dizimar seus povos originais. Sempre armado de
montes de informações e dados, trabalhados com apuro e precisão, ajudado por
uma memória invejável e décadas de experiência de quem vivenciou alguns dos
períodos mais críticos da história recente do País.

Mas
foi mais. Foi responsável por iniciar, ainda em tempos de ditadura, o debate
sobre a ética no jornalismo, colocando em discussão questões que a própria
imprensa evitava então e, anos depois, trataria de jogar no lixo de vez ao
embarcar de cabeça em campanhas de difamação e de destruição de reputações, com
uma agenda política muitas vezes contrária aos interesses reais da nação. Mais
tarde, já nos primeiros anos da redemocratização, à frente da redação do antigo
Diário da Manhã, aqui em Goiânia, para onde se transferiu com toda a família no
começo dos anos 1980, Washington liderou a mais notável experiência democrática
jamais experimentada por uma redação jornalística, enfrentando a oposição dos
próprios jornalistas – de alguns ao menos. Abriu a redação para representantes
de bairros e outras comunidades, que passaram a discutir o jornal abertamente
e, mais do que isto, a sugerir pautas, apontar distorções em todos os setores
da vida urbana e a criticar o próprio jornal.

Falência
anunciada

Depois
de retornar do Xingu, onde realizou dois documentários premiadíssimos, com
justiça, Washington gostava de contar que, além de não terem chefe, os índios
conseguiram alcançar uma forma quase absoluta de autonomia. De uma certa
maneira, antevia com indignação, o extermínio de sua cultura corresponderia à
falência de nossa civilização, como possibilidade e como projeto humano. Gigante,
o jornalista Washington Novaes, “especialista em generalidades”, como
referia-se a si mesmo, descansou.

Balanço

·  
De
volta ao mundo embrutecido dos dias que correm, enquanto os austericidas na
equipe econômica e nas melhores escolas de economia do País insistem num ajuste
fiscal destruidor, os dados da inflação continuam mostrando – como parece óbvio
– uma economia bastante deprimida, sem fôlego sequer para permitir o repasse de
altas de preços nos mercados atacadistas para o consumidor final.

·  
O
Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), referente ao
período entre 15 de julho e 13 de agosto deste ano, recuou para 0,23%, apesar
de alguma aceleração nos preços dos alimentos. A alta nos preços aqui foi
compensada pela desaceleração observada em cinco outros grupos de despesas
(habitação, artigos residenciais, vestuário, transportes e educação, em forte
baixa de 3,27%).

·  
Para
comparação, o IPCA-15 de julho (aferido entre a segunda quinzena de junho e a
primeira do mês seguinte) havia alcançado 0,30%. A taxa encerrou os 30 dias de
julho em 0,36%, o que demonstrava ligeira elevação, revertida nas duas
primeiras semanas de agosto (sempre considerando a taxa acumulada em 30 dias).

·  
A
inflação acumulada em 12 meses recuo ligeiramente de 2,31% em julho para 2,28%
na medição seguinte, anotada pelo IPCA-15 de agosto. Na média, a taxa média dos
chamados “núcleos” da inflação – indicador que exclui preços de produtos e
serviços mais voláteis e consideram, ainda, setores mais influenciados pela
evolução da demanda – passou de 0,11% em julho para 0,14% em agosto, de acordo
com a medição do Itaú BBA.

·  
A
XP, que reflete os interesses do chamado “sistema financeiro profundo”,
trabalha com variações de 0,07% e 0,14% para a taxa média dos mesmos “núcleos”
em julho e agosto. Nas contas do banco de investimento, a taxa média acumulada
em 12 meses baixou de 3,02% na marcação de agosto de 2019 para 1,97% até o
mesmo mês deste ano (sempre considerando o período de 12 meses até a primeira
quinzena de cada um daqueles meses).

·  
As
apostas dos dois bancos para este ano sugerem variação de 1,70% e de 1,40% para
o IPCA e algo entre 2,7% e 2,8% em 2021, muito abaixo do piso da meta fixada
pelo Banco Central (BC).

·  
Para
completar o cenário de muita fraqueza na economia, puxado pelo câmbio e pelas
altas de algumas commodities (soja, minério de ferro e petróleo, entre outras)
e pelo avanço do dólar, o índice de preços no atacado aferido pela Fundação
Getúlio Vargas (FGV) até o segundo decênio de agosto, no acumulado em 12 meses,
saltou 17,49%. No mesmo período, os preços ao consumidor subiram apenas 2,28%.
Traduzindo: não há espaço para que as empresas sequer consigam repassar altas
de custos no atacado. Um arrocho nas despesas públicas, neste cenário, colocará
a economia diante do risco de um colapso de consequências ainda mais graves.

 

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