Coluna

Indústria acumula um semestre de perdas, agravadas pela pandemia

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 04 de junho de 2020

Três
setores contribuíram mais intensamente para induzir os mercados a erro nas
projeções distribuídas nas últimas semanas em relação ao desempenho da
indústria em abril, o que não atenuou os resultados historicamente negativos
colhidos naquele mês. E que ainda deixam um saldo pouco lisonjeiro para maio,
quando se espera um desempenho ligeiramente melhor para o setor (e por
ligeiramente melhor entenda-se alguma elevação em relação ao fundo do poço,
aparentemente alcançado em abril, mas ainda com números negativos na comparação
com maio de 2019).

Não
por coincidência, foram precisamente os setores que conseguiram manter algum
crescimento em meio à pandemia (e até por conta dela, ainda que esse tipo de
afirmação possa parecer paradoxal). As indústrias de produtos alimentícios,
limpeza e higiene pessoal e outros químicos, na contabilidade do Itaú BBA,
respondem por metade do “erro” observado em abril, quando se considera uma
previsão de retração de 33,1% para a produção frente ao mesmo mês do ano
passado e o resultado enfim captado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) em sua pesquisa mensal da produção industrial, que apontou
retração de 27,2% nessa comparação – recorde negativo na série histórica do
instituto, marcando seis meses, um semestre completo, de perdas no comparação
com os mesmos meses do ano imediatamente anterior.

Em
março e abril, observa ainda o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento
Industrial (Iedi), “a pandemia de covid-19 já retirou da indústria mais de um
quarto de sua atividade”, causando uma retração de 26,1%. Com as perdas
realizadas até aqui, acrescenta o Iedi, a indústria perdeu em quatro meses “tudo
aquilo que perdeu entre janeiro e dezembro de 2015, o pior ano da história
recente do setor”. Nos dois casos, a retração alcançou 8,2%. Embora os números
tenham superado as previsões muito mais pessimistas antecipadas pelo mercado,
cujas previsões embutiam quedas desde 7,5% a 45,5% de março para abril, o tombo
mensal de 18,8% não foi nada trivial e mostra que a indústria exigirá cuidados
especiais para que se consiga alcançar alguma retomada mais sustentada, mesmo
porque a produção já vinha se arrastando desde antes da chegada do Sars-CoV-2
no País. O tombo chegou a 27,2% em relação a abril de 2019, com recuo acumulado
de 8,2% no primeiro quadrimestre deste ano. Na hipótese mais provável de uma
duração da pandemia por um prazo muito mais longo do que o aguardado pelos
mercados, a necessidade de retomar medidas de maior isolamento antecipa uma
crise mais prolongada, por óbvio, sugerindo que suspiros de alívio ao longo dos
próximos meses poderão não passar de meros suspiros mesmo.

Altos e baixos

O
desempenho da produção, desagregado por setor de atividade, carrega algum
alento (mas nem tanto assim) para a indústria em Goiás, centrada em alimentos,
farmoquímicos e farmacêuticos, que anotaram crescimento respectivamente de 3,3%
e de 6,6% de março para abril. Como contraponto, outros setores com
participação relevante na estrutura industrial do Estado sofreram baixas
severas, com perdas de 48,8% para couro e calçados, de 38,6% para a indústria
têxtil e quedas ainda de 37,6%, de 37,5% e de 36,7% para os segmentos de
bebidas, confecções de roupas e móveis. A indústria de veículos experimentou a
pior retração, encolhendo 88,5% em relação a março, com redução ainda de 18,4%
para o setor de petróleo, derivados e biocombustíveis.

Balanço

·  
Na
avaliação do Iedi, o “colapso” da produção industrial em abril teve a
contribuição extremamente negativa das medidas de isolamento social adotadas
desde a segunda quinzena de março, mas também da “queda acentuada das
exportações de manufaturados, rupturas de cadeias de fornecedores e (do) quadro
de elevado medo e incerteza, bloqueando decisões de investimento e de consumo
de muitos bens industriais”.

·  
Em
volume, conforme dados do IBGE, as exportações em geral sofreram baixa de 2,9%
na comparação entre o primeiro quadrimestre deste ano e o mesmo período do ano
passado, com retração de 16,6% para as vendas externas de bens manufaturados.

·  
A
indústria de bens duráveis, mais dependente de crédito e ainda de alguma
contribuição não desprezível da renda das famílias, tem sofrido mais
intensamente os efeitos da crise, com perda de nada menos do que 85,0% em abril
(frente ao mesmo mês de 2019). Os setores de automóveis e eletrodomésticos
sofreram retrações de 99,9% e de 58,7% naquela mesma comparação.

·  
Isoladamente,
o tombo de 92,1% na produção de veículos em geral contribuiu com quase 35,0%
para a queda na produção de toda a indústria. Portanto, qualquer “melhoria” em
relação a um nível quase nulo de produção poderá trazer algum impulso para os
resultados da indústria como um todo em maio – o que pode não significar muita
coisa diante das dimensões do desastre.

·  
Nas
apostas delirantes do superministro dos mercados, senhor Paulo Guedes, o
investimento privado deveria ser o grande responsável por trazer de volta o
crescimento, provavelmente já no terceiro trimestre deste ano. Os números
colhidos pelo IBGE mostram o tamanho desse desafio e colocam as ficções de
Guedes na mesma categoria de devaneios de uma tarde primaveril no Palácio do
Planalto.

·  
A
produção de bens de capital, categoria que inclui máquinas, equipamentos,
caminhões e ônibus e bens destinados à fabricação de outros produtos
industriais, sofreu baixa de 41,5% em abril, na comparação com março (quando
havia sofrido queda de 15,5%). Em igual período, a produção de máquinas e
equipamentos, de máquinas, aparelhos e materiais elétricos e de outros
equipamentos de transporte sofreram perdas de 30,8%, de 33,8% e de 76,3%,
respectivamente. Apenas 9,6% de todos os produtos manufaturados pelo setor de
bens de capital alcançaram algum crescimento em abril.

·  
Na
comparação com abril do ano passado, a produção de bens de capital desabou
52,5%, com a contribuição negativa de máquinas e equipamentos destinados à
indústria (-41,5%), à agricultura (-34,5%, basicamente máquinas agrícolas), ao
setor de transporte (-82,9%) e à construção civil (-34,2%).

 

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