Indústria “anda de lado” em abril e varia 0,1% em relação a março
A produção industrial parece ter entrado em “modo estagnação” neste começo de segundo trimestre, como mostram os dados apurados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em sua pesquisa mensal sobre o desempenho da atividade na indústria brasileira. A produção, que havia crescido 1,2% em março, variou apenas 0,1% em abril, na comparação com o mês anterior, já descontados efeitos sazonais, ou seja, descontados fatores e eventos que sempre se repetem numa mesma época todos os anos – a exemplo dos feriados da Semana Santa e de Tiradentes, que neste ano caíram, respectivamente, na sexta, 18, e na segunda-feira, 21 de abril.
Apesar de ter apresentado números positivos entre janeiro e abril, depois de três meses de baixas consecutivas, o ritmo tem deixado a desejar, com a
atividade industrial literalmente “andando de lado”. O volume produzido pela indústria em abril, por exemplo, ainda na série com ajuste sazonal,
mantinha-se praticamente nos mesmos níveis registrados pela pesquisa do IBGE em junho do ano passado, enquanto a indústria de transformação, que recuou 0,5% na saída de março para abril, chegou a anotar baixa de 1,1% frente a junho de 2024.
Na análise do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), “taxas de juros em elevação, incertezas externas e internas na condução de política econômica e fatores climáticos [no caso do setor de açúcar e etanol], mesmo que pontuais, vêm contribuindo para isso”. Ainda na virada de março para abril, o setor mais afetado foi o de produção de bens semi e não duráveis, que apresentou baixa de 1,9% depois de avançar 2,8% de fevereiro para março.
Resultados alternados
Ainda entre os chamados “macro setores”, a indústria de bens de capital reverteu a baixa de 0,5% observada em março e cresceu 1,4% em abril, sempre em relação ao mês imediatamente anterior, enquanto a fabricação de bens intermediários, segmento classificado pelo Iedi como “o núcleo
duro do sistema industrial”, subiu 0,7% em abril, na terceira alta mensal em sequência (depois de anotar baixa de 1,5% em janeiro e avanços de 0,9% e de 0,5% respectivamente em fevereiro e março). O setor de produção de bens duráveis apresentou desaceleração em abril, quando anotou variação de apenas 0,4% depois de crescer 3,8% em março. O desaquecimento veio embalado pelas montadoras de veículos, que saíram de uma alta de 4,1%
em março para experimentarem variação de 1,0% em abril.
Balanço
- Na comparação com abril do ano passado, o conjunto da indústria experimentou recuo de 0,3%, com queda de 3,3% para o setor de bens de capital, que já havia recuado 0,8% em março, sugerindo uma possível interrupção no crescimento observado até aqui; alta de 1,9% na produção de bens intermediários (saindo de crescimento de 3,9% em março); e redução de 4,2% na produção de bens de consumo.
- Naquele último setor, embora a indústria de bens duráveis tenha apresentado crescimento pelo 11º mês consecutivo, avançando 2,0% em abril (taxa inferior à variação de 2,7% observada em março), o setor de semi e não duráveis desabou 5,4%. Segundo o IBGE, o tropeço na indústria de semiduráveis deveu-se, com destaque, à redução de 3,2% na produção de alimentos e bebidas elaborados para consumo doméstico, explicada, por sua vez, pela queda na produção de “carnes e miudezas de aves congeladas, açúcar refinado de cana- de-açúcar, biscoitos e bolachas, arroz, carnes de bovinos frescas ou refrigeradas, massas alimentícias secas, café torrado e moído e complementos alimentares e suplementos vitamínicos”.
- Como se percebe, os dissabores atingiram um amplo leque de setores na área de alimentos e bebidas, mas houve um tombo ainda de 9,2% para a produção de carburantes, atingindo basicamente a produção de etanol. A produção de não duráveis, por sua vez, sofreu retração de 6,7% em abril, frente ao mesmo período de 2024, com perdas para as industrias de medicamentos, sabonetes, sabões e detergentes, além de “ preparações capilares”, vacinas e soros, desinfetantes, impressos publicitários, artigos de plástico descartáveis e amaciantes.
- Na avaliação do Iedi, “em grande medida, o freio do dinamismo industrial vem se dando na produção de bens de consumo, o que sugere uma acomodação da demanda das famílias, ainda que fatores climáticos também tenham tido influência, a exemplo da produção de açúcar e álcool”. Os dados da União da Indústria de Cana de Açúcar (Unica) mostram uma redução de 39% na produção de açúcar na região Centro-Sul em abril e baixa de 19% na produção de etanol, ambas comparadas com o mesmo período do ano passado.
- Setor chave na construção de possibilidades de crescimento futuro não só para a indústria, mas para a economia como um todo, a indústria de bens de capital tem apresentado redução no ímpeto de crescimento, em aparente mudança de rumos (a ser confirmada – ou não – nos próximos meses). A reação nesta área iniciou-se a partir do segundo trimestre do ano passado, como relembra o Iedi, gerando uma sequência de 11 meses de crescimento, entre abril do ano passado e fevereiro deste ano, com variações de dois dígitos em boa parte do período, a exemplo do salto de 16% observado em outubro. Em fevereiro deste ano, a pesquisa do IBGE havia apontado variação de 8,8% em relação ao mesmo mês de 2024. Em março e abril, para reforçar, a produção sofreu baixas de 0,8% e de 3,3%.
- Na visão do Iedi, “a intensidade daquela queda reflete em parte o efeito calendário adverso mencionado anteriormente [já que abril deste ano teve dois dias úteis a menos do que no mesmo mês do ano passado], tal como para os demais casos, mas não altera a tendência de acomodação”. Parte relevante da redução veio das quedas de 12,0% na produção de bens de capital para o setor de transporte e de 12,7% para a indústria de construção. Os bens de capital de uso misto e destinados à indústria cresceram 7,1% e 2,7% respectivamente. Conforme o Iedi ainda, “este é um dado positivo,
pois pode indicar investimentos no setor, tão necessários para a
modernização de nossa indústria”.
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