Governo gasta R$ 5,18 bilhões do caixa e poupança despenca 58%
Numa estratégia deliberada, conforme nota técnica distribuída no final de janeiro pela Secretaria da Economia de Goiás, o Estado decidiu injetar parte das reservas fiscais acumuladas nos últimos anos principalmente para reforçar investimentos ao longo do ano passado.
Entre outros efeitos da política desenhada pelo gestor fiscal, a disponibilidade líquida de caixa, depois de descontados recursos empenhados e não gastos no exercício, sofreu queda nominal de 36,37% em relação a 2024, encolhendo de R$ 14,247 bilhões para R$ 9,065 bilhões, o que correspondeu a uma redução de R$ 5,182 bilhões, de acordo com dados do Relatório de Gestão Fiscal (RGF). A poupança corrente, diferença entre despesas e receitas correntes, sofreu queda de quase 58%.
Comparado às receita corrente líquida, a posição do caixa líquido estadual foi a mais baixa desde 2021, embora o percentual registrado tenha se mantido em níveis ainda elevados, especialmente quando comparados aos dados alcançados entre o final de década passada e o primeiro ano da década em curso.
No ano passado, os recursos disponíveis em caixa haviam correspondido a 33,66% da receita líquida, nível mais elevado desde que esse tipo de estatística passou a ser divulgado pelo portal da transparência, em 2015. O percentual caiu para 19,98% no ano passado, superando apenas o dado de 2021, quando o caixa havia representado 13,94% das receitas.
Em 2019 e 2020, pela ordem, as disponibilidades de caixa haviam sido negativas, equivalentes a 6,35% e a 5,94% da receita corrente líquida.
Em nota, a secretaria afirma que o Estado “utilizou a solidez construída no período de ajuste para ampliar entregas à população”, ressaltando ainda que os “resultados fiscais refletem a escolha de transformar poupança financeira em investimentos e expansão de serviços públicos, preservando o equilíbrio estrutural das contas”.
Ainda na avaliação da secretaria, a estratégia escolhida pelo gestor fiscal teria permitido “reduzir passivos, antecipar pagamentos e ampliar a capacidade de investimento e de prestação de serviços, ao mesmo tempo em que manteve os principais indicadores fiscais dentro dos limites legais”.
Investimentos
Como mostram os relatórios resumidos da execução fiscal, aquela política levou a um crescimento nominal de 22,91% nas despesas primárias entre 2024 e 2025, diante de uma variação de 6,43% para as receitas primárias, transformando o superávit de R$ 2,350 bilhões, antes de juros e amortizações, em um déficit de R$ 4,558 bilhões (O Hoje, 03/02/2026).
Enquanto os gastos correntes primários experimentaram alta de 18,26% nos números do relatório do ano passado, os investimentos receberam uma injeção igualmente relevante, saltando 90,35% de acordo com a nota da secretaria, avançando de R$ 3,79 bilhões em 2024 para R$ 7,21 bilhões no ano seguinte e saindo de 8,95% para 15,90% da receita corrente líquida realizada naqueles dois exercícios.
Balanço
- Ainda de acordo com a secretaria, “na prática, o Estado praticamente dobrou a aplicação de recursos em obras e projetos estruturantes (…), evidenciando a decisão do Estado de converter reservas financeiras acumuladas em obras, equipamentos públicos e modernização da infraestrutura”. Na visão oficial do fisco, aqueles resultados estão “inseridos em uma trajetória de equilíbrio fiscal construída ao longo do tempo, que permitiu ampliar a capacidade de investimento de forma planejada e sustentável”.
- Sempre sob o ponto de vista da Secretaria da Economia, a decisão de ampliar despesas e investimentos, sacrificando parte da “poupança” acumulada a partir de 2021, não teria colocado sob risco a situação fiscal do Estado, assim como não teria afetado sua capacidade de pagamento.
- Nos termos da nota divulgada em 29 de janeiro, “os indicadores da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) também permaneceram em patamar confortável. O gasto com pessoal encerrou o ano abaixo dos limites de alerta e máximo, e a relação entre dívida e receita corrente líquida apresentou trajetória controlada, demonstrando que a ampliação de despesas ocorreu sem comprometimento da sustentabilidade fiscal”.
- As despesas com pessoal, considerando apenas as contas da administração central, sem incluir os demais poderes, conforme o RGF, demonstraram evolução apenas moderada, numa variação nominal de 2,91% na passagem de 2024 para 2025. Aqueles gastos variaram de R$ 17,612 bilhões, ao redor de 41,70% da receita corrente líquida ajustada, para R$ 18,124 bilhões, reduzindo aquela relação para 39,96%, em torno de 6,96% abaixo do limite de alerta, na faixa de R$ 19,840 bilhões (ou 43,74% da receita líquida).
- Na mesma linha, a dívida consolidada líquida manteve-se muito aquém do teto máximo fixado por resolução do Senado, ainda que tenha experimentado um salto de 47,64% na comparação com 2024, subindo de R$ 10,284 bilhões para R$ 15,184 bilhões. Comparada à receita corrente líquida, a dívida avançou de 24,32% para 33,47%, mantendo-se ainda 83,27% abaixo do teto máximo, atualmente ao redor de R$ 90,740 bilhões.
- A relação entre despesas correntes liquidadas nos 12 meses do ano passado, acrescidas de restos a pagar não processados, cresceu de 85,53% para 94,32% e se aproximou do teto máximo de 95%, superando o limite inferior de 85% definido pela legislação. Em valores nominais, a soma de despesas e restos a pagar não processados atingiu R$ 46,707 bilhões no ano passado, crescendo 18,22% frente a R$ 39,510 bilhões em 2024, ou seja, R$ 7,197 bilhões a mais.
- As receitas correntes realizadas naqueles mesmos exercícios cresceram bem menos, num avanço de 7,19%, passando de R$ 46,195 bilhões para R$ 49,518 bilhões (perto de R$ 3,323 bilhões a mais). Como resultado, a poupança corrente (despesas menos receitas correntes) despencou 57,96%, com enxugamento de R$ 3,874 bilhões, saindo de R$ 6,685 bilhões (14,47% das receitas) para R$ 2,810 bilhões (5,68% das receitas correntes).