sexta-feira, 3 de julho de 2026

Inadimplência bate novo recorde e dívidas em atraso crescem 32,5%

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 2 de julho de 2026

Com os juros médios cobrados de pessoas físicas batendo em 62,8% ao ano em maio deste ano, nas operações de livre contratação no sistema financeiro, a taxa de inadimplência nesta área atingiu novo recorde, saindo de 6,38% em maio do ano passado para 7,57% no mesmo mês deste ano. O salto nas despesas com juros passou a drenar parcelas crescentes da renda das famílias, dificultando o pagamento das dívidas contratadas a bancos e demais instituições financeiras, numa conta que deixa de fora a renda comprometida com o crediário no setor varejista.

Entre outras consequências, essa combinação de empréstimos e financiamentos em ritmo crescente, juros nas nuvens e alta no comprometimento da renda familiar com pagamento de compromissos financeiros fez disparar as dívidas em atraso. O tamanho da dívida não honrada pelas famílias pode ser estimada a partir da taxa média de inadimplência das pessoas físicas informada pelo Banco Central (BC) para o segmento de crédito a taxas de juros “livres” e dos dados mostrando o saldo do crédito no mesmo segmento.

Nesta estimativa, o valor dos empréstimos e financiamentos em atraso teriam experimentado um salto de 32,50% na comparação entre maio deste ano e o mesmo mês do ano passado, saindo de R$ 144,88 bilhões para R$ 191,96 bilhões, correspondendo a um aumento real de 26,19% depois de descontada a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Na comparação com maio de 2019, quando as dívidas não honradas em até 90 dias haviam atingido R$ 49,358 bilhões, nesta mesma estimativa, registra-se uma alta nominal de 288,91%. Descontada a inflação de 46,73% acumulada até maio deste ano, os atrasados anotaram um aumento de 165,06%.

O estoque dos créditos tomados pelas famílias no segmento livre do sistema financeiro cresceu numa proporção bem menor, saindo de R$ 2,271 trilhões em maio do ano passado para R$ 2,536 trilhões no mesmo mês deste ano, em valores aproximados, numa variação nominal de 11,67%, correspondendo a um incremento ao redor de 6,35% em termos reais. Desde maio de 2019, quando o saldo daqueles créditos aproximou-se de R$ 1,009 trilhão, ainda nas séries estatísticas do BC, houve um incremento nominal de 151,23%, numa variação real de 71,22%.

 

Renda versus juros

As séries do BC para a renda nacional disponível bruta das famílias trazem dados até abril deste ano e apontam uma variação nominal de 8,56% (numa elevação real de quase 3,40%) em relação a abril do ano passado, avançando de R$ 8,642 trilhões para R$ 9,382 trilhões – algo como R$ 740,034 bilhões a mais. O estoque de crédito contratado pelas famílias, ainda no segmento de taxas de juros “livres”, cresceu um pouco mais, variando 12,12% ao avançar de R$ 2,254 trilhões para R$ 2,528 trilhões. As taxas de juros nesta área subiram de 58,31% para 62,99% (a mais alta deste abril de 2017, quando haviam alcançado 66,60%).

 

Balanço

A partir dos dados acima, pode-se estimar que os gastos das famílias apenas com o pagamento de juros aumentaram 21,12% (alta real de praticamente 15,4%), escalando de R$ 1,315 trilhão para R$ 1,592 trilhão. O percentual da renda (deflacionada e ajustada sazonalmente) gasta com juros e amortizações cresceu de 27,19% em abril do ano passado para 28,19% em igual período deste ano – ainda em níveis historicamente muito elevados.

Ainda de acordo com os números do BC, que servem de base para as estimativas a seguir, a renda nacional bruta disponível das famílias apresentou uma variação nominal e absoluta de R$ 740,034 bilhões entre abril do ano passado e igual mês deste ano. Mas quase 37,5% daquele ganho foram literalmente drenados para fazer frente ao aumento da conta de juros das famílias, já que esses pagamentos registram um acréscimo de R$ 277,587 bilhões naqueles mesmos 12 meses.

Vale dizer, aquela parcela da renda familiar foi “esterilizada”, deixando de gerar novos consumos de bens e de serviços em toda a economia, contribuindo para esfriar os negócios e o ritmo de crescimento da atividade econômica como um todo.

Consultor e CEO da Agroconsult, André Pessôa antecipa um novo “boom” agrícola no Piauí, especialmente em sua porção sul, numa escala talvez superior àquela observada para o oeste baiano nos últimos anos, dado o tamanho das terras ainda não exploradas e com boa aptidão para expansão da agricultura. Ele identifica uma série de movimentos nos entornos leste e oeste do Vale do Gurguéia e ainda em direção à região do Médio Parnaíba, envolvendo o município de Floriano, na divisa com o Maranhão.

A consolidação já ocorrida do polo Petrolina/Juazeiro e a baixa disponibilidade de outorgas para uso da água naquela região, observa Pessôa, tem induzido o avanço de projetos de irrigação rumo a áreas próximas a Canto do Buriti, Eliseu Martins e São Raimundo Nonato, em busca de terras mais baratas, mas sobretudo cm oferta de água e em condições econômicas mais vantajosas. Entre outros projetos, o consultor aponta a presença na região da Itaueira, uma das maiores do País no setor de frutas, com plantios irrigados de melão e melancia em Canto do Buriti e Pajeú do Piauí, num total estimado em 1,0 mil hectares.

O encarecimento das terras em Bom Jesus e Uruçuí, com o valor do hectare atingindo entre R$ 40,0 mil a R$ 60,0 mil, tem estimulado certa expansão das lavouras mais para o leste, 100 a 150 quilômetros na direção de Eliseu Martins e Canto do Buriti. “O produtores estão saindo de uma região com maiores níveis de precipitação para outra com menos chuvas, mas em busca de áreas mais baratas hoje ocupadas por pastagens.

Com 1,0 mil a 1,1 mil metros de altitude, aquelas áreas ainda permitem o plantio de soja com alguma segurança, em integração com a pecuária”, detalha Pessôa. Embora com menor potencial agrícola, tem ocorrido ainda algum avanço da soja rumo à área do Médio Parnaíba, saindo de Uruçuí em direção à região de Floriano, próximo à represa da hidrelétrica de Boa Esperança. Neste caso, os produtores têm combinado plantios de sequeiro e irrigação, sempre com uso da soja.

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