Inadimplência penaliza mais pequenas e micro empresas e setores de serviços
A inadimplência entre as empresas brasileiras passou a apresentar tendência “consistente” de crescimento a partir de 2022, atingindo mais severamente empresas de menor porte, conforme estudo divulgado nesta semana pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES). Entre outras observações e conclusões, após analisar o comportamento da inadimplência das pessoas jurídicas segundo o porte das empresas e seu setor de atividade, o banco de fomento registra que “o período entre 2022 e 2025 sinaliza piora relevante para micro e pequenas empresas e para setores de serviços”.
Ainda de acordo com o trabalho a trajetória de alta da inadimplência naqueles segmentos, num cenário de juros muito elevados e de desaceleração da atividade econômica, combinada com o peso crescente dessas áreas na carteira total [principalmente quando se trata do setor de serviços], indica necessidade de atenção especial às condições de refinanciamento e aos instrumentos de crédito para esse grupo”. Com um agravante, no caso: a inadimplência da empresas, na média geral, continuou a avançar nos primeiros meses deste ano, período não coberto pelo estudo, aproximando-se de 3,2% em maio.
A taxa média de inadimplência entre pessoas jurídicas, que havia alcançado o recorde para o período em 2016, batendo em 3,1%, chegou a recuar para 1,9% em 2019, mas voltou a subir no período posterior à pandemia, alcançando 2,5% no ano passado. Entre as pequenas empresas, a inadimplência saiu de 4,8% em 2022 para 7,6% em 2025, inferior apenas aos 9,0% registrados entre 2016 e 2017, refletindo a recessão que se abateu sobre a economia entre 2015 e no ano seguinte, mas também o risco de crédito relativamente mais elevado entre as empresas de menor porte.
O trabalho elaborado por técnicos do BNDES analisa o período entre 2012 e 2025, dividido em quatro momentos do ciclo econômico no Brasil, e amplia a avaliação ao investigar os impactos da inadimplência por tamanho e por setor de atividade das empresas. Entre 2012 e 2015, registrou-se expansão do crédito para as empresas, com a relação entre o estoque de empréstimos e financiamentos e o Produto Interno Bruto (PIB) alcançando seu nível mais elevado da série histórica em 2015, quando atingiu 28,5%.
Primeiro ciclo
Em valores nominais, o estoque de crédito contratado pelo setor empresarial havia crescido 32,45% ao avançar de R$ 1,292 trilhão ao final de 2012, algo como 26,8% do PIB, para R$ 1,711 trilhão no encerramento de 2025. As condições no mercado de crédito, no entanto, começam a dar sinais de um início de deterioração já final daquele ciclo. “A inadimplência agregada se manteve em patamar relativamente controlado (entre 1,8% e 2,4%), embora já fosse possível observar pressão nos segmentos de menor porte e em setores como o de alojamento e alimentação. Nesse período, a taxa das pequenas empresas oscilou entre 5,2% e 7,1%, muito acima do total geral”, anota o BNDES. O setor de comércio, àquela altura, “já apresentava inadimplência acima de 4%, sinalizando fragilidade no crédito a empresas de menor porte”. A baixa inadimplência na indústria de transformação, até ali responsável ainda por 27% a 30% da carteira total de crédito para pessoas jurídicas, ajudava a segurar os níveis médios da inadimplência.
Balanço
A recessão de 2015 a 2016 produziu, neste último ano, a maior taxa de inadimplência da série, conforme já anotado acima, mas com notórias diferenças a depender do porte da empresa e do setor. A taxa média, como visto, aproximou-se de 3,1%, mas disparou para 9,0% entre as pequenas empresas, “o maior valor registrado para qualquer segmento em qualquer ano da série”. E foi ainda mais elevado no setor de alojamento e alimentação, subindo para 9,3%. A construção registrou inadimplência de 8%. Em 2017, a participação das grandes empresas no crédito total havia atingido seu ponto máximo na série histórica, concentrando 61%, num “reflexo do encolhimento relativo do crédito aos demais portes durante a recessão”.
Os indicadores foram distorcidos pelos anos de pandemia, quando as medidas de restrição à circulação de pessoas derrubaram a atividade econômica, obrigando o setor público a adotar medidas emergenciais para dar suporte à economia. “O período pandêmico gerou uma queda expressiva e atípica da inadimplência”, anota o trabalho, reduzindo a taxa de 1,9% em 2019 para 1,1% em 2020, “o menor valor da série histórica”.
“Esse fenômeno é aparente e não reflete melhora real da capacidade de pagamento das empresas” afirma o estudo, que atribui a redução a um conjunto de três fatores principais, a começar pela ampliação dos prazos de carência de empréstimos e financiamentos e pela adoção, pelo Banco Central e pelo sistema financeiro em geral, de medidas para facilitar a renegociação de dívidas. Ao mesmo tempo, registrou-se vigoroso crescimento do crédito a partir da criação de linhas emergenciais destinadas a micro, pequenas e médias empresas, assim como em favor do setor de eventos. Adicionalmente, os credores em geral, com destaque para instituições do mercado financeiro, adotaram posição mais flexível em relação ao atraso no pagamento de empréstimos, gerando um “represamento temporário da inadimplência, que seria revertido nos anos seguintes”.
Ainda conforme o banco de fomento, a queda da inadimplência ocorreu de forma generalizada. Os setores de alojamento e alimentação, mais fortemente atingidos pela pandemia, reduziram a taxa de 6,7% em 2018 para 3,9% em 2020. Ao mesmo tempo, a fatia da administração pública na carteira de crédito saltou de 9,0% em 2018 para 13,0% em 2020 e 2021, resultado do “acesso ampliado” de Estados e prefeituras ao crédito no período da pandemia, “o que contribuiu para moderar a inadimplência agregada durante o período”.
O esgotamento das medidas emergenciais e o fim da carência do crédito contratado durante a crise pandêmica ajudaram a iniciaram já em 2022 um processo de “aceleração consistente da inadimplência das empresas”, com a média geral saindo de 1,5% naquele ano para 2,2% em 2023 e 2,5% no ano passado. Como fator agravante, o trabalho identifica uma “deterioração das condições financeiras as empresas devido ao ciclo de alta de juros e à maturação dos créditos concedidos durante a pandemia”.
Ao longo do ano passado, a inadimplência entre pequenas empresas chegou a 7,6% e superou a taxa de 7,1% registrada em 2015, aproximando-se dos 9,0% de 2016, “indicando que esse segmento pode estar ingressando em uma nova fase de estresse”. No setor de bares, restaurantes e hotéis, a taxa foi de 8,5% no ano passado, mais próxima de seu pico histórico de 9,3% alcançado em 2016. A participação das grandes empresas no crédito baixou de 59% em 2018 para 50% no ano passado, com a fatia das médias e pequenas empresas chegando a 26% e 14% respectivamente (40% na soma, o que se compara com 21% em 2019).
Esse comportamento, adverte o estudo, “tende a pressionar a inadimplência agregada para cima nos próximos períodos”, lembrando que a taxa entre pequenas empresas chega a ser 19 vezes mais alta do que aquela verificada para as grandes, diferença que tem se mantido em quase todos os anos da série histórica.
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