sexta-feira, 6 de março de 2026

Indústria atinge menor participação no total de ocupados desde 2012

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 6 de março de 2026

A perda de ímpeto observada a partir da segunda metade do ano passado para a atividade econômica como um todo começa a afetar, ainda que de forma suave, o desempenho do mercado de trabalho. Nesse processo, o setor mais penalizado tem sido a indústria, que vem perdendo espaço na composição da mão de obra ocupada desde a recessão de 2015/2016. Desde então, o setor alterna períodos de pequena recuperação com novas quedas, permanecendo abaixo dos níveis observados entre 2012 e 2014. Entre os principais desafios macroeconômicos enfrentados pela indústria estão a ausência, até recentemente, de políticas industriais voltadas a sustentar um setor considerado chave para qualquer projeto de desenvolvimento econômico, além de juros persistentemente elevados e um dólar frequentemente depreciado. Esse conjunto de fatores tem contribuído para o que especialistas classificam como um processo de desindustrialização precoce.

Como consequência desse movimento, a participação da indústria no total de ocupados caiu de cerca de 15,0% nos primeiros trimestres de 2012 — quando atingiu seu ponto mais alto, entre fevereiro e abril daquele ano, com 14,96% — para 12,85% no final de 2016. No ano seguinte, voltou a superar ligeiramente os 13,0%, patamar que se manteve inclusive em 2020, durante a pandemia, quando o emprego total chegou a cair quase 9,0%. Mais recentemente, a ocupação na indústria se aproximou do fundo do poço no segundo trimestre de 2024, quando sua participação recuou para 12,69%, refletindo uma expansão mais acelerada do emprego nos demais setores da economia. Nos trimestres seguintes houve leve recuperação, com a fatia do setor voltando a superar marginalmente os 13,0%, mas esse percentual voltou a se distanciar do patamar ao longo dos últimos seis meses de 2025, encerrando o quarto trimestre em 12,72%. Já no trimestre iniciado em novembro do ano passado e encerrado em janeiro deste ano, o indicador caiu para 12,64%, acumulando recuo de 2,32 pontos percentuais em 13 anos e nove meses, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Na contramão da indústria, o mercado de trabalho como um todo apresentou crescimento significativo ao longo do período. Entre o trimestre encerrado em janeiro de 2013 e o mesmo período finalizado em janeiro deste ano, o número total de ocupados na economia avançou 14,21%, passando de 89,898 milhões para 102,671 milhões de trabalhadores — terceiro melhor resultado da série iniciada em janeiro de 2012, superado apenas pelos trimestres encerrados em novembro e dezembro do ano passado, quando o total de ocupados alcançou 103,019 milhões e 102,998 milhões, respectivamente. No mesmo intervalo, entretanto, a indústria seguiu trajetória oposta, com fechamento de cerca de 200 mil empregos, reduzindo o número de trabalhadores no setor de 13,180 milhões (o equivalente a 14,66% do total de ocupados) para 12,980 milhões, uma queda de 1,5%.

Os dados também mostram mudanças relevantes na composição do emprego no país. Setores como informação e comunicação, atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas, além de administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde e serviços sociais — segmentos que exigem, em média, níveis mais elevados de qualificação profissional — responderam por quase 69% de todo o crescimento da ocupação no período analisado. Entre novembro de 2012 e janeiro de 2013, essas áreas empregavam 23,620 milhões de trabalhadores, representando 26,27% do total de ocupações. No mesmo trimestre encerrado em janeiro deste ano, o número saltou 37,22%, com a criação de 8,791 milhões de vagas, elevando o contingente para 32,411 milhões de pessoas, o equivalente a 31,57% de todos os ocupados no país.

Nos últimos meses, entretanto, a geração de empregos parece ter perdido fôlego. Desde novembro, considerando a série trimestral da PNADC, o mercado de trabalho passou a registrar leve retração. Entre o trimestre encerrado em novembro do ano passado e o finalizado em janeiro deste ano, o total de ocupados recuou 0,3%, com o fechamento de 348 mil postos de trabalho. Na avaliação do IBGE, variações dessa magnitude indicam uma tendência de estabilidade. Ainda assim, as oscilações têm sido bastante tímidas, sugerindo possível interrupção do ritmo mais acelerado de expansão observado nos trimestres anteriores.

A indústria teve peso importante nessa mudança de cenário. No período mais recente, o número de ocupados no setor caiu 1,6%, passando de 13,188 milhões em novembro para 12,980 milhões em janeiro, com fechamento de 208 mil vagas — o equivalente a cerca de 59% de todas as ocupações encerradas no período. Apesar disso, na comparação anual o mercado de trabalho ainda apresenta desempenho positivo. Entre o trimestre encerrado em janeiro de 2025 e o mesmo período deste ano, o total de ocupados subiu de 100,988 milhões para 102,671 milhões, com a criação de 1,638 milhão de vagas, enquanto o número de desempregados caiu de 7,062 milhões para 5,851 milhões, redução de 1,211 milhão de pessoas, ou 17,1%. Com isso, a taxa de desemprego recuou de 6,5% para 5,4%.

Mesmo assim, sinais de desaceleração começam a aparecer. Desde novembro do ano passado, o total de desocupados aumentou 6,3%. Naquele momento, havia 5,503 milhões de desempregados, com taxa de desocupação de 5,1%. Até janeiro deste ano, cerca de 348 mil trabalhadores perderam seus empregos, indicando um possível início de desaquecimento do mercado de trabalho. Em contrapartida, os setores de administração pública, assistência social, educação, saúde, informação e comunicação ampliaram o número de contratados em 5,5%, com a criação de 1,686 milhão de vagas, respondendo praticamente por todo o crescimento do emprego no período.

Outro indicador que seguiu em trajetória positiva foi o rendimento dos trabalhadores. O salário real médio atingiu novo recorde, com alta de 5,4% em 12 meses, alcançando R$ 3.652. Já a massa de rendimentos reais cresceu 7,3% no mesmo intervalo, passando de R$ 345,230 bilhões para R$ 370,338 bilhões — um aumento de R$ 25,108 bilhões. Em ambos os casos, os resultados também foram recordes e, diferentemente de outros indicadores do mercado de trabalho, continuaram apresentando aceleração.

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